BATWOMAN – ELEGY

Por Liber Paz
Data: 1 dezembro, 2012

BATWOMAN - ELEGY

Editora: DC Comics – Edição especial

Autores: Greg Rucka (roteiro), J. H. Williams III (arte) e Dave Stewart (cores).

Preço: US$ 17.99

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Junho de 2010

 

Sinopse

Kate Kane é a mulher sob a máscara da Batwoman. Algum tempo atrás, ela quase morreu em um ritual feito por um estranho culto religioso: a Religião do Crime.

Agora, o culto está de volta e possui uma nova líder, uma insana assassina conhecida como Alice.

Kate não pretende esperar o próximo movimento da Religião do Crime e toma a iniciativa de uma abordagem direta. Mas vai descobrir em Alice algo muito mais terrível do que poderia imaginar.

Positivo/Negativo

Precisa-se de um protagonista fantasiado. Superpoderes são opcionais, mas todo super-herói apresenta uma habilidade extraordinária (ou absurda). No mínimo, deve ser capaz de correr por telhados e se jogar de um prédio para outro, inacreditavelmente locomovendo-se mais rápido do que qualquer um que siga pelo nível da rua.

Também é preciso um vilão, alguém mau, que busque dinheiro, poder, vingança ou simplesmente queira matar a população inteira de uma cidade por pura maluquice. Vilões podem ser sérios, mas o tipo risonho e espalhafatoso é muito comum.

Batwoman – Elegy começa exatamente como uma história padrão do gênero. A heroína persegue um bandido num beco escuro e arranca informações dele sobre o vilão maior. Até chega a trocar uma ideia com o grande Batman, nos telhados de Gotham City.

No dia seguinte, Kate Kane chega atrasada ao encontro com sua namorada e leva uma bronca. É acusada de ser irresponsável e festeira e não pode se defender pra não revelar suas atividades como heroína. Drama básico dos fantasiados mascarados: as responsabilidades da identidade secreta prejudicam a vida afetiva.

Em seguida, há os confrontos com a grande vilã e seus asseclas. Uma inimiga que se chama Alice e só se comunica usando as falas da personagem homônima de Lewis Carroll.

Tiros, socos, pontapés, heroína em perigo, salvação via deus ex machina, plano maligno de assassinar a população da cidade, confronto, clímax, o triunfo do bem e a metrópole está salva.

Tudo isso acontece em Batwoman – Elegy. Aparentemente, não há nada que a destaque da média da produção de super-heróis. Mas aí entra o trabalho dos autores. Greg Rucka e J. H. Williams III fazem toda a diferença.

Rucka começou sua carreira como escritor na série de livros do personagem Atticus Kodiak, com a qual obteve boas críticas e foi comparado à elite dos autores dos gêneros policiais, de suspense e crime. Ele trouxe essa experiência para seus roteiros de quadrinhos, em séries como Gotham City contra o crime, coescrita com Ed Brubaker.

Em Batwoman, Rucka utiliza vários dos pontos marcantes do universo de Batman: a cidade de Gotham, os vilões espalhafatosos que beiram o ridículo, o clima sombrio… Entretanto, são os elementos que o roteirista acrescenta a essa equação que tornam o resultado final realmente interessante.

Mais importante que Batwoman é a Kate Kane que veste a máscara. A homossexualidade não é um truque para atrair a atenção para a personagem. Ela é uma característica de Kate e é trabalhada de maneira convincente e natural pelo autor.

O confronto com Alice e a Religião do Crime e seus absurdos homens-polvo, homens-lobo e mulheres-lagarto aos poucos cede espaço para mostrar a mulher Kate Kane e como ela se tornou uma heroína fantasiada.

Mais do que a origem de Batwoman, trata-se de uma história de família que se desenvolve durante 20 anos. Há um episódio traumático de infância, mas não é ele que leva Kate Kane a usar uma fantasia. Em vez de um único momento catalisador, há todo um conjunto de eventos e Rucka conta essa trajetória com muita habilidade.

A relação com o pai e a passagem pela academia militar de West Point são passagens muito verossímeis, que contrastam brilhantemente com o psicodélico embate com Alice e seus asseclas.

Nesse ponto, entra a arrebatadora arte de J. H. Williams III.

Já conhecido dos leitores por seu trabalho em Sete soldados da vitória e Promethea, Williams III rouba todas as atenções em Batwoman – Elegy.

Não são apenas imagens belíssimas, um domínio de diversas técnicas de arte-final e um layout espetacular de páginas, mas também a habilidade de colocar tudo isso a favor da narrativa.

A arte de Batwoman – Elegy parece ter um pouco de Jae Lee, Chris Ware, Dave Mazzucchelli, Darwin Cooke e outros. Williams III não imita o estilo de desenho desses artistas, mas cria pontos de diálogos visuais entre a história e o trabalho deles.

Por exemplo: na sequência de duas páginas que mostra o pai de Kate no front de batalha, as hachuras da arte-final lembram as histórias de guerra de Joe Kubert como Sgt. Rock – A profecia.

As lembranças de infância de Kate são apresentadas em uma arte com pincel e um layout de página que lembram os trabalhos de Mazzucchelli em Batman – Ano Um. E por aí vai.

Além disso, logo no começo da trama, o mundo noturno da Batwoman, cheio de sombras e um grid de quadrinhos rebuscado, diferencia-se da vida diurna de Kate Kane, em que os painéis são mais comportados e o desenho é iluminado, numa linha quase europeia.

Todas essas transições de estilo servem para realçar aspectos do roteiro, criar um jogo de referências e enriquecer a obra.

Há imagens que apresentam detalhes que quase passam despercebidos, mas são parte importante da narrativa. Há um momento em que a Batwoman corta a perna de Alice com suas garras. É um detalhe sutil, recapitulado páginas depois, quando a heroína coleta vestígios do sangue da inimiga de suas lâminas.

A arte sequencial de Williams III pede que o leitor se demore mais para apreciá-las e lê-las corretamente.

Ousado nas composições de páginas, Williams III usa e abusa do recurso de páginas duplas, porém em nenhum momento deixa dúvidas quanto ao sentido da leitura.

Uma das páginas mais interessantes mostra uma transição entre os rostos da heroína e da vilã através dos quadrinhos durante uma conversa de telefone. Ela ganha ainda mais significado com as informações que se mostrarão adiante na história.

Há também páginas duplas baseadas no símbolo do yin-yang, grids mesclados com partituras musicais, contornos vermelhos retangulares que fecham planos detalhes dentro dos painéis, emprego da cor para acentuar a dramaticidade de certas cenas e mais uma série de efeitos e composições.

Enfim, J.H. Williams III dá uma verdadeira aula de arte sequencial, explorando o quanto pode os recursos gráficos em prol da narrativa. Simplesmente espetacular.

A primeira parte de Batwoman – Elegy segue direitinho a cartilha dos super-heróis. Depois, o leitor descobre que tudo isso era um prelúdio para mostrar a história de Kate Kane, esta sim uma trama mais rica e envolvente.

Os preconceitos, as dificuldades, os encontros, os conflitos. O trabalho de Rucka e Williams III apresenta uma personagem extremamente verdadeira. Kate Kane convence como uma mulher real.

Batwoman – Elegy é uma excelente história em quadrinhos, em que a arte espetacular ressalta ainda mais o bom roteiro. Assim como em muitas aventuras de heróis mascarados, a relação de dualidade é fundamental. É a vida de Kate Kane versus a vida de Batwoman. O mundo colorido versus a vida real. A mentira e a verdade.

Uma prova de que os super-heróis ainda podem render ótimas histórias.

 

Classificação:

4,0

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