Black Hole

Por Rodrigo Scama
Data: 2 março, 2018

Black HoleEditora: Darkside – Edição especial

Autor: Charles Burns (texto e arte)

Preço: R$ 69,90

Número de páginas: 368

Data de lançamento: Outubro de 2017

Sinopse

A puberdade e a descoberta do sexo e das drogas em um ambiente de terror. Em uma pequena cidade, os adolescentes convivem cada vez mais com estranhos acontecimentos envolvendo seus colegas, a partir de uma doença incurável e monstruosa pode afetar qualquer um que tenha transado com uma pessoa infectada.

Algumas manifestações da doença são sutis e podem facilmente ser escondidas por baixo de casacos. Outras deixam sequelas tão fortes, que a única saída é se autoexilar na floresta.

Positivo/Negativo

Black Hole é uma história de terror e suspense como há muito não se vê. Charles Burns consegue grudar os olhos do leitor a cada página, e promove uma leitura tensa do começo ao final do livro.

Como na grande maioria das histórias norte-americanas do gênero, esta também se passa em uma pequena cidade, nos arredores de Seattle. Afinal, em lugares assim sempre há uma floresta ao redor. E é nela que se reúnem os párias, os renegados da sociedade.

A diferença na obra de Burns é que esses párias são adolescentes, e não se isolam porque assim desejam. A questão aqui é de ordem epidêmica.

Toda a trama gira em torno de uma doença infecciosa sexualmente transmissível. A questão é que ela é incurável e deforma o corpo de suas vítimas. Em alguns casos, as mudanças são sutis, em outros é grotesca.

E cada manifestação da doença é ímpar. Não há como saber o que ela fará com este ou aquele indivíduo.

Não se pode esquecer também que a doença infecta adolescentes, que estão no momento mais confuso de suas vidas. Então, é constante o abuso de drogas e álcool, além do já mencionado sexo desregrado.

Além disso, as típicas confusões com o gênero oposto também são exploradas aqui. Amores, traições e corações partidos compõem o cenário implementado por Burns, que pega como elemento central um casal que descobre o amor, apesar das adversidades que a doença traz para ambos.

Essa descoberta, que poderia ser linda e leve, ganha contornos sombrios em uma obra de terror. E os amantes não estão sozinhos no mundo.

A história é claramente uma alusão à epidemia de AIDS nos anos 1980 e 1990. Burns iniciou a sua trama pouco antes do lançamento nos Estados Unidos, que aconteceu em 12 capítulos, de 1995 a 2005. Ou seja, por volta de 1993 e 1994, o espectro da doença ser fatal ainda estava muito presente no imaginário mundial, bastando lembrar que a morte de um grande ícone musical vitimado pela doença – Freddie Mercury – se deu em novembro de 1991.

Aqui no Brasil, o também ídolo musical Renato Russo se foi em outubro de 1996, durante a publicação original da história, comprovando que a morte ligada ao sexo estava abundantemente sendo noticiada e temida por adolescentes e adultos.

Charles Burns ainda faz sua história se passar nos anos 1970, quando a busca pelo sexo livre era tão grande quanto pelas novas formas de expansão da mente por meio de substâncias psicotrópicas. Essa junção torna-se mortal na trama aqui contada. Como conter jovens com tesão e curiosidade?

O desenho de Burns tem muito dos comix de Crumb, Deitch e outros artistas underground. Seu traço preto e branco cheio de hachuras casa muito bem com a tensão que ele impõe à história. Além disso, as mutações impostas pela doença são uma atração à parte no seu traço: rabos, bocas no meio do pescoço ou feridas purulentas parecem assustadoramente normais.

Do ponto de vista desta segunda versão brasileira (a Conrad publicou Black Hole em dois volumes, em 2007 e 2008), não há um só ponto falho. Capa dura, papel com gramatura alta, contraste alto e fidelidade ao original. A única coisa que talvez pudesse existir seria alguns extras, como uma entrevista com Burns ou sketches. Mesmo assim, não diminui em nada o primor da edição.

Classificação

4,5

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  • Fernando Amaral

    Essa editora está mandando bem mesmo, títulos interessantes e edições muito boas. Os preços de capa são ridículos, mas na prática estão sempre em promoção na Amazon por preços razoáveis. Ganhei o Dahmer e um livro do Poe de presente, excelentes edições. Suponho que Black Hole e Atômica tenham a mesma qualidade. Que continuem assim, e principalmente com PREÇOS RAZOÁVEIS (mesmo que colocando preços de capa altos para fazerem marketing de “promoções imperdíveis” nos sites, nós fingimos que acreditamos). Ninguém aguenta pagar 70 reais em um gibi.