Blood – Uma História de Sangue

Por Bruno Zago
Data: 18 fevereiro, 2011

Blood - Uma História de SangueEditora: Abril Jovem – Edição especial encadernada

Autores: J. M DeMatteis (roteiro) e Kent Williams (desenho, arte-final e cores).

Preço: variável, conforme a oferta em sebos

Número de páginas: 208

Data de lançamento: 1991

Sinopse

Um bebê é encontrado por uma jovem em um rio e criado até o início da idade adulta, quando é deixado aos cuidados de um monastério para ser iniciado nos ensinamentos de Deus.

Quando descobre que não é a mão divina que escreve os livros que regem sua doutrina, mas sim a de seu mentor, o rapaz se sente traído e decidi ir embora, não sem antes assassinar o homem, em um acesso de fúria.

Sem um rumo certo para percorrer, ele sai pelo mundo em uma jornada de autoconhecimento, até se deparar com uma tribo de vampiros em uma floresta, que, contra a sua vontade, o transformam em um deles. Nesse dia, nasceu Blood, o vampiro.

Blood continua sua viagem sem destino ao lado de uma das mulheres da tribo, que se incumbe de alimentá-lo até ele entender que necessita do sangue de outros para sobreviver. Uma jornada de muitas descobertas, que, ao final, transformará o vampiro para sempre.

Positivo/Negativo

Poético e surreal. Esses são os adjetivos que melhor definem a saga do vampiro Blood. Não se trata de uma história em quadrinhos comum: J. M. DeMatteis escreveu uma fábula de temática adulta repleta de simbolismos e misticismo, enveredando pelos mesmos caminhos de sua obra anterior, Moonshadow.

Ao seu lado, o desenhista Kent Williams, que também trabalhou em alguns números da HQ supracitada e repete suas magistrais pinturas em aquarelas que conferem vida aos desenhos.

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, esta não é uma história densa e demorada, como normalmente são os quadrinhos repletos de referências. Tudo é muito estranho, sim, mas não carregado.

É prazeroso acompanhar a jornada do protagonista. Os autores ganham a atenção do leitor com texto e imagens em plena harmonia e experimentalismos sequenciais a cada página. E aí, fica fácil se dedicar a leitura. Seria um pecado não o fazer.

O roteiro de DeMatteis é tão bem construído, que cada metáfora pode ser interpretada de várias maneiras, a depender das experiências e pensamentos do leitor. Por exemplo, em determinado momento, Blood mata alguém que se dizia servo de Deus e foge em um balão, que depois é atacado por uma revoada de corvos, deflagrando seu pouso em um deserto de misérias. O que isso significa?

É clara a analogia que o autor faz com a queda de Lúcifer, condenado ao inferno após desafiar o Senhor. Mas os significados da cena vão além, pois podem indicar mau presságio, a incapacidade de se escapar das garras do destino ou apenas a natureza lhe conferindo uma chance de desempenhar um papel maior nesse mundo.

Os experimentalismos dos autores estão presentes logo nas primeiras páginas, com o inicio marcado pelo conto de um rei moribundo que ouve de uma entidade superior a história sobre Blood, aquele que se tornou vampiro.

Esse conto é ilustrado por uma série de quadros com zoom constante em um detalhe, até o leitor ver outra imagem se formar naquele ponto, no qual tudo começará novamente. Todos os capítulos começam e terminam com um conto como este, acompanhado de uma inusitada arte sequencial.

Ao longo de toda a HQ, DeMatteis e Williams dão livre vazão à criatividade e reproduzem numerosos efeitos. Onomatopeias que unem quadros, páginas com vazio representativo, painéis que dividem uma grande imagem interrompida por cenas menores, desenhos que começam coloridos e terminam em preto ao branco, diálogos escritos como peça de teatro, molduras rabiscadas etc. Enfim, abra qualquer página para se deparar com uma ousada e diferente forma de arte. Simplesmente sensacional.

O ponto mais interessante da história, que foi publicada primeiro como minissérie, é o lirismo do escritor por ciclos. Toda a trama se sustenta em círculos viciosos, situações condenadas à eterna repetição, sempre acompanhada por um novo aprendizado.

Cada ato da jornada de Blood começa e termina praticamente da mesma forma que o anterior. Morte, traição e renascimento se alternam no desenvolvimento da psiquê do protagonista. Até mesmo sua “viagem” ao mundo moderno é pautada pelos mesmos eventos narrados no cenário fantástico em que se desenrola a maioria da trama. Os próprios contos antes mencionados funcionam da mesma forma.

Enfim, trata-se de um álbum com tanta profundidade, que merece ser relido sempre que possível, para cavar mais fundo em seus significados, ampliando a gama de possibilidades de cada metáfora e se surpreender pelo modo como tudo vai ficando mais magnífico e belo.

A obra é originalmente uma publicação do selo Epic Marvel, empreitada editorial da “Casa das Ideias” para quadrinhos autorais adultos que antecede a Vertigo, mas que obteve o mesmo sucesso.

No Brasil, foi lançada pela Abril como uma minissérie de luxo em quatro partes, entre 1990 e 1991, e posteriormente ganhou uma edição encadernada.

Definitivamente, Blood – Uma história de sangue é uma história em quadrinho que se destaca mesmo em relação ao que é produzido atualmente. Merece ser conhecido e, por que não, republicado.

Classificação

5,0

Bruno Zago é editor do Pipoca e Nanquim

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  • Geraldo Magela Jr.

    Parabens Bruno, 7 anos depois, será republicado pela sua própria editora.