Blue Note

Por Lielson Zeni
Data: 14 maio, 2013

Blue NoteEditora: Independente

Autores: Biu (texto e roteiro) e Shiko (arte e roteiro).

Preço: R$ 30,00

Número de páginas: 104

Data de lançamento: 2007

Sinopse

Um personagem vai de Rio Tinto a João Pessoa. Com ele, uma grande história.

Positivo/Negativo

Blue Note é um desafio.

A história de Biu e a arte de Shiko parecem olhar sarcasticamente na cara do leitor: “Não tá entendo, né? Então, para de tentar entender e curte”.

Não, não se trata de uma HQ sem sentido, em que a trama seria só uma desculpa para Biu colocar seu texto e Shiko mostrar sua arte. Mas é um álbum que pede ao seu leitor uma expectativa e resposta diferente.

Diferente do quê?

Até explicar sobre a HQ é um desafio. Blue Note não quer ser lida como uma narrativa bem amarrada, que obscurece e esclarece pontos da trama durante o seu desenrolar.

E o termo é este: a HQ “não quer”.

A história se monta com diversos modos de narrativa textual (primeira pessoa com balão, recordatório, diálogos, textos pela página) e visual (ícones, expressões, colagem).

Os personagens se confundem uns com os outros, nas idas e vindas do tempo narrativo, que é sinuoso, causa tontura e diverte.

Alguns leitores de Blue Note veem relações com ideias da física quântica, múltiplas realidades e viagens no tempo. E não dá pra dizer que eles estejam errados, é uma leitura possível.

Mas não é a única. Há muitas leituras para o álbum. O movimento do leitor é concluir a leitura e voltar a folheá-lo, buscando confirmar ou reconstruir opções, ressignificando entendimentos.

Essas múltiplas opções, derivadas de uma fragmentação de tempo da história e de diversos outros recursos narrativos, amarram-se a um catatau de referências, que vão desde Lourenço Mutarelli e Mundo Livre S/A, até cenas de filmes como Amarelo Manga e Cinema, Aspirinas e Urubus, sem falar nos próprios autores, que também fazem uma pontinha – Shiko surge como freguês do bar e Biu é o atendente no balcão.

O próprio título é referência a um tipo de nota musical que traz um tom mais melancólico à música.

E as leituras variam tanto quanto a capacidade do leitor de amarrar essas referências e o quanto elas significam para ele. Dentro dessa multiplicidade toda, fechar a narrativa se torna uma opção menor.

Além de tudo isso, cabem muitos elogios à arte de Shiko e ao texto de Biu. E ambos são tão fantásticos porque contribuem pra criar essa experiência de leitura.

O único porém da obra é a dificuldade de o leitor encontrá-la à venda, já que foi feita de modo independente, com dinheiro de um edital do Governo da Paraíba. Valeria (muito) alguma editora apostar numa segunda edição desse grandioso material.

O desafio da obra de Biu e Shiko é não se fechar em uma opção, é não encerrar a leitura quando termina o álbum; o desafio é continuar a lê-lo, mesmo quando o material já foi pra estante.

Classificação

5,0

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