Building Stories

Por Paulo H. Cecconi
Data: 17 março, 2014

Building StoriesEditora: Pantheon Books – Edição especial

Autor: Chris Ware (roteiro e arte).

Preço: US$ 30,00

Número de páginas: 260

Data de lançamento: Outubro de 2012

Sinopse

A obra mostra a fundo os problemas cotidianos da vida de residentes em um prédio de três andares.

Positivo/Negativo

Os trabalhos de Chris Ware não são para todos. Suas histórias tendem a ser mais densas e melancólicas do que os quadrinhos comuns; e sua abordagem, tanto estética quanto textual, agrada uma porção menor dos leitores de HQs.

No entanto, um público menor nem sempre é sinônimo de qualidade questionável. Aqui, remete apenas ao fato de Ware desafiar o padrão do convencional e tocar em feridas emocionais que, talvez, apenas leitores mais velhos tenham experimentado.

Ler uma obra de Ware requer disposição, mente aberta e estar pronto para uma viagem com forte carga emocional.

Em Building Stories (cujo sentido da tradução funciona em dois níveis: Histórias de prédio e Construindo histórias), a trama principal trata da vida de uma mulher divorciada e insegura que perdeu a perna em um acidente. Extremamente apegada à filha, ela tem enormes dificuldades para educar a criança, bem como para encontrar um novo amor.

Há também a triste e desiludida vida de uma moradora do primeiro andar, que passa os dias a olhar pela janela, presa em uma eterna repetição de suas memórias.

Já na porção da trama que trata de um casal em crise conjugal, vê-se claramente o sentimento de inadequação que aflige a mulher, confrontada pela resposta do seu corpo diante do tempo, e a insatisfação do namorado infantil, ainda preso a sonhos adolescentes.

Em um momento que pede destaque, o autor dá um show de criatividade ao mostrar duas pessoas em um futuro distante lendo a “nuvem de consciência” de uma área da cidade e visualizando o que aconteceu ali anos atrás.

Por meio desses personagens, Ware expõe a condição humana em seu estado bruto e não tem medo em elaborar situações constrangedoras e de forte teor íntimo, aspectos já abordados em seus trabalhos anteriores, como Jimmy Corrigan e as demais histórias da coleção Acme Novelty Library.

Contudo, o que surpreende de imediato é a constituição da peça. Publicado em uma enorme, porém elegante, caixa contendo 14 volumes, cada um de vários tamanhos e formas, Building Stories possui desde segmentos em forma de antigos talões de cheque e jornais até livros de capa dura, e podem ser lidos em qualquer ordem.

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A obra configura uma reivindicação forte das qualidades que apenas as histórias em quadrinhos proporcionam, especialmente os quadrinhos impressos. O trabalho não deve ser lido em qualquer meio digital, apesar de a trama não perder a força e a sublimidade da arte estilizada não diminuir.

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O ponto é que a diagramação de algumas páginas pede um pequeno exercício do leitor, que deve mexer o livro, virá-lo de cabeça para baixo e até colocá-lo na frente de um espelho para ler determinadas partes.

O cuidado e a delicadeza com o acabamento do trabalho é uma lição de paciência (no total, a obra demorou dez anos para ser concluída) e dedicação aos detalhes. Nas páginas de cada livreto, o autor exibe grande noção de layout, tanto na harmonia dos painéis, na maneira como são geometricamente posicionados, quanto, até mesmo, na disposição dos diálogos e recordatórios, provando que também fazem parte da arte de uma página.

Todos os aspectos visuais da obra traduzem uma ideia, como, por exemplo, a falta de textos num dos livros, que explicita a solidão experimentada por uma personagem.

Apesar desta linguagem incomum para quadrinhos, Ware oferece surpresas de narrativa, quando, por exemplo, após várias paginas de painéis minúsculos, coloca duas com imagens espaçosas; ou quando a leitura básica vertical é interrompida por páginas horizontais.

Isso dinamiza a experiência e cria uma dicotomia, na qual se torna agradável a incursão neste enredo tão pesado.

Building Stories é um evento dos quadrinhos. É um presente de Chris Ware aos fãs e uma proposta diferente em um meio em que os tipos de publicação são quase engessados. Uma obra original, arrojada e completa, que aborda, como poucos gibis fazem, a simples rotina da vida de maneira excepcional.

Classificação

5,0

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