Cadafalso

Por Talita Grass
Data: 18 dezembro, 2019

CadafalsoEditora: Mino – Edição especial

Autor: O rosto e o retrato, de Alcimar Frazão (texto e arte);

Amar a Deus sobre todas as coisas, de Lourenço Mutarelli (roteiro) e Alcimar Frazão (desenhos);

España, 1937, de Magno Costa e Alcimar Frazão (roteiro) e arte de Frazão;’

Tempus fugit – ou nos braços de Atlas, e Dalton Cara (texto) e Alcimar Frazão (traços);

Thanatos – ou o último homem, de Alcimar Frazão (roteiro) e João Azeitona (lápis sobre leiautes de Frazão).

Preço: R$ 59,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Março de 2018

Sinopse

Florença, Século 16, um mestre renascentista busca a imagem da perfeição.

Barcelona, 1937, um anarquista recorda sua luta contra as forças do ditador Francisco Franco, na guerra civil espanhola.

São Paulo, início dos anos 2000, um motoboy corre contra o tempo.

Porto Alegre, 2016, um senhor enfrenta demônios enclausurados com ele em seu apartamento.

Em um lugar ou em muitos, um homem pondera sobre o absurdo de sua própria existência. Como em um espelho distorcido, as cinco histórias deste romance gráfico refletem etapas de uma vida absurda em momentos distintos da História humana.

Positivo/Negativo

Filosófico, político, reflexivo, tenebroso e visualmente impactante são palavras que poderiam definir Cadafalso, do quadrinhista Alcimar Frazão e alguns convidados. Porém, a experiência de leitura, incluindo as reflexões que ela proporciona, é capaz de revelar muitos outros adjetivos.

Os contos que constituem a obra, apesar de independentes, possuem uma relação com o tempo. Assim, é criado um protagonista que é o narrador de si mesmo e, ao longo de cada história, assume uma etapa da vida, passando por memórias e reflexões da própria existência.

Em cada página, o leitor é intimado à reflexão, precisando parar e questionar aquilo que lê. É necessário destacar Tempus fugit – ou nos braços de Atlas, escrito por Dalton Cara, como um dos mais impactantes, confrontando a pressa cotidiana e as várias maneiras que a vida encontra de fazer esse ritmo diminuir.

Vale mencionar, também, Amar a Deus sobre todas as coisas, com roteiro de Lourenço Mutarelli, por seu texto muito forte, explorando as relações entre arte e fé, bem como seus limites.

Além disso, a surpreendente capacidade de Alcimar Frazão em construir uma narrativa gráfica eficiente e, ao mesmo tempo, impactante é um presente para os apreciadores de quadrinhos. A narrativa é incessante, tétrica e rápida – tudo se movimenta de maneira asfixiante.

Referências ao filósofo existencialista Sartre e aos artistas Donatello e Gustave Doré, além de outros, deixam o roteiro em algo mais profundo, com diversas camadas de significados passíveis de serem descobertas.

Existe um incômodo permanente, algo que perturba e inquieta o leitor a todo instante. Grande parte desse desconforto é causado pela arte de Frazão. Em preto e branco, com muitas hachuras e detalhes e páginas de tirar o fôlego. As calhas são todas em preto, atribuindo um sufocar incessante à narrativa.

A edição da Mino tem capa dura, em formato 20 x 27 cm, com ótima impressão em papel pólen de boa gramatura. No entanto, o nome da obra na capa ficou difícil de ler, quando se vê o livro ao vivo.

Em um mundo de ideias mastigadas, que são reproduzidas sem reflexão alguma, Cadafalso é um convite ao pensamento crítico, ao belo e necessário exercício do pensar.

Classificação:

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5,0

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