Cages

Por Liber Paz
Data: 18 fevereiro, 2011

CagesEditora: Kitchen Sink Press – Edição especial

Autor: Dave McKean (texto e arte).

Preço: US$ 44,95

Número de páginas: 496

Data de lançamento: 1998

Sinopse

Leo Sabarsky decidiu afastar-se completamente de seu cotidiano para se dedicar à pintura de quadros. Então, se mudou para um novo e estranho prédio, onde conheceu diversas pessoas singulares, como o escritor Jonathan Rush e o músico Angel.

O contato com essas pessoas, suas histórias e a vivência de episódios fantásticos e absurdos definirão a busca de Sabarsky por sua própria arte.

Positivo/Negativo

Dave McKean tornou-se conhecido no mercado de quadrinhos a partir de 1989, pelos desenhos da minissérie Orquídea Negra e, especialmente, pelas capas que produziu para a célebre sérieSandman, escrita por Neil Gaiman. Nelas, empregou diversas técnicas de ilustração e fotografia na produção das imagens que se destacaram muito quando comparadas às outras publicadas na época.

Suas imagens também encheram os olhos dos leitores na arte de outras histórias em quadrinhos, como Asilo Arkham, escrita por Grant Morrison.

O termo “criativo” pode ser perfeitamente aplicado a McKean. Não só pela busca de soluções originais para a geração de imagens e narrativas, mas principalmente pela sua extraordinária versatilidade.

Além de mesclar fotografia, numerosas técnicas de ilustração e estilos de desenho, ele se aventura também pela criação escrita, pelo design, cinema e música. O autor dirigiu e compôs a trilha sonora de curtas-metragens e do filme Mirrormask, produziu centenas de capas de CDs e é responsável pelo projeto gráfico de diversos livros.

Essa intensa e polivalente “criatividade” é uma das características principais do trabalho de Dave McKean e também é o tema principal de Cages.

Definida como uma comic novel, a obra reúne em uma série de episódios e diálogos as ideias de Dave McKean a respeito de criatividade. Em uma entrevista, o autor declarou que Cages era uma história sobre crenças: “sobre por que pessoas acreditam em certas coisas e o que acontece quando se acredita nessas coisas”.

Embora não se considere religioso, McKean acredita com convicção na criatividade como uma referência para se orientar através da vida; e é essa a crença central que movimenta Cages.

Leo Sabarsky é o pintor, muito inseguro, procurando ainda um estilo ou um propósito em sua arte. Ele desenha e pinta, mas dificilmente termina seus trabalhos. Com frequência, amassa seus rascunhos e os joga no lixo. Ao mudar-se para o novo prédio, conhece Jonathan Rush, um de seus escritores favoritos.

Rush escreveu diversos livros e era muito bem-sucedido, até que lançou o livro Cages, que ofendeu as crenças religiosas de diversas pessoas. A partir dessa obra, ele passou a ser odiado e perseguido publicamente. Escondeu-se em um apartamento e de lá não saiu por dois anos, até que Sabarsky surgiu.

Existe, porém, muito mais por trás do escritor e do livro Cages.

No prédio também mora o músico e poeta Angel. Enquanto Sabarsky é inseguro e Rush paga o preço por sua criação ter desagradado ao público, ele é o criador perfeito. Em paz consigo mesmo e com sua arte, explora novas musicalidades em instrumentos exóticos, como pedras que ressoam ao seu toque. Além disso, faz apresentações discretas em um bar e mantém uma pequena legião de fiéis seguidores.

Há diversos outros personagens, como a senhora que vive sozinha esperando o marido retornar, a síndica do prédio, o mendigo, o silencioso dono de uma galeria de arte, o rapaz da “constelação” etc. Mas se destacam muito mais dois personagens que não são humanos: um gato preto e o próprio prédio.

Para quem espera algo semelhante ao que foi feito em Asilo Arkham, a arte de Cages é surpreendentemente “comportada”. A maior parte de suas páginas segue um grid de nove quadrinhos, que são desenhados com pincel, em preto e branco. É utilizada uma cor azulada suave para criar diversos efeitos, que vão desde texturas e sombras até “trilha sonora” e “lapsos temporais”.

Entretanto, em diversos momentos há layouts que quebram esse grid, usando ilustrações de páginas inteiras ou dispondo quadrinhos de maneira “desordenada”. Nessas passagens, a arte passa a empregar outras técnicas e estilos. A cor explode em pinturas, fotografias e fotomontagens. Toda essa variação de estilo visual é coerente e serve aos propósitos da trama.

Quanto ao roteiro, Cages está bem longe de ser uma história fácil, pois requer que o leitor trabalhe na leitura dos textos e na apreciação das imagens. Há longos diálogos que versam sobre os mais variados assuntos: solidão, culinária, música, lembranças de infância, culpa. Entretanto, a variedade de personagens e situações impede que a trama se torne uma sucessão cansativa de conversas.

Os diálogos são intercalados com episódios que oscilam entre o delírio e o absurdo. Sabarsky, por exemplo, sonha que os andaimes diante do prédio transformam-se nos longos dedos de criaturas gigantescas que rasgam o céu noturno, revelando um clarão intenso.

Na manhã seguinte, os andaimes simplesmente não estão mais lá.

Outro exemplo é a cruel punição de Jonathan Rush: agentes misteriosos o visitam para privá-lo de qualquer coisa que ele goste de verdade, sejam pinturas, livros ou amigos.

Tais situações não possuem explicação alguma, são simplesmente apresentadas. Isso confere à HQ uma atmosfera onírica fascinante e amplifica a sensação do onipresente tema da criatividade. Afinal, criatividade é composta de ação, discussão, reflexão e, principalmente, imaginação.

Dave McKean levou seis anos para produzir as dez edições da minissérie Cages. A primeira foi lançada em dezembro de 1990 e a última, em maio de 1996. Em 2010, a Dark Horse disponibilizou para vendas uma nova encadernação, muito similar a este volume lançado pelaKitchen Sink Press em 1998. Ambas apresentam a história completa e uma galeria com as capas da série original.

A jornada de Sabarsky está cheia de surpresas e pequenas histórias que acabam se tocando diversas vezes. É como um fluxo de pensamento ou um sonho, cheio de conexões, absurdos e significados.

Talvez o mundo se apresente assim tão rico de possibilidades a quem se arriscar a embarcar na mesma busca que Sabarsky. Ou talvez essa seja a maneira que McKean vê o mundo por meio de sua dedicação ao ato criativo. De qualquer forma, vale muito a pena passear por Cages.

Classificação

5,0

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