CAMIÑO DI RATO # 1

Por Zé Oliboni
Data: 2 agosto, 2009


Autores: Como ser enganado por um psicopata – Gian Danton
(roteiro) e Antônio Eder (arte);

Endoparasitas – Alexandre Greco (roteiro e arte);

Viva a sociedade passiva!! – Rosemário (argumento e arte) e Matheus
Moura (texto);

Nanquim, Terra e 333 – Edgar Franco (roteiro e arte);

Hesperornis – Gazy Andraus (roteiro e arte);

Caçador – Soter Bentes (roteiro e arte);

As boas intenções – Beto Martins (roteiro e arte);

Sorte – Luciano Freiberger (roteiro e arte);

Larvas – Felipe Eremita (roteiro e arte);

Sue & Side – Rosemário (roteiro e arte).

Preço: R$ 5,00 em lojas e R$ 6,00 pelo correio.

Número de páginas: 44

Data de lançamento: Novembro de 2008

Sinopse: Revista mix sem uma trama central, com HQs de diversos
autores nacionais.

Positivo/Negativo: Camiño de Rato sofre de um mal que prejudica
algumas das publicações independentes iniciantes: desconhece o papel do
editor. Além de coordenar entrega de materiais, tratar as imagens, fechar
os arquivos, lidar com a gráfica, revisar o texto e todas as tarefas que
em empresas podem ou não ser executadas por assistentes, o editor tem
um trabalho bem mais nobre: definir a “cara” da revista.

Esta, por exemplo, é muito mal orientada. Tem uma capa legal, com um estilo
que lembra tatuagens, música heavy metal, até street art.
Mas, quando se abre a revista, a primeira história é num traço todo redondinho,
cartunesco, o típico desenho de tiras para crianças.

A falha editorial não termina aí. A escolha das histórias é caótica. A
revista não tem um tema, uma ordem ou mesmo um padrão estético. Dá a impressão
que foi se juntando HQs, independentemente da qualidade ou do assunto,
até dar o número de páginas para fechar uma edição.

A complicação dessa falta de proposta é que não há nada para o leitor
se apegar. Não há motivos para ele se lembrar da revista, desejar ter
outro número. Assim, cada nova edição precisará trabalhar novamente para
conquistar o público, seja pela capa, seja pelo conteúdo.

Se a ideia da revista era ser caótica, não apenas isso deveria deixar
isso claro, como sua estética deveria “contar” isso ao leitor, para que
ele se sentisse atraído pelo visual.

Além das histórias não se conectarem, optou-se por acrescentar textos
complicados e deslocados para um número de estreia. O editorial é uma
autodepreciação do quadrinhista para dar aquela cara de luta de sobrevivência
da arte. No meio, sem conexão com nada, há um artigo sobre vegetarianos
– que é até interessante, mas está ladeado por cartuns e uma foto são
suficientes para qualquer um que coma carne optar por não comprar a revista.

O terceiro texto se propõe a ser uma breve história tupiniquim das HQs,
algo mais bem escolhido pelo tipo de publicação. Contudo, lendo o artigo,
tem-se a impressão de que, no final dos anos 1990, houve uma crise com
a Abril e os quadrinhos nacionais pararam de ser publicados até
recentemente, com o retorno dos independentes.

Não é verdade!

O texto simplesmente pula toda uma década, em que Conrad, Devir,
Opera Graphica e Panini, dentre outras editoras, lançaram
quadrinhos aos montes. Uma época em que bons materiais nacionais foram
escoados por editoras e, somente depois, os fanzines foram passando para
as gráficas, sendo chamados de prozines e revistas independentes.

Como se não bastasse, a qualidade da maioria das HQs é duvidosa.

Como ser enganado por um psicopata, apesar do seu desenho bem feito,
conta um caso da vida do autor, uma desavença que teve com alguém que
retrata como um mentiroso compulsivo. Gian Danton faz tanta questão de
que as pessoas que conhecem esse desafeto saibam tudo que o sujeito fez,
que no final deixa uma observação: “Qualquer semelhança com fatos e pessoas
reais é mera coincidência”. Agora, para quem não é amigo ou familiar do
roteirista, a HQ não tem graça alguma.

Endoparasitas, de Alexandre Greco, é a grande surpresa da edição.
Três páginas excelentes, conceituais, com um desenho chocante, uma narrativa
visual de impacto, forte e uma ideia boa. É a melhor história em quadrinhos
da revista.

Outra que merece menção é Hesperornis, de Gazy Andraus. Não é uma
HQ propriamente dita, mas sim uma sequência de splash pages que
o autor define como uma “HQ-hai-kai”. O desenho, sem dúvida, é muito bonito.

Caçador, de Soter Bentes, é a história mais longa da edição e,
infelizmente, tem sérios problemas visuais. Trata-se de uma trama de aventura
na qual as falhas do artista acabaram prejudicando e tornando tudo muito
confuso.

Em muitas cenas, ele simplesmente não desenha cenários. Existem falhas
básicas de luz e sombra e anatomia; e a história tem sérios problemas
de narrativa. São feitas mudanças bruscas de cena para cena e o leitor
não tem como entender o que se passa. Além disso, as falas dos personagens
ainda estão muito cruas.

As curtas Sorte e Sue & Side são boas sacadas, mas não passam
muito disso.

No geral, a revista é fraca, mal orientada e com um ou outro material
bom perdido em seu interior.

Classificação:

4,0

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