Campo em branco

Por Lielson Zeni
Data: 21 agosto, 2013

Campo em branco

Editora: Quadrinhos na Cia. – Edição especial

Autores: Emilio Fraia (roteiro) e DW Ribatski (desenhos).

Preço: R$ 55,00

Número de páginas: 172

Data de lançamento: Novembro de 2012

Sinopse

Data de lançamento: Junho de 2013

Sinopse

Dois irmãos tentam reviver uma viagem de infância da qual um deles não se lembra de ter feito. Leia um trecho da HQ no site da editora clicando aqui!.

Positivo/Negativo

O que é uma lembrança? É o mesmo que uma memória? Que tal propor que lembrança e memórias são palavras sinônimas para evocar uma ação ou ato que aconteceu antes, que se encontra no passado do indivíduo que se lembra (ou rememora)?

Para falar de Campo em branco, HQ de Emilio Fraia e DW Ribatski, é importante lembrar (!) de vários sinônimos para a ação de recordar. O próprio subtítulo do álbum conduz nossa atenção para isso: “Lembrança de 1987”.

Essa graphic novel é uma produção da RT Features, que propõe parcerias entre escritores e quadrinhistas, coordenada pelo escritor Joca Reiners Terron e publicada pela Companhia das Letras em seu selo para histórias em quadrinhos, o Quadrinhos na Cia.

Antes deste título, já saíram Cachalote (Daniel Galera e Rafael Coutinho), A máquina de Goldberg (Vanessa Barbara e Fido Nesti), Guadalupe (Angélica Freitas e Odyr Bernardi), V.I.S.H.N.U. (Eric Archer, Ronaldo Bressane e Fábio Cobiaco) e parece que uma parceria entre Marcelino Freire e Guazzelli também será lançada.

O trabalho de Campo em branco se desenrolou por cinco anos, desde as primeiras conversas de Fraia e DW até a entrega do material para edição e envio para a gráfica. Esse tempo todo transformou o que o roteirista chamou de um conto que ele imaginava que seria adaptado em imagens pelo desenhista em uma parceria em que Emilio palpitava na arte e DW propunha mudanças de texto.

Emilio Fraia foi um dos 20 jovens escritores nacionais selecionados pela prestigiosa revista inglesa Granta para constar em sua edição dedicada ao Brasil, tem um longo trabalho como editor de literatura, já tinha escrito um livro em parceria com Vanessa Barbara (O verão de Chibo), mas ainda não tinha criado uma HQ.

DW, por outro lado, tem uma extensa produção independente de quadrinhos, tendo publicado em boa parte das revistas dedicadas às HQs do Brasil (e algumas de fora, como a Stripburger), é músico, artista visual, mas nunca (ou quase nunca) trabalhou com um roteirista.

Ou seja, a obra que produziram é o trabalho de dois artistas experientes e que, ao mesmo tempo, pisam num terreno pouco conhecido.

O leitor deve lembrar que os primeiros parágrafos deste texto citavam o recordar. E neste momento evoca-se essa lembrança. Pois é somente pela memória que se pode reter a experiência, seja ela tátil e física, seja estética e abstrata.

Aquele que viveu tal experiência vai acessá-la a partir de suas lembranças. E aqui as coisas começam a ficar mais e mais interessantes. Pois se a cada experiência que se tem há uma mudança (fardo da vida), ainda que pequena, ao lembrar, também haverá mudanças?

Ou ainda, ao se lembrar de um passado que há muito estava esquecido, tudo aquilo que a pessoa mudou pode tornar diferente a maneira como se percebe a mesma memória?

A vida leva todos os seres em uma linha temporal para adiante, permitindo o acesso ao “antes” pela recordação e ao “depois” pela prospecção e pela ansiedade. O “agora” sobrevive menos que o tempo gasto pela leitura dessa palavra, pois vai se alongando em passado e futuro, em direções opostas.

Se o passado empurrou até aqui e o futuro está depois de cada agora (que se dilui rápido, em gotas) a vivência do presente é uma efemeridade. Mal se a tem, ela já se foi. Mas, veja, isso é uma proposta de como pensar a vida e aqui tratamos de arte e de ficção.

Numa peça de arte, como em Campo em branco, é possível criar uma estrutura de narrativa que ajude a contar um tema, a criar uma experiência e que contorne algumas obrigatoriedades da vida. A opção dos autores foi por uma estrutura que trouxesse a presentificação.

A HQ se monta a partir de diversas narrativas que envolvem sempre pelo menos um dos dois irmãos que, arrisca-se dizer, protagonizam o enredo. Não há marcas temporais que garantam ao leitor quais delas se passam no presente, quais no passado e quais no futuro. Nem sequer sabemos se as lembranças de 1987 estão narradas ali ou só contidas nos personagens, como experiência.

Desse modo, entra em ação o jogo da memória. Um irmão não se lembra da viagem que o outro diz que eles fizeram. Em determinado momento, um personagem quer ver os gigantes de pedra, mas quando chega lá, não há nada. Em outra passagem, que não se sabe se é antes ou depois disso, ele vê os tais gigantes. Na verdade, não se sabe sequer se aquilo é memória ou fato. Parece que toda a HQ é feita de memórias que se acessam em diferentes momentos.

Truques e pequenos enganos das lembranças, que, diferentemente das pedras, podem se gastar muito mais rápido com o tempo.

Ao optar por tratar de lembranças, os autores se viram obrigados a lidar com a questão do tempo. E optaram por fazer isso pelo viés da Física. Um dos personagens a estuda na faculdade e os conceitos de tempo como outra dimensão e de perda de referência se entrelaçam.

Não é possível determinar um objeto tridimensional no espaço sem as informações sobre sua altura, largura, comprimento e ponto de referência. Ou seja, em que lugar do universo um objeto com essas dimensões está. Pode-se acrescentar uma quinta dimensão, em qual momento do tempo ele se encontra.

Em Campo em branco, o tempo é o objeto que fica sem a referência de localização. Misturam-se passado, presente e futuro e, graças à narrativa, o leitor sempre está diante de um fragmento de história no presente, que se relaciona com os demais trechos pela repetição de personagens e pelo encadeamento narrativo.

É como se o tempo não estivesse mais em uma linha contínua unidirecional (como é a vivência do ser humano), mas em diversas retas paralelas. O efeito de certa confusão que esse maquinário narrativo consegue criar é uma impressão de memória, e a HQ seria uma espécie de mapeamento dessas memórias, mas sem a indicação de escala ou do norte.

Há outras manipulações de tempo também, mais ligadas ao cerne da página da HQ, com variação de quantidade e formato de quadros, e a entrada de páginas duplas não para impacto, como costumeiramente se vê em quadrinhos de super-heróis, mas para contemplação.

E há o tempo da compreensão do leitor, o tempo de criação da HQ, o tempo de leitura que a obra pede.

O campo em branco é um espaço para que o leitor se coloque ali, preencha aquelas lacunas e ordene aquelas linhas temporais. E também é o espaço sempre incompleto, por falta de uma resposta definitiva quanto à memória. Enquanto lembrarmos, sempre haverá um campo em branco em nós.

Classificação

5,0

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