Cannon

Por Audaci Junior
Data: 27 outubro, 2017

CannonEditora: Pipoca & Nanquim – Edição especial

Autor: Wallace Wood (roteiro e arte) – Originalmente em Overseas Weekly (1970-1973) (tradução de Marília Toledo e Daniel Lopes).

Preço: R$ 99,90

Número de páginas: 272

Data de lançamento: Maio de 2017

Sinopse

No período da Guerra Fria, o espião norte-americano John Cannon sofre lavagem cerebral da espiã chinesa Madame Toy e passa a atuar como um assassino comunista, até ser resgatado pela CIA.

Revertido o processo, a “máquina de matar” do governo dos Estados Unidos encara novas missões de espionagem, traições, atentados, ameaça nuclear e femme fatales.

Positivo/Negativo

Uma das cenas emblemáticas do clássico Apocalypse Now (1979), filme dirigido por Francis Ford Coppola com base na prosa de Joseph Conrad (1857-1924), é a vinda das coelhinhas da Playboy de helicóptero para “animar” os soldados durante a Guerra do Vietnã (1955-1975).

Era bastante comum esse tipo de entretenimento para os frontes, para onde os Estados Unidos enviavam cantores pop, dançarinas e comediantes (outro filme que explora bem esse viés é Para Eles, com Muito Amor, de 1991), entre uma missão e outra.

Os quadrinhos também contribuíram para distrair e incentivar os jovens combatentes durantes os conflitos bélicos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Capitão América esmurrava o próprio Führer na capa da sua revista, e os solitários soldados se rendiam perante as curvas voluptuosas de pin-up da Miss Lace, nas tiras de Male Call, especialmente impressas no jornal do Exército estadunidense, cortesia de Milton Caniff (1907-1988).

Tudo para estimular o moral das tropas, deixando na América qualquer tipo de censura dos meios de comunicação – como também posteriormente do famigerado Comic Code Authority – e colocando a pena dos autores bem mais solta e despida no que se refere às questões sexuais nos quadrinhos.

Abrindo um parêntese também que a linguagem universal das HQs serviam como forma educativa, basta lembrar dos manuais produzidos por Will Eisner (1917-2005), quadrinhista que já teve como assistente Wally Wood (1927-1981), criador deste Cannon, especialmente para os norte-americanos que estavam no Vietnã.

Lembrado pelos seus quadrinhos de ficção científica (para a EC Comics) e humor (em revistas como a Mad), além de ser o idealizador do uniforme vermelho do Demolidor, Wood emprestou sua marcante personalidade nas técnicas de luz e sombra tanto para o ritmo aventureiro e erótico de Cannon, quanto para o humor sexy de Sally Forth.

Como é cuidadosamente contextualizado pelo editor Alexandre Callari no prefácio desta versão brasileira, a obra é para ser lida com base nesta perspectiva de entretenimento para os militares no front.

O que homens que estavam arriscando suas vidas servindo queriam encontrar nas tiras semanais de Cannon? Escapismo e entretenimento puro, simples e direto, sem nenhuma firula narrativa ou profundidade dramática. Em suma, um novelão de espionagem e ação com beldades de seios de fora em praticamente cada página.

Então, mesmo com toda a liberdade que o autor tinha para compor as tramas, evitava-se desenhar os órgãos sexuais femininos e insinuava-se as situações de sexo (consensual ou de estupro) e as torturas, tanto nos homens quanto nas mulheres. O que era realmente “liberado” eram as rajadas de tiro, explosões e o topless – e tudo era pretexto para enfatizar este último.

Independentemente da finalidade original ou do caráter histórico, é curioso observar a mulher comumente sendo colocada como objetificação sexual, mesmo ela sabendo lutar e atirar. Um fato que gera comicidade pelo “modo de pensar” da época, como mera radiografia do American Way of Life.

Quando a beldade russa Sue Smith conta as suas origens, treinada em “tudo que uma garota norte-americana normal faria”, o peso dos tempos atuais e da revolução sexual que já havia se manifestado uma década antes literalmente transforma essas passagens numa dura crítica ao “modelo” de vida de outrora.

Contradizendo o que foi colocado, algumas sequências ousam ir um pouco além das situações fáceis do efeito ex-machina ou dos maniqueísmos práticos de “mundo livre” versus comunismo ou mulçumanos vilões contra israelenses, vistos nas páginas desta coletânea.

Um exemplo é outra origem feminina, contada pela espiã Madame Toy. Mesmo sem se aprofundar, Wood toca em conflitos como a Guerra Civil chinesa ou a questão francesa da Indochina, localizada na região do Sudeste asiático que inclui o Vietnã. Nesta recapitulação, é mais aberto o tocante do abuso sexual.

Por ser uma série longeva, há situações bem interessantes na saga do infalível John Cannon. Depois de duas recapitulações de que ele foi acometido de lavagem cerebral pelo inimigo, os superiores chamam a atenção sobre o agente agir por conta própria, não se limitando ao seu lado “máquina de matar”. Essa característica não é bem explorada pelo quadrinhista, mesmo tendo reviravoltas que evoquem isso posteriormente.

Outra curiosidade é a fase bucólica da série, em que Cannon é afastado e começa um dramalhão novelesco como fazendeiro, nas idas e vindas de traições, mal-entendidos e desejos campestres.

Graficamente, os destaques são as sequências de ação e os equipamentos bélicos (aviões, tanques etc.) bem detalhados pela sua arte-final e o uso consciente de retículas nas composições.

Com base na edição da Fantagraphics Books, o volume da Pipoca & Nanquim tem papel off-set com boa gramatura e impressão, prefácio, biografia do autor e capa dura, uma escolha bem acertada para o manuseio do formato horizontal da obra (28 x 19 cm). Basta remeter a dificuldade de ler os dois volumes do Eternauta da Martins Fontes, concebido num formato similar, porém com capa cartonada.

Uma ou outra nota do editor poderia situar melhor o leitor durante as aventuras, vide a citação de Os Perigos de Paulina, seriado de cinema nos anos 1910 e 1930 que utilizava o cliffhanger como recurso de roteiro e que rendeu dois longas-metragens cults, em 1947 e 1967. Foi uma das inspirações da animação de Penélope Charmosa, da Hanna-Barbera.

Segundo lançamento da editora, nunca uma obra autoral do consagrado, injustiçado e imortal Wally Wood foi tão bem tratada assim.

Classificação:

4,0

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Cannon

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  • Que análise minuciosa mesmo em poucas linhas, já tinha visto o review pelo youtube do P&N mas agora que avaliaram aqui fiquei mais afim de adquirir. 13° chega logo que a lista tá imensa :D

  • Murphy do Sealab

    Muito legal a análise.
    Tenho esse material e adoro!

  • James Howllet

    Novamente: excelente Review.