Capitão América – A Morte do Sonho

Por Thiago Borges
Data: 18 janeiro, 2013

Capitão América - A Morte do SonhoEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Ed Brubaker (roteiro), Steve Epting, Mike Perkins e Lee Weeks (arte), Mike Perkins, Stefano Gaudiano e Rick Hoberg (arte-final) e Frank D’Armata e Matt Milla (cores) – Originalmente publicado em Captain America # 22 a # 30 e Winter Soldier: Winter Kills.

Preço: R$ 75,00

Número de páginas: 272

Data de lançamento: Maio de 2012

Sinopse

Ao longo de quase sete décadas, Steve Rogers lutou para defender os mais elevados ideais de seu país, nem que para isso tivesse de ir contra o próprio governo.

Imbuído desse sentimento, ele se lançou em uma guerra inglória contra outros heróis… e perdeu. Uma derrota que lhe custou a vida, pondo um fim à incessante batalha do homem que era a verdadeira personificação do chamado “sonho americano”.

Positivo/Negativo

A morte de personagens importantes nos quadrinhos representa o mesmo que o beijo entre galã e mocinha ao final de comédias românticas ou o susto inesperado em um filme de terror: clichês narrativos tão largamente usados que leitores/espectadores já os esperam encontrar, cedo ou tarde.

O problema não é esse, claro. Bem usado, o clichê pode surpreender a audiência e elevar uma obra. Nos quadrinhos, no entanto, a morte sempre representa um evento grandioso, relacionando-se de perto com o aspecto comercial dessa mídia. Quer aumentar as vendas de algum título? Mate alguém importante – mas, não se preocupe, pois o falecido será ressuscitado algumas edições à frente.

Polêmicas à parte, um dos roteiristas mais afeiçoados a matar personagens se tornou exemplo de como usar essa muleta narrativa para enriquecer uma história. Ed Brubaker já mandou para o além protagonistas em trabalhos como Gotham City contra o crime e Demolidor. Em sua longa passagem pelo Capitão América, por exemplo, o Caveira Vermelha, principal inimigo do herói, perece logo na primeira edição (presente aqui no Brasil no encadernado Soldado Invernal).

Ao fazer o mesmo com Steve Rogers, símbolo máximo dos valores americanos, Brubaker deixa claro que não liga para jogadas de marketing, mas, sim, para tramas que instiguem o leitor. O assassinato do Sentinela da Liberdade é a conclusão óbvia da proposta do autor para o personagem, principalmente se levado em conta o fator decisivo para esse destino trágico: a megassaga Guerra Civil.

Nela, o Capitão América lidera o grupo de insurgentes contra o registro de super-heróis, lei defendida por Tony Stark, o Homem de Ferro. Os maiores ícones da Marvel, então, se enfrentam em uma batalha ideológica de proporções épicas – leia a resenha aqui.

Brubaker, obviamente, adaptou seus roteiros aos eventos de Guerra Civil – como explicado no ótimo prefácio da edição de A morte do sonho, escrito pelo editor da Panini, Fernando Lopes. Entretanto, o fez de forma orgânica, sem precisar modificar o andamento da história – a maior prova é que a série antecipou alguns dos temas utilizados posteriormente na saga, como ataque terroristas a metrópoles e a morte de inocentes durante lutas entre heróis e vilões.

Nas três primeiras edições compiladas em A morte do sonho (todas tie-ins, capítulos de apoio, de Guerra Civil), se vê Rogers, com a ajuda de Bucky e de um Nick Fury exilado do comando da S.H.I.E.L.D., agindo clandestinamente para impedir a aprovação da lei, além de tentar localizar o Caveira Vermelha. Ao mesmo tempo, dois de seus antigos inimigos – Doutor Faustus e Arnim Zola – ressurgem para se unir ao vilão nazista e aplicar o golpe final no Capitão América.

Na sequência, os pontos altos do encadernado: Winter Soldier: Winter Kills, tocante história estrelada por Bucky, na qual se vê o quão solitário o ex-Soldado Invernal se tornou; e Captain America # 25, a edição em que Steve Rogers é assassinado.

Desnecessário falar da alta carga de emoção presente. Rogers assume a derrota em relação à lei de registro e se entrega para ser levado a julgamento. Enquanto chega ao tribunal, duas cenas fantásticas resumem a importância desse homem: Sharon Carter, a Agente 13, lembra-se do exato instante em que ficou frente a frente com ele pela primeira vez, apaixonando-se instantaneamente; e Bucky revela que demorou para se acostumar com a ideia de que o Capitão o considerava um igual, quando lutaram juntos na Segunda Guerra Mundial.

Após Steve ser baleado, outro amigo, Sam Wilson, o Falcão, afirma não estar pronto para viver em um mundo sem o Capitão. Belos momentos de elegia em homenagem ao herói prestes a morrer.

Vendo em retrospectiva, fica claro que Brubaker estava certo em suas escolhas. Em meio ao caos social, com Caveira Vermelha e o industrial Alexander Lukin causando uma escalada de terror, os Estados Unidos divididos graças à batalha entre super-heróis e o Capitão América desacreditado frente à opinião pública, a melhor solução, tanto para a imagem quanto para o futuro do personagem, era mesmo matá-lo.

Após essas duas grandes edições, o nível do material cai bastante. Infelizmente, isso ocorre em um momento crucial: a investigação da morte de Rogers. Apesar de ainda conter momentos pontuais de brilhantismo, como Bucky roubando o escudo do Capitão América e Tony Stark deduzindo a identidade do assassino, a trama se arrasta como não havia acontecido até então. Páginas e páginas de personagens comentando o que farão a seguir travam a história – e, efetivamente, pouca coisa acontece ao longo de três capítulos.

Mesmo assim, essa queda não afeta a qualidade da obra. Contando com bela arte de Steve Epting, aliada às cores sombrias de Frank D’Armata, Brubaker inseriu uma temática sóbria, com toques de investigação policial e teorias da conspiração, em um personagem que necessitava há tempos de uma reciclagem.

Resta torcer para que a Panini siga com a publicação dessa fase, pois material não falta: Brubaker ficou quase oito anos à frente da revista.

Classificação

4,0

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