CARCARÁ

Por Toni Rodrigues
Data: 1 dezembro, 2011

CARCARÁ

Editora: Qualidade em Quadrinhos -Edição especial

Autor: José Aloísio Nemésio Brandão Vilela de Castro (texto e arte).

Preço: R$ 33,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Setembro de 2011

 

Sinopse

Em 1928, em algum lugar do sertão nordestino, em plena era do cangaço, uma história de ódio, traição e vingança se desenrola entre duas famílias.

De um lado, Emerenciano, representante das oligarquias rurais dos antigos “coronéis”, exercendo o poder pela violência. Do outro, o fazendeiro Ananias, disposto a tudo para defender sua honra e sua família.

Envolvidos no conflito, voluntariamente ou não, muitos outros, como o cangaceiro Carcará, a valente Dona Rosa, o covarde Antenor e o vingativo André. Todos personagens de um verdadeiro balé de violência, coreografado à ponta de faca e encenado em meio a uma sinfonia de tiros e gritos de dor, ódio e desespero.

Positivo/Negativo

Aloísio de Castro nasceu em São Paulo em janeiro de 1955, mas cresceu em Sorocaba, onde começou sua paixão pelos quadrinhos. Estudou engenharia e arquitetura, mas acabou virando ilustrador publicitário, trabalhando para várias agências. Estreou nos quadrinhos na lendária revista Calafrio, em 1984, com a história Censurado, em parceria com o também roteirista e desenhista Wilson Vieira, na época recém-chegado ao Brasil, depois de uma longa temporada na Itália, onde trabalhou com Sergio Bonelli.

Essa parceria rendeu várias outras histórias, inclusive o álbum Gringo, o escolhido, bangue-bangue tradicional produzido em 1986, mas publicado apenas em 2006, em que pese a pouca qualidade.

De lá pra cá, Aloísio publicou na revista Front e participou do álbum Prontuário 666 – Os anos de cárcere do Zé do Caixão.

Carcará foi realizada com o apoio do ProAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e marca a volta de Aloísio às histórias mais longas, em forma de álbum. E que álbum!

Não é uma história exatamente inédita. Personagens rudes e justos, maus e covardes, gente oprimida que reage como pode a seus opressores são comuns em histórias de cangaceiros. E estão em Carcará. Aliás, a trama é arquetípica, pois funcionaria igualmente se, em vez do sertão nordestino, o cenário fosse o Velho Oeste norte-americano.

Mas isso não quer dizer que não seja uma boa aventura.

O álbum tem um ritmo alucinante, é decupado como os melhores filmes e tem ótimos diálogos, em que pese a caracterização “seca” que os personagens pedem.

A trama é tão bem conduzida, que passa rápido e deixa o leitor querendo mais, mesmo que o destino de alguns personagens seja bastante previsível.

No entanto, a grande força de Carcará está nos desenhos. É nítido que Aloísio (desde sua estreia, em 1984) tem influência de Sergio Toppi e de outros artistas italianos – e ele nunca escondeu essa influência. Mas nestas páginas vê-se um artista maduro, em sua plenitude, que sabe exatamente o que colocar na página e o que deixar de fora, qual é o melhor angulo a explorar numa cena, que figura merece destaque na composição.

E mais: que usa a arte para contar com mestria a história, algo que faz muita falta a diversos artistas brasileiros que são ótimos em anatomia, mas se perdem em layouts de páginas complicados que tornam suas HQs quase ilegíveis.

Como se nota pelos desenhos extras do álbum, Aloísio optou por uma arte-final de tons contrastados, sem hachuras ou graduações tonais, o que contribui muito para acentuar o clima desértico da trama. Nesta economia de traços, a construção das figuras ganha ainda mais força, como na literatura de cordel, que, com certeza, também foi uma influência aqui.

Mas, infelizmente, Carcará tem um calcanhar de Aquiles: a péssima revisão. Ao longo do álbum há vários erros de concordância, ortografia, acentuação e digitação como “semi nu” (p. 42), “escontrado” (p. 56), “ía” (p. 61), “do assassinos” (p. 67), “envaindo” (p. 68), “essa bandas” (p. 72), um horroroso “coinscidência” (p. 98) e outros. Uma pena que, num trabalho tão bom e com uma bela apresentação gráfica, a editora não tenha dado atenção a isso.

Ainda assim, Carcará merece ser conferido, pois é uma das melhores HQs nacionais publicadas em 2011.

Classificação:

4,0

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