Cascão – 50 Anos

Por Renato Félix
Data: 26 abril, 2013

Cascão - 50 AnosEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Estúdios Maurício de Sousa (roteiro e arte).

Preço: R$ 58,00

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Janeiro de 2013

Sinopse

Quinze republicações de histórias do Cascão, que saíram originalmente entre 1984 e 2010, e uma inédita no modelo da Turma da Mônica Jovem.

Positivo/Negativo

Como uma edição como Cascão – 50 anos poderia ser?

1) Começaria com uma seleção de tiras (umas 20 ou 30) mostrando o personagem desde sua estreia, em 1963, e sua evolução até os tempos modernos. Um texto comentaria esse passar do tempo e, dentre outras coisas, explicaria o motivo do Cascão ter sido criado em 1961, mas só estrear dois anos depois (lendo o primeiro volume de As tiras clássicas da Turma da Mônica, nota-se que ele surgiu, inclusive, bem depois da dentuça).

2) A seleção de histórias seria uma ampla e definitiva coletânea do personagem. Começaria, claro, muito antes de ele ganhar sua revista própria, que só surgiu em 1982. O início provavelmente seria por Cascão não quer sabão, que saiu em Mônica # 1, de 1970.

3) A seleção de histórias mostraria várias “fases” do Cascão – que, afinal, fazem parte da sua história de 50 anos e, pelas quais, o leitor poderia entender como o personagem chegou a ser o que é hoje.

Estariam ali o Cascão que defendia o lixo como um estilo de vida, os pais dele e a namorada Cascuda no período em que ainda eram também sujinhos, e o surgimento de seus mais clássicos inimigos: o Capitão Feio, as irmãs Cremilda e Clotilde, o Doutor Olimpo.

4) Cada uma dessas histórias teria um comentário sobre ela, como já é feito na Coleção Histórica – Turma da Mônica, pra mostrar como elas são especiais. E haveria muito a dizer, e não apenas se restringir a dizer que hoje o politicamente correto não permite mais que aconteçam certas situações nas revistas.

5) Viria junto de cada história a indicação de quando ela foi publicada – não apenas a primeira vez, mas também todas as reutilizações em almanaques e edições especiais. Isso seria mais uma boa medida do quanto elas são clássicas.

Pois bem, agora veja abaixo como Cascão – 50 anos é.

Seguindo basicamente o mesmo padrão das edições que, desde 2009, celebraram o cinquentenário do Bidu, Cebolinha e Chico Bento, Cascão – 50 anos tem uma bela apresentação, em capa dura e papel de boa qualidade. A primeira diferença evidente é que, ao contrário das anteriores e sem muita justificativa, a capa não faz uma releitura do gibi de estreia do sujinho.

Continuam seguindo o roteiro a galeria de capas, uma página de curiosidades e outra com a evolução dos traços dos personagens. Já aqui, um problema: a criação do Cascão é informada como 1961 em uma página e seu lançamento em 1963 na outra, causando uma provável confusão nos leitores. Mas aí vêm os quadrinhos propriamente ditos e, com eles, os problemas realmente sérios.

Em primeiro lugar, a seleção das histórias deixa demais a desejar. Nitidamente, todas são pós-revista do Cascão, ignorando toda a produção dos 12 anos anteriores em que o personagem tinha destaque dentro dos gibis dos colegas Mônica e Cebolinha.

Não há qualquer informação a respeito de quando as histórias foram publicadas, mas um ótimo levantamento do blog Arquivos da Turma da Mônica mostra que a história mais antiga é de 1984 – dois anos depois de Cascão # 1.

Repete-se aí uma má decisão que já havia acontecido em Chico Bento – 50 anos, que também só contou com histórias datadas após o lançamento do seu título próprio.

Não bastasse isso, são cinco histórias de 1984 e outras cinco de 1990 (das 16 HQs do volume). Uma concentração estranha e que não contribui nada para a riqueza “histórica” da edição.

As aventuras em si também não ajudam. Há algumas que se destacam, como Os terríveis esfumaçantes, de 1984, que abre a edição; O Cascãozão, de 1984; O rei do deserto, de 1990, e a muito engraçada Final infeliz, de 1990.

Mas pouquíssimas têm algo realmente de marcante e algumas são especialmente pobres, como Vem tomar banho. Aqui, a narrativa preguiçosa chega a fazer um Cascão preso dentro de uma moldura de lama endurecida “capotar” pelo chão para, no quadrinho seguinte, cair sobre um colchão como se tivesse despencado de um precipício.

Reflexo rápido é outro ponto negativo, forçando situações em que Cascão precisa se desviar da água. Em um dos quadrinhos, ele salta sobre a Mônica, que rega uma flor, e sobre uma torneira pingando – quando nada o impedia de simplesmente passar longe. Dois quadrinhos anteriores mostram nosso herói pousando duas vezes no mesmo lugar! Um erro primário de narrativa em uma HQ indigna de entrar em um especial desse calibre.

Pior do que isso é a alteração no conteúdo das histórias. Quem se lembra das armas nas mãos dos policiais em ET substituídos por walkie-talkies ou de todas as alterações digitais nos filmes da série Guerra nas Estrelas, odiadas pelos fãs, vai entender.

Outra vez o excelente levantamento é do Arquivos da Turma da Mônica. Na própria Reflexo rápido, um garoto vestido de caubói tenta acertar o Cascão com um squeeze.

Ora, por que um garoto vestido de caubói estaria usando um squeeze? Claro: havia ali originalmente um revólver de água, substituído pelo objeto que não faz sentido na cena. Lamentável!

Na boa Lava o prato, lava, a ameaça da mãe do Cascão com um chinelo é mudada para um dedo apontando e uma nova fala criada: “Vai ficar uma semana sem jogar videogame”.

Da mesma forma, em Gibis, pra que te quero, a fala “Droga!” virou “Puxa!” e cruzados viraram reais. E em O Mistério do Cascão, Cebolinha originalmente pensava trocando os “erres” pelos “eles” e agora isso não acontece.

Alterações assim nos almanaques de linha talvez possam ser entendidas como o jogo do mercado. Mas uma edição como Cascão – 50 anos deveria ter um compromisso com a própria história da Mauricio de Sousa Produções e mais: com a história dos quadrinhos brasileiros. Afinal, houve, sim, uma época em que mães davam chineladas nos filhos e a moeda não era o real. Os textos com comentários no mínimo ajudaram aí.

É uma pena, mas o Cascão, que esperou dois anos para se publicado lá nos anos 1960 e mais dois pelo seu especial de 50 anos (se contar o ano de criação), merecia mais. Alguns acertos da Coleção Histórica não se repetem aqui e, no fim, Cascão – 50 anos parece só outro almanaque comum do personagem, em uma embalagem melhor – e mais cara.

Classificação

2,5

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