CLAUSTROFOBIA

Por Mário César
Data: 1 dezembro, 2006


Título: CLAUSTROFOBIA (Devir)
– Edição especial
Autores: Gonçalo Junior (roteiro) e Julio Shimamoto (desenhos).

Preço: R$ 25,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: 2004

Sinopse: Uma garota cujo único contato com o mundo não vai além da visão da esquina mais próxima. Um vendedor ambulante de livros que não pode trabalhar porque chove ininterruptamente. Os mendigos que matam a fome com pombos. O sertanejo que se arrasta sob o sol implacável à procura de água. O desenhista enclausurado num cubículo.

Essas e outras tramas que compõem este álbum têm algo em comum: a atmosfera asfixiante de uma realidade cruel contra a qual todos lutam desesperadamente. São tipos que vivem num universo claustrofóbico, sem portas, paredes ou grades. Apenas janelas.

Positivo/Negativo: O cinema expressionista alemão das décadas de 1910 e 1920 foi um grande marco na história da arte. Ele refletiu a depressão após a Primeira Guerra Mundial com histórias sombrias e pessimistas marcadas por cenários fantasmagóricos, exageros na interpretação dos atores e alto contraste de luz e sombra.

A realidade era distorcida para expressar os conflitos interiores dos personagens. Esse movimento influenciou desde os quadrinhos de terror da década de 1950 a Osamu Tezuka e inspirou, entre outras coisas, a criação deste álbum.

As histórias giram em torno de situações desesperadoras que mostram a ausência de liberdade, dinheiro, comida, emprego e até mesmo esperança (aquela que dizem ser a última a morrer).

A janela mostra o que até uma singela garota é capaz fazer em nome da própria liberdade. O roteiro resvala em clichês como usar um pássaro para simbolizar a liberdade e não consegue surpreender como as demais histórias.

Chuva narra a trajetória de um vendedor de livros impedido de trabalhar por conta de uma tempestade. Os rostos dos personagens são representados por formas geométricas lembrando o trabalho do artista plástico Paul Klee, um dos momentos mais ricos do álbum.

Homo sapiens é uma releitura do embate entre inteligência e força. Diverte, apesar de parecer um pouco deslocada dentro da proposta do livro.

Em Redenção, um sertanejo colhe a única certeza que se pode ter em um cenário seco e inóspito como o sertão. Não acrescenta muito ao que já se foi mostrado sobre o sertão, mas reserva uma boa surpresa na última página.

Acuado é o ponto mais macabro e surpreendente do livro, no qual um bando de mendigos vai às últimas conseqüências para saciar a fome.

Em Prólogo os autores mergulham em seu próprio universo e fazem algumas homenagens (e críticas) ao mundo dos quadrinhos. Seu desfecho, assim como a de Homo Sapiens, tem uma bem-vinda dose de ironia.

Os roteiros, apesar de uma certa irregularidade, têm bons momentos, são valorizados pela ausência de diálogos e pelo competentíssimo trabalho de arte. O traço de Shimamoto pode não agradar a todos, mas narrar histórias em quadrinhos sem diálogos não é para qualquer um. O menor deslize pode pôr tudo a perder e o velho mestre não comete nenhum, muito pelo contrário.

Seu traço carregado nas sombras e exagerado na dramaticidade se encaixa perfeitamente com a proposta e, aliado à sua rica narrativa, passa toda a sensação de desespero e demais nuances dos personagens.

Shimamoto também mostra versatilidade ao mudar alguns aspectos em seu traço a cada história. Nas passagens mais macabras e fatalistas, deixa as sombras ainda mais pesadas. Na ambiente do sertão abre espaço para o branco e usa a técnica de pincel seco para mostrar os estragos causados pelo sol escaldante.

Já em Prelúdio usa e abusa de hachuras para flertar com o underground norte-americano. Trabalho de um mestre com anos de praia e domínio pleno sobre o assunto.

A edição da Devir está impecável, tem bom acabamento, informações sobre os autores e um preço justo como toda boa publicação deve ter.

 

Classificação:

4,0

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