Coisas de adornar paredes

Por Rodrigo Scama
Data: 20 maio, 2016

Coisas de adornar paredesEditora: Quadrinhofilia – Edição especial

Autor: José Aguiar (texto e arte).

Preço: R$ 48,00

Número de páginas: 120

Data de lançamento: Abril de 2016

Sinopse

Um melancólico escritor de histórias de terror que, na realidade, é um mero funcionário de uma empresa de azulejos fora de linha. Ele mostra seus contos a dois amigos que trabalham com ele e ouve as críticas de ambos.

Positivo/Negativo

Coisas de adornar paredes é o novo trabalho do curitibano José Aguiar, um incansável batalhador da nona arte no sul do Brasil. Desta vez, o autor apresenta a história de Chico, um jovem que trabalha em uma empresa de azulejos fora de linha (daqueles que as pessoas pagam fortunas porque precisam refazer uma parede), mas quer mesmo é se firmar como escritor.

Assim, a dinâmica do álbum é feita pelos contos de Chico e, logo depois, pela crítica de dois de seus colegas, Ana e Caio, que leem as histórias no meio do expediente e expressam sua opinião ao pobre autor.

O que torna este álbum interessantíssimo é justamente essa dinâmica. Primeiro, porque se lê um conto. Em seguida, vem a crítica a esta história. Ana e Caio representam muito mais a autocrítica de Aguiar, do que a crítica ao personagem Chico.

Todas as tramas contadas por Chico têm a ver com coisas que adornam paredes (como o título explica). Assim, Aguiar invade o mundo dos azulejos, dos tijolos, das rachaduras, dos quadros e de tantas outras coisas que existem em nossas paredes, em nossas casas e que raramente nos damos conta.

Os contos de Chico são muito bem construídos, e misturam algo de moderno com as histórias de Edgar Allan Paul, Baudelaire ou Oscar Wilde. O fantástico e o horror se mesclam, e o leitor é brindado com um interessante desenvolvimento de personagens e de trama, que, como era de se esperar, não raro acaba mal.

Mas o álbum é mais do que isso, porque, como já foi dito, há a crítica da história contada. Existe uma nova camada de leitura na interação entre Chico, Ana e Caio. E ali a trama precedente se completa, porque os pontos falhos da narrativa do pretenso escritor são explicitados, mas não só.

Aos poucos, o leitor vai percebendo que as inspirações para a escrita das histórias vêm justamente desses encontros e diálogos no meio do expediente. E que é o desenvolvimento da relação entre os personagens que motiva Chico a escrever e, em outra perspectiva, não ser tão bem-sucedido na arte das letras.

O desenho de José Aguiar é outro ponto forte. O artista usa a técnica da aguada para fazer fenomenais aquarelas em escalas de cinza. Os personagens angulosos contrastam de forma brilhante com essa técnica artística, pois promovem uma estranheza que chama a atenção.

Talvez o melhor momento para perceber isso sejam as sutilezas dos retratos dos personagens pendurados na parede das páginas 46 e 47. Um tipo de arte que faz Aguiar se destacar pela criatividade e originalidade.

Para quem é curitibano, há outro detalhe importante: cada uma das histórias se passa em um bairro da capital paranaense. Para quem não é de Curitiba, basta dizer que Uberaba, Boqueirão, Santa Felicidade e os demais nomes próprios que aparecem nos títulos são os nomes dos “pedaços” da cidade.

Enfim, é uma obra para ler mais de uma vez. Um trabalho com uma sutileza de detalhes que faz com que uma segunda (ou terceira) leitura seja ainda mais surpreendente, para perceber as diversas camadas de interpretações colocadas por Aguiar neste livro.

Classificação

4,5

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