COLEÇÃO DC 75 ANOS # 3 – A ERA DE BRONZE

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2011

COLEÇÃO DC 75 ANOS # 3 - A ERA DE BRONZE

Editora: Panini Comics – Série em quatro edições

Autores: Dizem que elas matam… Mas não dizem quando! – Dennis O’Neil (texto), Neil Adams (desenhos) e Dick Giordano (arte-final). Originalmente em Green Lantern # 86;

Precisa haver um Superman? – Elliot S! Maggin (roteiro), Curt Swan (desenhos) e Murphy Anderson (arte-final). Originalmente em Superman # 247;

A vingança quíntupla do Coringa! – Dennis O’Neil (texto) e Neal Adams (arte). Originalmente em Batman # 251;

Lição de anatomia – Alan Moore (texto), Steven Bissette (desenhos), John Totleben (arte-final) e Tatjana Wood (cores). Originalmente em The saga of the Swamp Thing # 21;

Para o homem que tem tudo… – Alan Moore (texto), Dave Gibbons (arte) e Tom Zuiko (cores). Originalmente em Superman Annual # 11;

Um clarão de relâmpago – Marv Wolfman (texto), George Pérez (desenhos), Jerry Ordway (arte-final) e Anthony Tollin (cores). Originalmente em Crisis On Infinite Earths # 8.

Preço: R$ 17,90

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Fevereiro de 2011

 

Sinopse

Antologia que comemora os 75 anos da editora de super-heróis DC Comics com HQs que se tornaram clássicos da casa, a partir de um misto de mérito artístico e relevância na história dos seus personagens.

Dizem que elas matam… Mas não dizem quando! – Revela que Ricardito, o parceiro juvenil do super-herói Arqueiro Verde, está viciado em drogas.

Precisa haver um Superman? – Os Guardiões do Universo, uma raça de alienígenas superpoderosos que cumpre o papel de sistema judiciário sideral, acredita que a presença de Superman está tornando os terráqueos muito acomodados.

A vingança quíntupla do Coringa! – Livre da prisão, o Coringa busca vingança contra os seus antigos comparsas. Cabe a Batman salvá-los.

Lição de anatomia – Em sua primeira história do Monstro do Pântano, o escritor Alan Moore transforma o conceito do personagem: em vez de ser um homem que virou monstro, passa a ser uma planta que acha que é gente.

Para o homem que tem tudo… – No dia do aniversário do Homem de Aço, o vilão Mongul prende Superman em um delírio utópico. O herói acredita que Krypton não explodiu e vive uma confortável vidinha ordinária em seu planeta de origem. Batman, Robin e Mulher-Maravilha terão que tirá-lo do transe, ao mesmo tempo em que enfrentam o alienígena.

Um clarão de relâmpago – É a história que mostra a morte de Barry Allen, o Flash mais conhecido, durante os eventos da Crise nas Infinitas Terras.

As histórias foram selecionadas por votação entre leitores a partir de uma lista prévia divulgada em um site da Panini Comics.

Positivo/Negativo

Esta edição especial é batata! Aqui estão algumas das melhores histórias de super-heróis já escritas.

São algumas daquelas que os fãs decantam toda vez que precisam defender seus personagens encapuzados. Aos que não compartilham o entusiasmo, eles enchem o peito e dizem: “Você não entende os super-heróis porque nunca leu o Arqueiro Verde do Dennis O’Neil ou o Superman e o Monstro do Pântano do Alan Moore…”.

E é verdade. Essas aventuras estão não só entre as melhores de super-heróis de todos os tempos, mas também são algumas das melhores HQs que os Estados Unidos produziram na década de 1970 e no começo da de 1980.

O zeitgeist era promissor. A contracultura dos anos anteriores estava sendo assimilada pela cultura de massa, ao mesmo tempo em que Will Eisner e outros autores estavam criando quadrinhos para adultos. Era hora de as mais populares HQs norte-americanas deixarem de ser voltadas apenas para crianças e tentar alcançar outros públicos.

(Notadamente, o caminho escolhido para atingir a maturidade foi o de requentar temas da infância, como se fosse possível prolongá-la, mas isso é assunto para outra hora.)

Aos poucos, depois de décadas chupando conceitos das ciências exatas, DC e Marvel começaram a incorporar elementos como filosofia, psicologia e sociologia em suas tramas. E surgiu, então, todo um manancial de tramas a serem exploradas.

Essa é a marca deste especial.

É daí que vem a possibilidade de se fazer uma história como a do Ricardito viciado.

Hoje, a história perdeu parte do vigor original. Tanto o texto quanto a arte soam exagerados, melodramáticos. Mas é preciso entender o contexto e dar um desconto. Há um tom inaugural nesse discurso antidrogas nos quadrinhos de super-heróis: era uma das primeiras vezes que isso acontecia (antecedido apenas por uma história do Homem-Aranha, de poucos meses antes, como bem lembra o editor Levi Trindade na introdução deste volume).

Daí, é natural que houvesse esse entusiasmo. Veja bem: a indústria de super-heróis tinha passado décadas mostrando heróis salvando o mundo de vilões improváveis como cientistas malucos e alienígenas multicoloridos. Dessa vez, os próprios artistas e editores tinham a oportunidade (ou a ilusão) de tentar salvar uns garotos de verdade a partir de uma história em quadrinhos.

Dá para culpar alguém por essa euforia respingar na trama? Ou mesmo pela demagogia? Afinal, quantos heróis não tiveram seus corpos modificados justamente pelo consumo de substâncias esquisitas – e suspeitíssimas – sintetizadas em laboratórios?

Aliás, o próprio conceito de droga faz sentido no universo dos super-heróis. Por que alguém consumiria heroína quando pode ter um anel do Lanterna Verde? A história Para o homem que tem tudo… apresenta a planta Clemência Negra, que cria alucinações utópicas e é inofensiva ao corpo. Por que não usá-la como droga, oras?

E não é irônico que, nos anos seguintes, os quadrinhos de super-heróis fossem salvos justamente por defensores ferrenhos dos poderes das drogas, liderados por Alan Moore? E que o próprio autor fizesse em seguida Rite of Spring (Swamp Thing # 34), uma das mais lindas histórias em quadrinhos sobre amor, usando as tais drogas como ponte entre o Monstro do Pântano e sua amada Abby?

São pontos que, passados uns anos, envelhecem e “encaretam” a história de Dennis O’Neil e Neal Adams. Ao se aproximar da sociologia e tentar fazer uma crônica da realidade a partir de super-heróis, a dupla acaba comprometendo a durabilidade de sua trama.

A história seguinte do álbum também é herdeira da contracultura: tenta impingir certa responsabilidade a um herói individualista, que poderia estar comprometendo os poderes cooperativos da humanidade.

Na visão dos Guardiões do Universo, o Homem de Aço teria se tornado um paizão da humanidade. A solução proposta por Elliot S! Maggin é curiosíssima: não é preciso resolver o problema, basta trazê-lo ao consciente.

O poder judiciário sideral passa a cumprir seu papel – quem diria – por meio de uma psicanálise de choque!

A consciência da condição super-humana também é o mote de Lição de Anatomia, a mais sofisticada das histórias da edição.

Ao assumir o Monstro do Pântano, Alan Moore inverte a lógica do personagem. Em vez de ser um homem que virou monstro, passa a ser uma planta que acha que é gente. O ex-Alec Holland se dá conta de que nada mais é do que um xaxim e fica devastado pela revelação. O surto perduraria e transformaria o título em um dos quadrinhos mais importantes da passagem do britânico pela DC.

Para o homem que tem tudo… também faz revelações. Entrega os desejos mais secretos dos heróis. Escancara-os em um delírio utópico e alucinógeno. Quem conseguiria sair de um mundo perfeito?

A vingança quíntupla do Coringa! e Um clarão de relâmpago são as histórias com temas mais convencionais: crime e ficção científica, respectivamente.

Tudo bem: o tom do crime é diferente, com um Batman informal que tem intimidade com os bandidos. E a arte de Adams, recolorida, é bonitona.

Já a ficção científica de Flash vai exatamente pro outro extremo: faz parte da megalomaníaca série Crise nas Infinitas Terras, que chegou a retratar todos os heróis do panteão da DC Comics até então. É a HQ mais fraca do álbum.

Mas mesmo essas histórias são exemplos claros de um problema recente da DC Comics: a falta de originalidade.

Enquanto os quadrinhos norte-americanos como um todo foram se desenvolvendo e amadurecendo, é curioso constatar que os super-heróis estagnaram em meados dos anos 80.

Atualmente, o coração do universo ficcional da DC (para ficar na editora analisada nesta resenha) é calcado em uma história da época feita por Alan Moore e Kevin O’Neill e estrelada pela Tropa dos Lanternas Verdes. É ela que serve como inspiração para a série A noite mais densa, que atravessa diversos títulos da editora.

E não é o único conceito da época a ser reciclado. Crise nas infinitas Terras também alicerça a narrativa de Geoff Johns, que praticamente cancelou seus feitos na minissérie Crise infinita. Recentemente, por exemplo, o Flash morto neste especial ressuscitou.

Pior: dessas HQs chupadas, as ideias sumiram. Mesmo a filosofia de almanaque. Mesmo a sociologia de botequim. Mesmo a psicologia de manual de autoajuda. Tudo isso ficou nas mãos de meia dúzia de autores – Grant Morrison e Mark Millar são os exemplos mais notórios.

É por isso que, passadas três décadas, as histórias deste especial parecem tão apetitosas: muito pouco de interessante aconteceu nos quadrinhos de super-heróis depois disso.

O próximo volume também tem histórias da mesma época. Das seis HQs que serão publicadas, quatro são parte das reformulações dos heróis promovida logo após Crise nas infinitas Terras e uma (Sandman # 8) é ligada à chamada invasão de autores britânicos da época, dada como consequência do sucesso de Alan Moore. A outra é a aventura em que o Lanterna Verde se torna o vilão Parallax – ou seja, diretamente ligada a A noite mais densa e, portanto, com raízes na Era de Bronze.

Por justiça, vale mencionar que a Panini listou na cédula HQs como Grandes Astros – Superman, Superman – As quatro estações e Ex Machina, o que abre uma brecha para perguntar o que, afinal, quer o leitor de super-heróis. (Essa discussão, contudo, fica para outra vez.)

O especial também dá espaço para constatar outra mudança nos quadrinhos de super-heróis, agora um fato do mercado brasileiro.

Com exceção da história do Batman (que constaria da coleção Batman de Neal Adams, da qual nunca mais se teve notícias – novamente: fica pra outra ocasião), as outras HQs do álbum foram publicadas recentemente, até pela própria Panini, e várias estão disponíveis em livrarias, coisa que, há uma década, quando os super-heróis eram relegados às bancas de jornal, seria improvável.

Isso é um ótimo sinal: é bom que o leitor possa encontrar as histórias que quer em livrarias ou sites, ainda mais num universo ficcional tão autorreferente.

Mas, ao mesmo tempo, esse modelo traz problemas para a coleção. Afinal, é preciso levar em consideração a quem se destina a Coleção DC 75 Anos.

Se é para o leitor novato ou ocasional, seria bom que ao menos as histórias que fazem parte de arcos maiores, como Crise nas Infinitas Terras e Monstro do Pântano, tivessem textos relacionados ou alguma forma de situar o sujeito que não sabe quem é o Pirata Psíquico. Ambientar o cliente, afinal, faz parte do serviço de uma boa casa editorial.

Se é para o leitor contumaz, talvez fosse o caso de, desde a eleição, prever mais títulos inéditos, de modo que a série se torne, ao mesmo tempo, mais interessante e menos descartável para o cliente assíduo.

Tudo bem que as HQs do álbum realmente são bacanas, com a importância histórica de revelar um período que influencia até hoje as HQs da DC, feita por criadores que até hoje os leitores gostariam que voltassem à escrivaninha ou à prancheta.

E claro que a editora sempre tem todo o direito de propor uma nova antologia, com um recorte inédito – a divisão por “eras”. E óbvio que a eleição das histórias pelos leitores dá um verniz democrático e supostamente original para a coleção.

Mas, na prática, a sensação de déjà vu ainda é forte.

Classificação:

4,0

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