Comic Book Tattoo

Por Carol Almeida
Data: 19 dezembro, 2008
MATERIAL IMPORTADO

 

Comic Book TattooEditora: Image Comics – Edição especial

Autor: Rantz A. Hoseley (organizador).

Preço: U$ 29.99

Número de páginas: 480

Data de lançamento: Julho de 2008

Sinopse

“Eu sei que tenho alguma mágica enterrada no meu coração”, diz Tori Amos em uma das suas 50 músicas adaptadas para quadrinhos no álbum Comic Book Tattoo.

E mágica, que ela tem como marca de nascença, é uma boa palavra para sintetizar a capacidade de decolagem dos vários importantes artistas que apertaram o play e voaram alto pelas entrelinhas do fantástico e complexo universo dessa cantora.

Positivo/Negativo

Como que flutuando a procurar donos, notas graves de um dó menor e versos sem rima de uma poeta com senso de humor apocalíptico pairavam tal qual labirinto sobre a cabeça de Rantz A. Hoseley.

Foi quando ele decidiu soltar por aqueles infinitos corredores de partituras um exército de caçadores armados com seus puçás, ora fabricados com grafite, tinta ou mesmo o bom e novo Adobe Photoshop. A missão era colher nesse musicado vento todas as sensações de imagem que pudessem ser contidas em algumas páginas. Não seria fácil, mas certamente seria, de 0 a 10, 11 no quesito estimulante.

E assim nasceu Comic Book Tattoo, um álbum orquestrado por Hoseley e executado por vários artistas da mais fina estirpe. Do lado de dentro da página, puxando todos esses bravos guerreiros com uma cordinha de pérolas, a poeta das palavras dispersas em uma lógica própria e sólida daqueles a quem os americanos carinhosamente apelidam de “perdedores”: Tori Amos, a cantora dos adjetivos contorcidos, a senhora do piano rock’n’roll, a voz feminina dos losers, a amiga (e musa) de Neil Gaiman que escreveu o prefácio de Morte.

Inspirados então em 50 músicas de Tori, que não necessariamente são suas melhores ou mais famosas, 86 impetuosos artistas, entre roteiristas, desenhistas, coloristas e letristas, deram um salto no ar e, como balões de hélio, foram escalando o céu sem parar, em viagens daquelas que você só pára se alguém estalar o dedo perto do seu ouvido.

O resultado é certamente o mais ousado trabalho já feito em adaptação do meio música para o meio quadrinhos. E olha que essa amizade é antiga.

A história que abre e dá título ao robusto álbum de quase três quilos (o que exige um carinho e atenção extra no manusear de suas enormes páginas) foi, segundo o organizador do projeto, um tributo que a própria Tori Amos fez à sua cabecinha avoada de quadrinhista.

Flying Dutchman, um lado B da cantora, é a música que fala de uma criança que sofre com a falta de fé dos homens na capacidade individual de criação. “Eles dizem que seu cérebro é a tatuagem de uma história em quadrinhos e você nunca será nada”, canta ela.

Nos desenhos e roteiro de David Mack, isso se transforma em uma incrível narrativa dividida sempre pela metade da página, em uma intencional proposta de pegar o leitor pelos dois lados do cérebro: aquele reservado para os quadrinhos e outro que guardado para o fone de ouvido.

É com essa suntuosa e acachapante introdução que Comic Book Tattoo segue com histórias de sereias e “sereios”, de pequenos terremotos individuais, de pássaros que querem se tornar humanos e de humanos que querem ganhar asas. Tudo isso em desenhos que, de tão requintados, podem fazer o leitor “chorar mil oceanos”, como versa uma das mais bonitas músicas de Tori Amos (e uma das mais belas narrativas do livro).

Não pense que a idéia é transportar as letras para balões cuidadosamente arranjados na arquitetura de uma canção videoclipada em quadrinhos. À exceção justamente de Flying Dutchman, todas as demais 49 histórias não seguem um roteiro pré-fixado pela ordem dos versos de Tori Amos. A proposta foi sempre tomar as músicas como uma escada e não como um teto.

As letras e melodias dão contexto e não engessam a liberdade criativa dos artistas. Assim, elas podem ser lidas mesmo sem o suporte da música – em vários casos, os artistas prescindem mesmo da palavra e criam apenas narrativas estritamente gráficas.

Ainda assim, conhecer a origem dos roteiros dá não somente mais poesia aos enredos, mas também uma particular melodia a eles, principalmente se o leitor já ouviu a música e o jeito muito personalizado de Tori Amos cantar, quebrando as palavras, engolindo letras e distorcendo fonemas com o toque forte e quase raivoso de seu piano. A recomendação, neste caso, é criar uma playlist dedicada ao álbum.

Naturalmente, nesse processo, alguns autores se sobressaem em relação a outros e, diante de 50 histórias distintas, eis aqui um top five com o que há de melhor nesta trilha sonora visual, por ordem de aparição no livro:

The Waitress, com roteiro do próprio Rantz A. Hoseley e desenho de Ming Doyle. Uma das letras mais agressivas de Tori Amos não poderia deixar de ter uma adaptação igualmente feroz, tanto na sua linguagem sempre cortada (como que por uma garrafa quebrada), com duas situações em tempos e cores distintas, quanto na sua trama em que uma mulher precisa matar seu desejo de matar.

1000 Oceans, de Jonathan Hickman. Assim como outros artistas do álbum, o autor parte a já partida linguagem dos quadrinhos e, com base em uma letra sobre a tristeza de se aprisionar seres, cria uma história sobre dragões, tigres, guerreiros e rainhas encarcerados pelo tempo.

Space Dog, de Matthew S. Armstrong. Uma das poucas músicas de Tori Amos a começar com uma bateria e um baixo rende certamente o enredo mais espirituoso e brincalhão da obra. O ritmo é rápido e, para uma letra que fala de um cão astronauta, certamente o desenho explora o jogo de colorir e descolorir com a velocidade de uma nave espacial. É também o roteiro que se constrói em cima da referência ao fato de a própria cantora ser fã de quadrinhos.

Devils and Gods, de Jessica Staley, com arte de Shane White. A letra é curta e crua e ganha aqui um roteiro que enche os olhos, não apenas pelo desenho preciosista de White como pela leitura de quem são os demônios e deuses em nós, numa ficção que opera no mundo do fantástico para falar do pai, o criador, e da filha, a criatura.

Pretty Good Year, de Derek McCulloch, com desenhos de Collen Doran. A derradeira história do álbum toma 13 páginas para falar de 12 meses na vida de Greg, um aspirante a cantor que faz de cada mês uma página ilustrada por suas impressões em um diário. McCulloch cria uma narrativa típica de quadrinhos, com 12 lapsos de tempo, 12 tentativas e uma resolução inconclusiva.

Poderia-se fazer um faixa a faixa mais detalhado deste álbum, mas é sempre bom salvar aquele gostinho da primeira vez que se escuta uma música ou se abre uma página. Aliás, aproveitando a premissa do “positivo/negativo” neste texto, é preciso pontuar que existem dois fatores que não exatamente pesam contra este livro, mas sim contra seu acesso: 1) ele ainda não foi publicado no Brasil; e 2) não será fácil conseguir uma editora por aqui, tendo em vista não apenas a produção cara que exige (todas as 480 páginas são coloridas e com papel couché), como o próprio contexto da obra, que adapta letras em inglês (dificilmente traduzíveis) em HQs que, mesmo independentes dos versos, têm sua origem neles.

Mas se este texto não puder ser um pedido, ele não pode ser mais nada.

Em tempo: Rantz A. Hoseley é também conhecido como o cara que apresentou Neil Gaiman a Tori Amos. Foi quando Sonho encontrou Delírio.

Classificação

5,0

Carol Almeida, jornalista, editora assistente do Caderno C(no qual assina a coluna Zine), do Jornal do Commercio, de Recife, e responsável pelo blog Zuper

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