CONDE DRÁCULA

Por Luciano Guerson André
Data: 1 dezembro, 2004


Autores: Guido Crepax (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 27,50

Número de páginas: 146

Data de lançamento: Abril de 1989

Sinopse: No final do século XIX, o Conde Drácula resolve deixar
sua Transilvânia para conhecer o farol da modernidade que era Londres.
Para fazer os preparativos necessários, ele atrai um agente imobiliário,
Jonathan Harker, até seu castelo. Lá, o homem logo descobre que é prisioneiro
do vampiro e terá um destino trágico.

Já na Inglaterra, o Conde toma a vida da bela Lucy Westenra. Entretanto,
seus atos não ficarão impunes. Jonathan Harker consegue retornar e se
alia ao caçador de vampiros Abraham Van Helsing e aos três ex-pretendentes
da jovem assassinada, para pôr fim aos planos de Drácula.

Como vingança pela intervenção impertinente, o vampiro ataca a esposa
de Jonathan, Mina. Agora só a morte de Drácula poderá salvar a vida da
jovem.

Positivo/Negativo: O Conde Drácula foi criado em 1893 pelo escritor
irlandês Bram Stoker, que se inspirou no folclore criado sobre uma figura
histórica real: um príncipe da antiga Valáquia, região da Romênia, que
teria vivido no século V, governou uma terra assolada por invasões e se
notabilizou pela crueldade que dispensava aos inimigos. Ganhou a alcunha
de Vlad Tepes, ou Vlad o empalador, por causa do hábito de mandar trespassar
o corpo de seus adversários com longas estacas de madeira. A morte por
este processo era um tormento indescritível. Conta-se que ele gostava
de se banquetear em meio às vítimas agonizantes e não raro consumia-lhes
o sangue e a carne.

O que é verdade ou lenda sobre o Príncipe Vlad é um enigma perdido nas
brumas do tempo. Mas é indiscutível que Stoker criou um dos mais perenes
mitos modernos. Ao longo de todo o século XX, a figura do vampiro da Transilvânia
se infiltrou no inconsciente coletivo da humanidade por intermédio de
uma infinidade de filmes, livros, peças de teatro e, claro, histórias
em quadrinhos. Drácula ganhou a imortalidade, não como morto-vivo, mas
como um ícone da cultura de massa.

Essa notoriedade toda teve um preço bastante alto. As muitas adaptações
cinematográficas acabaram banalizando o personagem. Seja com o nome de
Drácula ou em clones nele “inspirados”, o vampiro teve as mais diversas
encarnações nas telas. Algumas ainda tentaram ser fiéis ao texto original
em alguma medida, mas outras não guardavam a mais tênue relação com o
livro de Stoker.

Entre as bizarrices se encontram tramas de ficção científica, ambientações
nos Estados Unidos nos tempos modernos, filmes pornográficos e até mesmo
versões negras, femininas ou homossexuais.

Após constantes paródias e adaptações de baixo nível, o Conde acabou se
tornando um clichê. Sua imagem clássica, indelevelmente associada ao smoking
e à capa popularizados por Bela Lugosi no filme dos anos 30, parece mais
capaz de provocar risos do que sustos atualmente.

Nos quadrinhos, o fenômeno do desgaste se repetiu. Alguns momentos marcantes,
especialmente o título Tomb of Dracula, escrito por Marv Wolfman
e magistralmente ilustrado por Gene Colan, não mudam o fato de que a figura
do vampiro era quase sempre sinônimo de histórias de baixa qualidade e
afeitas a lugares-comuns.

Por tudo isso, poderia parecer uma temeridade tentar criar algo de relevante
baseado no personagem. Pois em 1983, o genial desenhista milanês Guido
Crepax
se propôs justamente a esta difícil empreitada. O resultado
foi o magistral álbum Conde Drácula que a Editora Martins Fontes
publicou no Brasil seis anos depois.

Mestre dos quadrinhos eróticos, criador de várias e inesquecíveis mulheres
de papel, entre elas a musa Valentina, Crepax foi na contramão das tendências
de se reinventar o mito de acordo com os modismos em vigor; e resgatou
a trama original de Bram Stoker. Até mesmo a estrutura epistolar do romance
foi mantida, a narrativa se serve de cartas, diários e gravações fonográficas
dos personagens para desenvolver a trama e apresentar os diversos pontos
de vista sobre os acontecimentos.

Esta fidelidade, entretanto, não significou uma mera transposição do romance
para os quadrinhos. Além de pequenas alterações na ordem de apresentação
dos fatos, que proporcionaram um ritmo mais empolgante à trama, o desenhista
mostrou mais uma vez seu completo domínio da arte seqüencial e imprimiu
uma marca autoral inconfundível sobre a obra.

São evidentes no álbum as temáticas caras ao artista, especialmente o
clima onírico e sensual que permeia toda sua produção. O desenho é de
um virtuosismo impecável. O trabalho de pena de nanquim recria com perfeição
o clima sombrio da história. Por vezes, os intrincados jogos de hachuras
remetem a xilografias e às ilustrações características do século XIX.

O terror crescente é ressaltado pelos jogos de luz e sombra. Da enevoada
Londres aos lúgubres picos dos Cárpatos, o leitor pode quase vivenciar
a atmosfera opressiva que cerca os acontecimentos. Deve-se destacar também
a reconstituição primorosa dos cenários, trajes e tipos físicos. Cada
lugar, cada personagem é minuciosamente retratado de forma a parecer extremamente
verossímil, aumentando assim a sensação de imersão no romance.

As composições de grande originalidade são outra constante. O desenhista
alterna diagramações clássicas com outras mais audaciosas e se utiliza
dos mais diversos planos de tomada, de acordo com o ritmo que busca imprimir
a cada seqüência. Seu traço é caracterizado por uma grande expressividade,
que consegue traduzir com perfeição as emoções dos personagens.

Tamanho domínio das formas narrativas torna dispensável o uso de recordatórios
supérfluos. O que Crepax consegue aqui é a mais apurada amostra de histórias
em quadrinhos como uma arte de linguagem própria, pois o desenvolvimento
da trama se faz pela síntese perfeita de imagem e texto, que se complementam
sem primazia de um sobre o outro.

A qualidade ímpar do trabalho do artista fica evidente na força das imagens
criadas por ele. As seqüências dos sonhos de Lucy, já sob a influência
nefasta do Conde, são de uma beleza plástica arrebatadora. Nelas, elementos
cotidianos se transfiguram e dão lugar ao sobrenatural. Os nós na madeira
de um guarda-roupa se transformam nos olhos penetrantes do vampiro ou
uma cômoda se torna um gigantesco morcego.

As cenas onde Drácula aparece como uma sombra indistinta junto de sua
vítima são tanto ou mais aterrorizantes, pelo fato de sugerirem sem mostrar
explicitamente. Poucos artistas nos quadrinhos de qualquer época conseguiram
efeitos de tamanho lirismo visual .

O erotismo, elemento chave da obra, não está calcado em personagens de
sex-appeal evidente, como os charmosos vampiros da escritora Anne
Rice. Acostumado a uma sutil abordagem psicanalítica, Crepax não apela
para soluções tão óbvias.

Seus mortos-vivos têm uma aparência de decadência doentia. A atração que
exercem sobre os mortais é de uma explícita relação de dominação. O ato
de sugar o sangue das vítimas, invariavelmente despidas e vilipendiadas,
se converte num verdadeiro exercício de perversão sadomasoquista. O sexo
ligado à violência e a subjugação do outro são temas recorrentes na bibliografia
do italiano e, neste caso em particular, esta associação casou-se com
perfeição.

O grande mérito de Crepax foi o de tornar Drácula novamente uma figura
apavorante. Se o cinema fez dele quase um anti-herói romântico, o quadrinhista
o apresenta como um monstro, uma criatura degenerada que não conhece limites
na busca de satisfazer seus mais baixos instintos.

Até mesmo a aparência do Conde revela sua natureza. Sob os traços distintamente
eslavos, percebe-se o semblante de malignidade. Ainda assim, a bestial
criatura da noite demonstra resquícios de uma humanidade perdida, como
quando se enfurece com suas três “noivas”, que o acusam de não saber amar.

Anos depois, em 1992, o diretor Francis Ford Coppola seguiria uma abordagem
bastante semelhante para realizar aquela que talvez seja a melhor transposição
da história do vampiro no cinema: o filme Drácula de Bram Stoker.
Aliás, diversos elementos, como a insinuada atração de Mina por Lucy,
os cenários, os figurinos (vide a aparência da armadura de Drácula), os
enquadramentos, todo o clima de erotismo e mesmo seqüências inteiras como
a do ataque do lobo à mãe de Lucy, apontam para uma influência explícita
do álbum de Crepax sobre o filme.

Ao contrário da maior parte da produção de quadrinhos de arte da Europa,
uma boa parte dos títulos de Crepax foi publicada no Brasil, especialmente
pelas editoras L± e Martins Fontes. Há tanto obras escritas
pelo próprio autor Valentina, Bianca e Anita), como adaptações
de obras literárias como Emmanuelle, A Vênus das Peles, Justine
e Dr. Jekyll e Mr Hyde, sempre na linha “erótico-chique”.

A maioria dos álbuns está fora de catálogo, mas com um pouco de persistência
é possível encontrá-los em sebos. Felizmente, Drácula ainda não está esgotado
e pode ser comprado tanto na editora, quanto em grandes livrarias.

O Conde Drácula é um dos pontos altos na carreira de um dos gigantes dos
quadrinhos e uma prova da força destes como forma de expressão artística.
Pois o que define uma obra de arte senão sua capacidade de perturbar e
emocionar?

Ler estas páginas é uma experiência única a que o leitor certamente não
ficará indiferente. Pois Guido Crepax trouxe de volta o horror a uma das
histórias mais amadas da literatura mundial; e no processo compôs uma
verdadeira sinfonia de sangue e tinta.

Classificação:

4,0

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