CORTO MALTESE – A BALADA DO MAR SALGADO

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2006


Título: CORTO MALTESE – A BALADA DO MAR SALGADO (Pixel
Media
) – Edição especial
Autores: Hugo Pratt (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 33,00

Número de páginas: 176

Data de lançamento: Janeiro de 2006

Sinopse: Cain e Pandora Groovesnore, dois jovens náufragos, são resgatados e mantidos como reféns por um conclave de piratas comandado por um misterioso personagem conhecido como Monge.

Em meio às tentativas de fuga, conspirações e trapaças, os dois aprofundam laços com seus captores, especialmente com o carismático marujo Corto Maltese, seu principal protetor contra as crueldades de Rasputin, um patife assassino, e sequer imaginam que a verdade sobre suas próprias origens está oculta entre os enigmas da Ilha de Escondida.

Positivo/Negativo: A recém-fundada editora Pixel entra de pé direito no mercado de quadrinhos brasileiro com o lançamento de um dos mais incontestáveis clássicos da Nona Arte, a lendária primeira aventura do marinheiro Corto Maltese, principal criação do quadrinhista e aventureiro Hugo Pratt, falecido em agosto de 1995.

Além da promessa de diversos lançamentos, a editora pretende lançar a coleção completa dos álbuns do galante marujo, a maioria dos quais inédito em terras tupiniquins, a não ser por caríssimas edições importadas de Portugal. Uma oportunidade fantástica para os leitores conhecerem (ou reencontrarem) uma das obras mais importantes dos quadrinhos mundiais, mas ainda pouco conhecida por aqui.

Corto Maltese é o arquétipo maior de todos os aventureiros românticos, alter ego de seu autor e veículo para a tradução de uma riquíssima experiência de vida, na forma de histórias refinadas e vibrantes, magnificamente ilustradas num estilo enxuto e fortemente expressivo que inspirou artistas das mais diversas áreas, de Frank Miller a Umberto Eco, passando por Milo Manara, Guido Crepax e outros.

Mais do que meramente uma HQ de aventuras exóticas, as narrativas de Pratt, na melhor tradição de escritores errantes como Jack London, despertam sentimentos ancestrais, reacendem o chamado da aventura e do desconhecido, cada vez mais inaudível num mundo onde (quase) tudo já foi mapeado, onde as distâncias tornam-se virtuais e satélites desnudam secamente todos os recantos outrora enigmáticos do globo.

Um mundo de passaportes e fronteiras, registros detalhados e vistorias de alfândegas, onde cada vez mais o indivíduo deixa de ser o senhor de sua própria sorte e quase não restam Regiões Brandas (parafraseando o título de uma das mais belas histórias de Sandman, de Neil Gaiman) onde, quem sabe, ainda possam existir dragões.

A Balada do Mar Salgado, originalmente serializada na revista italiana Sgt. Kirk, em 1967, é uma obra única em sua ressonância e poesia, podendo ser comparada apenas aos posteriores álbuns de Corto, que refinariam ainda mais as qualidades narrativas e imagéticas de seu autor.

Centrada nos náufragos Cain e Pandora Groovesnore, a obra vai pouco a pouco dando destaque à figura do carismático marinheiro, embora o brilho dos coadjuvantes jamais esmoreça: o sinistro e talvez imortal Monge, o astuto Crânio, o maori Tarao, o imprevisível Rasputin, o capitão Slütter, mas acima de tudo é mesmo Pandora que concentra o fascínio e a sutileza da trama e a página que retrata sua despedida de Corto é um dos momentos mais belos e inesquecíveis da História das HQs.

Destaques? Difícil selecionar entre tantos numa história que atravessa tantos gêneros. Do absolutamente dramático (a tentativa de assassinato de Maltese pelas mãos do Monge) ao cômico (o desmoronar da cabana de Rasputin durante sua luta com o marujo), passando pelo suspense (a execução do capitão Slütter). Do realismo mágico (Tarao e Pandora sendo guiados pelo tubarão em pleno Pacífico) à farsa aventuresca (Corto sendo atacado pela ostra gigante). E momentos que desafiam qualquer classificação, nos quais a atmosfera e o insólito alcançam proporções fabulosas (Rasputin atirando no Monge diante do grande mar).

Quanto à edição da Pixel, pode-se dizer que é impecável. Excelente acabamento gráfico, matérias inspiradas que situam o leitor no contexto histórico e artístico da obra, uma belíssima capa em tons de verde que remetem de maneira deliciosa ao mar e seus mistérios e, acima de tudo, um preço abençoadamente acessível num mercado cada vez mais superfaturado, em que qualquer série corriqueira é posta à venda com ares de luxo e valores absurdos.

Um único porém, entretanto, em relação à edição da L±, de 1983. Embora inferior em todos os aspectos à atual (exceto, talvez, pela tradução antiquada, porém saborosa para os mais românticos, na qual Corto se refere à Pandora não como “joiazinha romântica”, mas sim como “romântica bijou”), a versão da Balada do Mar Salgado da editora gaúcha contava com um toque especial na forma da carta de um certo Obregon Carranza, sobrinho de Cain Groovesnore, que fazia as vezes de introdução para a história.

Esse texto belíssimo, curiosamente omitido pela Pixel, de certo modo, comenta e fecha os acontecimentos do álbum. Os interessados encontrarão a carta completa no blog deste resenhista, mais diretamente no link Carta sobre Corto Maltese. Mas o trecho mais significativo (uma citação de uma carta escrita por Pandora) pode ser conferido abaixo:

…se vires Cain lembra-lhe que não se esqueça de enviar-me aqueles mapas que estou esperando. Conta-lhe que as crianças estão bem e que Pamela pergunta sempre por ele. Nós também estamos muito bem, mas tivemos uma desgraça na família, o tio Tarao morreu. Deixou um grande vazio entre nós, mas é sobretudo pelo tio Corto que agora me preocupo. Aqueles dois se compreendiam perfeitamente e eram inseparáveis.

Agora, quando vejo o tio Corto sentado sozinho no jardim, com o olhar apagado diante daquele seu grande mar, sinto um aperto no coração. As crianças procuram fazer-lhe companhia, mas ele quase nem as percebe. Cain deveria vir aqui por algum tempo. A primavera já chegou e o jardim já está cheio de flores…

 

Classificação:

4,0

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