Corto Maltese em A Balada do Mar Salgado – L&PM

Por Luciano Guerson André
Data: 26 julho, 2004

Corto Maltese em A Balada do Mar SalgadoEditora: L&PM Editores – Edição especial

Autores: Hugo Pratt (roteiro e desenhos).

Preço: Variável, dependendo do sebo (fora de catálogo)

Número de páginas: 168

Data de lançamento: 1983

Sinopse

No final de 1913, o navio de passageiros Moça de Amsterdã naufraga no Pacífico Sul, junto à miríade de ilhotas entre a Nova Guiné e a ilha Salomão. Os únicos sobreviventes são Pandora e Cain Groovesnore, um casal de primos.

Os desafortunados náufragos acabam resgatados por um catamarã tripulado por nativos e comandado por um estranho homem branco, de longas barbas e olhar sombrio, chamado Rasputin.

Os dois não tardarão a descobrir que os problemas estão longe de findar. Seu salvador é um pirata sob as ordens do Monge, o lendário senhor da Ilha Escondida. Rasputin planeja pedir uma enorme quantia pelas vidas de Cain e Pandora às suas abastadas famílias.

Felizmente, o mesmo mar que traz perdição também pode ser o emissário da salvação, pois logo o catamarã fará outro estranho encontro com alguém à deriva. Trata-se de Corto Maltese, associado de Rasputin e do Monge, que fora abandonado para morrer por uma tripulação amotinada.

Corto é um errante sem pátria, um espírito livre que não se liga a lugares ou ideologias. Há alguns anos, seu barco havia encalhado na ilha do Monge e ele acabou se aliando à enigmática figura encapuzada. Mas mesmo entre piratas ele mantém um código de honra próprio e não admite a morte de oponentes desarmados. Essa sua atitude superior o colocará em rota de colisão com Rasputin.

O marinheiro maltês se apega aos jovens e salvaguarda-os da crueldade do capitão. Seus modos francos e rudes contrastam com a atitude aristocrática dos reféns. A atração entre os opostos Corto e Pandora ocorre de forma quase inevitável, para desagrado de Cain.

Aos poucos, se descortina o golpe idealizado pelo Monge: ele e seus asseclas pilharão navios civis para abastecer de carvão a armada alemã na região, que se prepara para a guerra iminente. Em troca, receberá ouro e o apoio de um submarino alemão.

Novos personagens adentram o drama, como Slütter, o comandante do submarino alemão que também deseja a bela Pandora; Crânio, o imediato do Monge, um nativo melanésio com idéias nacionalistas; e o jovem Tarao, um hábil navegador maore.

Assim, está armado o cenário para uma aventura aos moldes clássicos. O perigo espreita na forma de naufrágios, intrigas, tentativas de assassinato, canibais e até mesmo ataques de criaturas marinhas.

Positivo/Negativo

“Sou o Oceano Pacífico e sou o maior de todos”.

As palavras que abrem o álbum A Balada do Mar Salgado estão para os quadrinhos assim como o “Chamam-me Ismael”, de Herman Melville, está para a literatura tradicional. O romance gráfico de Hugo Pratt remonta à tradição das grandes aventuras narradas pelo autor de Moby Dick e por outros, como Robert Louis Stevenson, Jack London e Joseph Conrad.

Em comum com estes autores, o italiano Pratt demonstra uma predileção por ambientações exóticas e espaços abertos, uma relação de encanto e respeito pelas forças da natureza, especialmente o mar, que carrega em si a possibilidade de novos horizontes e de liberdade para aqueles que se atrevem a singrá-lo, mas que, ao mesmo tempo, é caprichoso e indiferente ao destino dos homens e pode facilmente ser o agente de suas mortes.

O exotismo das locações não é apenas um pano de fundo interessante para a obra. Pratt era um legítimo cidadão do mundo, que percorreu levado por uma espírito inquieto e sedento de novas experiências. Suas obras falam dos lugares e povos que visitou. Nelas é possível conhecer seus tipos, costumes, indumentárias e mitologias próprias, retratadas com um rigor que é fruto da admiração sincera. Ele também recorria a pesquisas minuciosas e lia bastante para se asseverar da verossimilhança de suas ambientações.

Ao contrário do que acontece nas obras de outros autores, os nativos de Pratt não se reduzem a estereótipos tradicionais que os rotulam de “bons selvagens” ingênuos ou no outro extremo, de bárbaros subumanos. Em Balada, Tarao e Crânio são retratados com caracterizações tão complexas quanto a dos personagens ditos civilizados.

Por falar em caracterizações, estas são outro grande diferencial para que a obra transcenda a simples qualificação de aventura escapista. Pratt se esmerou em criar personagens com uma riqueza psicológica tal, que o leitor acaba sendo envolvido por seus dramas. Eles parecem tão verdadeiros em suas nuances de comportamento, que o leitor os sente como pessoas reais, com as contradições inerentes da natureza humana e avessos aos rótulos fáceis.

A obra traz a primeira aparição de um dos personagens mais fascinantes dos quadrinhos mundiais, Corto Maltese. Bastante diferente dos heróis convencionais, tradicionais defensores da lei e da ordem, ele demonstra uma profunda aversão às autoridades e não perde a oportunidade de usar seu soberbo senso de ironia para explicitar-lhes o ridículo das suas posturas.

Comungando do ideário humanista do autor, a causa de Corto é a liberdade, tantos dos povos quanto, principalmente, do indivíduo. Pratt nunca mais abandonou sua criação mais conhecida e, ao longo dos anos, explicitou várias vezes sua postura libertária, colocando o marujo da ilha de Malta para roubar ouro para financiar o Partido Republicano de Montenegro ou lutando ao lado do IRA contra a ocupação inglesa, entre outras proezas.

Pratt chegou a cogitar a idéia de matar Corto na Guerra Civil Espanhola, conflito emblemático da luta contra a opressão, mas acabou desistindo, talvez pelo fato de que, no prefácio deBalada do Mar Salgado, seja mencionado que o personagem passou os dias de sua velhice contemplando o mar no Chile.

Místico e sedutor, Corto vivia se envolvendo com beldades exuberantes. Infelizmente, o impulsivo lobo do mar tinha a tendência de se apaixonar pelas mulheres erradas, fossem elas espiãs, assassinas ou simplesmente militantes comprometidas com uma causa. A sina do personagem seria sempre a de um solitário. Não poderia ser diferente, já que a liberdade é uma amante ciumenta.

Também os outros protagonistas são retratados com riqueza de detalhes, como Cain, que no princípio do romance tem atitudes impulsivas e imaturas frente ao perigo. As situações extremas pelas quais passa calam fundo em sua alma, levando-o a um amadurecimento forçado. Sua antipatia inicial por Corto acaba se transformando em uma mescla de rivalidade e admiração.

Rasputin, com suas atitudes amalucadas e bipolares; o pragmatismo de Crânio, que se alia aos brancos mas anseia pela liberdade de seu povo; a coragem do jovem Tarao; a nobreza trágica de Slütter, que se sacrificará por suas noções quase tolas de dever e honra; a tensão emocional entre Corto e Pandora, que vivem uma intensa relação de amor e ódio até a inevitável separação. As criaturas de Pratt dão a verdadeira dimensão dramática do romance. Muito mais do que as cenas de ação, são elas que fazem de Balada do Mar Salgadouma obra merecedora do status de clássico da nona arte.

Essa matéria-prima de alta octanagem dramática é ressaltada pela mestria de Pratt no domínio da narrativa. Ele alterna com eficiência momentos aventurescos com outros líricos e intimistas, de modo a nunca cansar o leitor. Suas composições ora ressaltam a amplitude dos espaços abertos, ora acentuam as emoções dos personagens. O onipresente mar é retratado em inúmeras panorâmicas de grande beleza.

Como artista, Pratt seguiu a linha minimalista de artista como Milton Caniff e Alex Toth. Procurando uma representação iconográfica, ele despia seus desenhos de todos elementos supérfluos para expressar o que era essencial. Utilizava com habilidade fortes contrastes de luz e sombra. Não é à toa que seu traço belíssimo seja citado como influência por artistas do calibre de Milo Manara, Guido Crepax, Joe Kubert e Frank Miller. Este último, aliás, homenageou o velho mestre batizando a república na qual se dá o conflito entre americanos e russos em Batman – O Cavaleiro das Trevas com o nome de Corto Maltese.

Um exemplo claro de sua grandeza artística pode ser visto nas últimas páginas do romance. Quando Slütter é fuzilado pelos ingleses, Corto é mostrado em close em uma janela com uma indescritível expressão vazia. Nenhuma palavra é necessária para passar toda a sensação de impotência e absurdo que o personagem está vivendo.

Deve-se levar em consideração o fato de que a estória é de 1967. Estas quase quatro décadas ressaltaram alguns exageros dramáticos do texto, como a coincidência envolvendo a identidade do monge. Afora algumas pequenas liberdades estéticas, como polvos ferozes e ostras devoradoras de homens.

Se hoje tais perigos não impressionam o leitor contemporâneo, nos anos 60 estavam em perfeita consonância com a mentalidade mais ingênua em vigor. Estes “deslizes” em nada diminuem o valor da obra. De certa forma, lhe dão até um toque nostálgico, um certo sabor de história antiga.

Hugo Pratt é um dos mais aclamados mestres dos quadrinhos mundiais. Infelizmente, no Brasil sua obra é bem pouco conhecida, já que pouquíssimo de seu trabalho foi editado no país.Balada foi publicado na década de 1980 e está fora de catálogo. Mas a mesma L&PM Editores tem dois títulos de Corto Maltese que são relativamente fáceis de se achar: Corto Maltese na Etiópia, em formato pocket e Concerto em “O” Menor para Harpa e Nitroglicerina, em formato livro.

Para aqueles que gostam de garimpar sebos, a Ebal publicou um belíssimo álbum em cores de Pratt na sua coleção Um Homem, Uma Aventura, chamado O Homem do Caribe e as editoras portuguesas Meribérica e Edições 70 editaram vários outros álbuns no idioma de Camões. Destaque para as parcerias com Milo Manara em Verão índio e O Gaúcho, e, claro, para os protagonizados por Corto Maltese.

Para terminar, só resta dizer que Hugo Pratt nasceu na mesma cidade de Rimini que foi berço de Federico Fellini, mas chamava de lar sua querida Veneza. Amou muitas mulheres, teve vários filhos e conheceu boa parte do mundo. Chegou a morar em São Paulo, onde ajudou a fundar a Escola Panamericana de Arte, mas era fascinado pela Bahia. Escreveu e desenhou muitas aventuras soberbas. Entre elas, A Balada do Mar Salgado reluz com o brilho da eternidade.

Classificação

5,0

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