Daredevil – End of days

Por Thiago Borges
Data: 13 setembro, 2013

Daredevil - End of DaysEditora: Marvel – Edição especial

Autores: Brian Michael Bendis e David Mack (roteiros), Klaus Janson, Alex Maleev, Bill Sienkiewicz e David Mack (desenhos) e Matt Hollingsworth (cores) – Originalmente em Daredevil – End of days # 1 a # 8.

Preço: US$ 39,99

Número de páginas: 216

Data de lançamento: Junho de 2013

Sinopse

Em um futuro próximo, o Demolidor e o Rei do Crime foram assassinados – mas isso é apenas o começo de um grande mistério, pois o repórter Ben Urich tem uma última história para escrever: qual era o segredo de Matt Murdock?

Ben entra de cabeça no submundo do Universo Marvel, rastreando os pecados enterrados e amores passados de Matt, para descobrir a verdade por trás de sua morte.

A investigação o conduz a encontros com os maiores inimigos do Homem Sem Medo e ainda apresenta outra questão: quem é o novo Demolidor? Quando o mistério de Murdock se revelar, a vida do jornalista nunca mais será a mesma.

Positivo/Negativo

Há quem acredite que as últimas palavras de um homem definem o que foi sua vida. No clássico do cinema Cidadão Kane, do diretor Orson Welles, o jornalista incumbido de desvendar o significado dos derradeiros sussurros do magnata das comunicações Charles Foster Kane é uma dessas pessoas.

Todo o enredo do filme – um dos mais influentes, artisticamente falando, da História – se constrói na busca pela resolução do mistério: o que é rosebud, expressão dita pelo velho Kane antes de morrer?

Brian Michael Bendis deve ter o longa-metragem como obra de cabeceira, já que Daredevil – End of days se apropria da mesma estrutura narrativa: Matt Murdock, o Demolidor, é assassinado pelo vilão Mercenário tão logo começa a minissérie em oito capítulos. Antes, porém, balbucia algo aparentemente sem importância: mapone.

A partir daí, tem início a investigação por parte do repórter Ben Urich para entender o sentido dessa palavra.

A ideia de contar a “última história do Demolidor” era discutida por editores da Marvel desde 2007. À época, o roteiro de Bendis, escrito em parceria com o artista David Mack, já existia em quase sua totalidade. Juntaram-se ao projeto, posteriormente, um time invejável de desenhistas, todos com passagens marcantes pelo personagem: Alex Maleev, Bill Sienkiewicz e Klaus Janson.

Importante ressaltar que o sucesso de uma obra como esta – espécie de ode a toda a jornada de um personagem, bastante semelhante à proposta de O que aconteceu com o Homem do Amanhã?, de Alan Moore e Curt Swan, por exemplo – depende, e muito, da familiaridade da equipe criativa com o tema.

Nesse caso, todos os envolvidos na minissérie fazem parte do cânone de artistas que já trabalharam com o herói – faltou Frank Miller, o autor definitivo do Homem Sem Medo, mas ele não demonstra interesse algum em quadrinhos há tempos.

O longo hiato entre a concepção e o lançamento da obra, cuja primeira edição foi publicada somente em outubro de 2012, em nada afetou a qualidade do título. End of days entra automaticamente na lista de clássicos contemporâneos das HQs.

O maior mérito do título é abdicar da necessidade de mostrar o Demolidor e, mesmo assim, contar uma história profunda sobre a sua vida. À exceção das páginas iniciais do primeiro capítulo, ele aparece em esporádicos flashbacks revividos por pessoas de sua convivência. Todo o enigma por trás de mapone importa menos do que o legado deixado pelo advogado cego à população da Cozinha do Inferno.

Não que a investigação em si seja desimportante. A partir dela, Ben Urich constrói um fascinante painel que mostra quem foi Matt Murdock. Ao indagar companheiros, amores e inimigos do herói sobre seus últimos dias, o repórter, assim como o leitor, vê-se envolto por um complexo quebra-cabeças formado por percepções pessoais nem sempre confiáveis ou objetivas, às vezes carregadas de emoção ou frias e distantes. Elektra, Mercenário, Rei do Crime, Tucão, Homem-Púrpura, Coruja, Gladiador, Justiceiro: a lista dos presentes é enorme.

O tom noir, detetivesco, impõe-se durante toda a trama, apoiado pela arte dura, suja, de Janson. O suspense é criado lentamente, baseado em aparições inesperadas, pequenos gestos, olhares e hesitações. A tensão se faz presente em cada encontro, em cada viela mal iluminada.

Poucas são as sequências de ação neste roteiro focado no diálogo, no qual o silêncio pode significar mais do que palavras e a dissimulação é uma constante. Isso não significa que o enredo não ande para a frente. Muito pelo contrário: a história sempre oferece novas e surpreendentes informações, como o surgimento de um novo Demolidor.

A Nova York retratada também está cheia de detalhes que podem passar despercebidos, com observações curiosas sobre o futuro próximo. A polícia vigia de forma insistente seus cidadãos; a mídia impressa, incluindo o Clarim Diário, está à beira do fim; super-heróis são cada vez mais individualistas: o mundo, definitivamente, não se transforma em um lugar melhor. Para histórias urbanas como esta, Bendis dificilmente erra a mão.

O projeto de End of days, desde o início, levava em conta a importância da arte para o storytelling, o modo de contar a história. O resultado final é exemplar no sentido de combinar estilos diferentes e, às vezes, até conflitantes, de desenho.

Janson, o artista principal, oferece um trabalho que, se não impressiona à primeira vista, desenvolve a trama com eficácia – por exemplo, utilizando sequências de 12 ou mais quadros em páginas duplas envolvendo a busca de Urich pela verdade.

Graças à arte-final com traços fortes feita por Sienkiewicz, esses desenhos ganham um sentido de urgência e aridez que casam perfeitamente com o roteiro.

Pontualmente, magníficas artes de página inteira ou dupla, feitas por Mack, Maleev (o capista da minissérie) e Sienkiewicz, pausam a trama. Nesses momentos, é como se a lembrança dos coadjuvantes a respeito do finado Murdock se materializasse no papel. Sem dúvida, uma das mais inventivas formas de se criar um flashback.

Não é raro nos quadrinhos, mais do que em qualquer outro tipo de mídia, encontrar obras que começam de forma magistral e decepcionam no fim. End of days não ficará marcada apenas por conter um desenvolvimento exemplar, juntando elementos encontrados ao longo dos quase 50 anos do Demolidor em uma história coesa, mas, também, por apresentar uma conclusão de, literalmente, tirar o fôlego.

A página final é tão emblemática e significativa quanto o último movimento de câmera de Cidadão Kane. Com End of days, o demônio pode descansar: ganhou um epitáfio à altura.

A edição que compila toda a minissérie, lançada recentemente pela Marvel, é luxuosa: em tamanho maior que o formato americano original, possui capa dura e diversos extras, incluindo capas variantes, esboços, estudos de personagens e comentários dos autores.

Classificação

5,0

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