Demolidor – O Rei da Cozinha do Inferno

Por Audaci Junior
Data: 14 outubro, 2016

Demolidor – O Rei da Cozinha do InfernoEditora: Panini Comics – Série em quatro volumes

Autores: Brian Michael Bendis (roteiro), Alex Maleev e Matt Hollingsworth (cores) – Originalmente em Daredevil (2001-3) # 41 a # 50 e # 56 a # 60 (tradução de Marcelo Soares e Fernando Lopes).

Preço: R$ 99,00

Número de páginas: 352

Data de lançamento: Agosto de 2016

Sinopse

A manchete “Herói mascarado da Cozinha do Inferno é advogado cego” estampa a primeira página dos jornais de Nova York, nos Estados Unidos, e o segredo mais obscuro de Matt Murdock vem à tona.

Exposto ao público, o alter ego do Demolidor trava uma batalha legal contra o veículo responsável pela bombástica revelação, ao mesmo tempo em que o Escritório de Advocacia Nelson & Murdock se torna o alvo perfeito, dentro e fora dos tribunais, para todos os vilões e patifes que já cruzaram o caminho do Homem sem Medo.

Some isso ao vácuo de poder gerado pela ausência do Rei do Crime, e a Cozinha do Inferno está em ponto de ebulição. Ataques e problemas chegam por todos os lados: é um novo tabuleiro urbano que se apresenta para Matt Murdock, que terá de adotar uma nova e ousada postura para lidar com o submundo nova-iorquino.

Positivo/Negativo

Toda a estrutura moldada neste volume – que continua movendo as engrenagens lubrificadas pelos diálogos precisos de Brian Michael Bendis e a arte fotográfica de Alex Maleev – é construída pelo bairro nova-iorquino da Cozinha do Inferno, localizado em Manhattan, perto do Rio Hudson, local também conhecido como Midtown West ou Clinton.

Diferentemente da DC Comics, cuja alusão à cidade de Nova York reside nas fictícias Metrópolis e Gotham City, a Marvel praticamente monopoliza seus super-heróis pelos arranha-céus da “Grande Maçã”, espelhada na nossa realidade.

Ao longo da trama, na qual o Demolidor ainda lida com as consequências de ter sua identidade secreta revelada nos tabloides, muito do lugar é evidenciado na retórica bem articulada de Bendis.

Logo no começo, o leitor é apresentado a Milla Donovan, o novo interesse amoroso na (sempre trágica) vida de Matt Murdock. Ela tem dois fatores em comum com o protagonista: é privada da visão e também se importa com o local, trabalhando na Comissão de Habitação do bairro.

Para se ter uma ideia de como é tão enraizado e evidente esse conceito geográfico, em determinado momento, a apaixonada Milla confessa que Murdock a definiu como “a cidade inteira em uma só mulher”.

Há, inclusive, um bate-papo sobre a origem do nome Cozinha do Inferno, remetendo às gangues do Século 19, tema presente também no famoso filme dirigido por Martin Scorsese, Gangues de Nova York (2002), mas passado em outra área de Manhattan, conhecida como Cinco Pontas. Dentre as reflexões, também é delimitado um paralelo crítico entre as intenções desses grupos ontem e hoje.

Mais uma lição de História é pontuada pelo jornalista investigativo Ben Urich, importante coadjuvante na mitologia do super-herói, explicando como a economia local dependia do crime organizado desde a proibição de bebidas alcoólicas durante a Lei Seca, nos anos 1920, passando pela “jogatina de pobres” utilizando centavos e o mercado dos narcóticos.

Por falar em drogas, há uma nova circulando nas ruas, baseada no hormônio de crescimento mutante, cortesia de um dos mais antigos inimigos do Demolidor, Leland Owlsley, mais conhecido como o Coruja. O vilão tenta preencher o espaço deixado pelo Rei do Crime, Wilson Fisk, quando foi traído e quase morto no primeiro volume.

Interessante notar como Bendis deixa pouco à vontade o esquentado Coruja nessa nova função, orientado por ex-advogados de Fisk. O escritor aproveita também outro inimigo do Demolidor do segundo escalão, o Metaloide, para responder algumas perguntas que ficaram soltas, como a não investida massiva dos criminosos sobre o seu alter ego. Essa passagem chega a ser uma quebra de tensão na rigidez dramática.

Outra vilã que retorna para atazanar a vida do Homem sem Medo é a amalucada Mary Tyfoid, personagem criada nos anos 1980 (quem lia Superaventuras Marvel da Abril?), por Ann Nocenti e John Romita Jr.

Sua “ausência” é justificada por um tratamento à base de hipnose, no qual ela bloqueava todas as suas múltiplas personalidades para viver tranquilamente como atriz de telenovela.

No começo do capítulo de sua reapresentação ao leitor, ela está em ação nas gravações. Pode-se notar que o trabalho de Maleev (com o colorista Matt Hollingsworth) é mais “iluminado” e limpo, mimetizando a estética asséptica e estilizada das obras televisivas.

O artista búlgaro tem o domínio exato de seus desenhos que usam efeitos fotográficos e digitais para ajudar no avanço das falas de Bendis. De maneira funcional, bonita e discreta, ele imprime uma narrativa cinematográfica e sem evidenciar o uso inteligente de um elemento em várias cenas. As imagens são afastadas, aproximadas ou destacadas para dar ritmo e dinâmica aos numerosos momentos de diálogos.

Aproveitando a época (o material foi originalmente lançado em 2003) do catastrófico longa-metragem homônimo do super-herói cego – dirigido por, com o perdão do trocadilho, um diretor sem visão (Mark Steven Johnson, o mesmo de outra bomba, Motoqueiro Fantasma) e protagonizado por um desnorteado Ben “agora Batman” Affleck –, a HQ conta ainda com a participação do mortal Mercenário.

Por causa do merchandising do filme, o vilão é apresentado com o símbolo de alvo que remete ao seu nome original (Bullseye – “Na mosca”, em tradução livre) talhado na testa, assim como sua contraparte nas telonas, interpretado pelo canastrão Colin Farrell.

Tudo indica que foi um “às na manga” para conquistar a atenção e simpatia do leitor novato que eventualmente assistiu ao filme. Talvez o impacto maior seja ler diálogos tão bem trabalhados frente aos canhestros da produção hollywoodiana. A atitude do Demolidor sobre o visual do personagem diz tudo que o Brian Michael Bendis acha sobre o assunto, vale conferir.

Não obstante sua “nova cara”, os leitores veteranos estranharão a falta de habilidade do apático Mercenário no embate com seu inimigo. Essa versão está longe de ser o vilão que sai no braço em pé de igualdade e já deu muita dor de cabeça para o Demolidor.

O roteirista, que apresenta destreza e facilidade de contornar personalidades, faz com que sua participação seja deslocada, apesar de desencadear um ponto vital das lembranças do herói cujas consequências acontecerão nas páginas à frente.

Essa “prensa” do vilão na trama tem uma explicação nos bastidores, digna de revistas de fofocas: de acordo com o site CBR, o personagem foi barrado pelo editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, porque ele fez um acordo anterior com o roteirista e cineasta Kevin Smith para usá-lo em uma nova minissérie.

Autor de um arco vital para a fase de Bendis, O Diabo da Guarda (lançado por aqui pela Abril na revista mix Marvel 2000 e posteriormente em encadernados da Panini e da Salvat), Smith é conhecido no meio pelos seus atrasos oriundos de seus compromissos cinematográficos. Nesse período, ele estava envolvido na produção da comédia dramática Menina dos Olhos (curiosamente estrelada pelo amigo Ben Affleck).

Tanto que Daredevil/Bullseye: The Target (com arte de Glenn Fabry, capista de Preacher) só teve publicado até hoje o número de estreia e foi abortado pela editora. Em virtude da longa demora de uma segunda edição da minissérie, depois de todo mal-estar, Quesada deu sinal verde para que o Mercenário fosse usado no título do Demolidor.

Além da galeria de vilões – adiciona-se um furtivo Rei do Crime e a Yakuza em massa – vale observar como Bendis trabalha bem a voz de cada personagem que está ao lado do protagonista na trama.

Até mesmo em pequenas participações “à paisana”, como o Senhor Fantástico, o (monossilábico) Doutor Estranho e o (sempre cômico, mesmo falando sério) Homem-Aranha, percebe-se bem as personalidades e esquece-se o deslize que ocorreu com o Mercenário.

Com esses heróis no coro dissuasório sobre as intenções de Murdock está o “herói de aluguel” Luke Cage, destaque que aprofunda (de novo) um discurso sobre o território nova-iorquino do Demolidor. Como lados de uma mesma moeda, as diferenças, ideais, críticas e argumentos persuasivos são travados, conduzindo o leitor a analisar quem está com a razão.

Neste encadernado, as edições originais de Daredevil “pulam” uma sequência dos números # 41 a # 50 para os números # 56 a # 60. A intenção foi colocar um arco protagonizado pela heroína surda Eco, produzido pelo seu criador, David Mack, com objetivo de oferecer mais folga à dupla de criadores e não correr riscos de atrasos.

Intitulada Echo – Vision Quest, essa HQ solo (inédita no Brasil) também não faz parte dos encadernados gringos, sendo lançada individualmente lá fora por não ter nenhuma ligação com essa fase do Demolidor.

A estratégia de “encaixar” (ou seria “imprensar”?) esse arco casa com o momento-chave ocorrido em Daredevil # 50, um número comemorativo que conta com mais páginas que o habitual e com artes adicionais de convidados como Gene Colan, Lee Weeks, Klaus Janson, John Romita Sr., Mike Avon Oeming, Joe Quesada e David Mack.

Conscientemente, Bendis promove um salto cronológico e justifica atitudes e dúvidas por meio das tragédias e fatalidades ocorridas antes na vida de Matt Murdock. O autor se valerá de uma enfermidade que também estaria presente meses mais tarde na saga Vingadores – A Queda.

Voltando ao novo interesse amoroso do Demolidor, um ponto que pode ser encarado (ou não) como negativo é a “cegueira” platônica de Milla Donovan por Murdock. Mesmo mostrando temeridade sobre a avalanche de situações extremamente perigosas envolvendo o FBI, mafiosos e assassinos lunáticos, a personagem não titubeia em levar esse relacionamento para frente. Realmente, o Homem sem Medo encontrou seu par.

Assim como o álbum anterior, a edição do selo Marvel Deluxe da Panini apresenta capa dura com aplique de verniz, papel couché de boa gramatura e excelente impressão, um prefácio assinado pelo editor no Brasil, Paulo França, e uma galeria das capas originais do título.

O leitor mais atento notará a ausência da capa do número # 45, mas ela está parcialmente retratada na quarta capa do encadernado.

Classificação

4,5

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• Outros artigos escritos por

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  • Vipo Free

    Espero que a panini publique mais 2 encadernados para terminar a fase bendis e depois publique ate pelo menos o demonio no pavilhão d que é excelente.

    • Moroni Machado

      Só falta mais um encadernado para terminar do Bendis

    • Silvio César

      Não! Tem que ser a fase do Brubaker que é ótima, também!

  • Pablo Leite

    Essa fase do Bendis é espetacular. Clássico! tomara que republiquem a fase do Brubaker também.

    • Rodolfo Gasparetto Manzoli

      Nos EUA, a fase do Brubaker foi lançada em 3 encadernados, assim como a do Bendis. Penso que, a partir de 2018, possa ser lançada, já que ainda tem mais um volume do Bendis pra sair.

  • Homem Simpson

    “os leitores veteranos estranharão a falta de habilidade do apático Mercenário no embate com seu inimigo. Essa versão está longe de ser o vilão que sai no braço em pé de igualdade e já deu muita dor de cabeça para o Demolidor.”

    Nã-na-ni-na-não! Quem é verdadeiramente veterano já está careca de saber que as inconstâncias nas habilidades do Mercenário foram estabelecidas desde quando Frank Miller era o roteirista principal do título nos EUA. Taí o 2º volume de “Demolidor, de Frank Miller & Klaus Janson” da Panini, que não me deixa mentir!

    • Audaci Junior

      Caríssimo, questão de ponto de vista. A luta poderia render muito mais em relação aos embates anteriores (inclusive nos de Miller, afinal, o Mercenário matou a ninja Elektra). O vilão foi usado apenas como “gatilho” pro surto do protagonista quando ele rememora suas falhas para com as mulheres que passaram por sua vida. Para mim, muito mal aproveitado. Mas agradeço a sua opinião e, com certeza, há quem também ache isso, independente de ser “verdadeiramente veterano”. Viva a diversidade! Abraços!

      • Homem Simpson

        Não se trata de “achismo” quando há fatos que sustentam o que foi dito acima. Está lá, preto no branco, para quem quiser conferir. ;)
        E o seu argumento, baseou-se em algum, ou só na questão de “ponto de vista” mesmo?

        • Audaci Junior

          “Achismo” é apenas questão de semântica. Meu ponto de vista é o que leio, interpreto e absorvo, entende? O embate de Bendis é patético com relação aos outros. Mesmo sendo um cara insano ou inconstante, o Mercenário é extremamente perigoso e mortal pelas suas habilidades. O que vemos é uma sombra do personagem explorado muito bem pelo Frank Miller ou Kevin Smith. A facilidade na qual o Demolidor o humilha neste volume era como se ele batesse no Metalóide ou vilão do gênero. Ele matou dois grandes amores do herói. Nem o Rei fez isso. Ele sempre perdeu num confronto com o protagonista, lógico, mas nunca assim. Releia essa parte na HQ e analise pra ver como soa forçado (o que não é “culpa direta” de Bendis, em virtude das dificuldades que pesquisei e sinalizei aqui). É isso. Obrigado pela discussão e pela leitura. Novamente um grande abraço!

  • Don Ramon

    Que preço salgado… :-/

  • Audaci Junior

    Entendo e respeito os seus pontos colocados aqui, mas isso aqui é uma resenha e, sendo assim, tem os valores ensaístico e pessoal que podem ser “aprovados” ou “desaprovados” pelo leitor. A recensão crítica é um texto jornalístico de informação E opinião.

    Acho injusto você julgar que não gosto do argumento de Bendis só porque manifestei um ponto negativo em todo um contexto em que dei uma “nota” altíssima ou destaquei muitos outros pontos positivos. Ter uma opinião não enfraquece resenhas, faz parte delas. Você pode afirmar que Miller “deixou claro” tal aspecto do personagem e isso é uma interpretação sua. Parabéns! Mas os seus argumentos não me persuadiram. Mesmo assim, reforço que tenho respeito por eles e acho válidos para quem concorde com ele.

    Há quem assine embaixo e há quem não, como também há quem concorde com alguns pontos e há quem discorde de outros, SEMPRE.

    Como diz o renomado estudioso André Bazin, crítica não é para trazer “a” verdade numa bandeja de prata. Eu estou aqui para dar a minha opinião (pode ter a certeza disso!), ser coerente e interpretar com a minha bagagem e ajudar os leitores a ter sua própria opinião (mesmo que eles NÃO CONCORDEM comigo)…

    Encerrando a minha participação por aqui nesta discussão, muito obrigado pela sua opinião novamente e vida que segue!