DESISTÊNCIA DO AZUL

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2012

DESISTÊNCIA DO AZUL

Editora: (Zarabatana) – Edição especial

Autor: L.M. Melite (texto e arte).

Preço: R$ 55,00

Número de páginas: 256

Data de lançamento: Outubro de 2012

Sinopse

Em busca de suas raízes, ou de algo que ainda vai se definir, o pequeno Lucius Tundra protagoniza um fluxo de consciência repleto de encontros e descobertas.

Positivo/Negativo

Não é todo dia que aparece uma história em quadrinhos como Desistência do azul. É complicado defini-la, explicá-la. É uma narrativa limítrofe, ousada, que arrisca, que experimenta.

Para um comentarista, que se vê obrigado a cercá-la de definições e conceitos em uma resenha de poucos parágrafos, é um trabalho frustrante. Não há grandes chances de sucesso. Idealmente, seria melhor dizer: “Confia em mim, vai lá e entra na história”. Mas não é assim que as coisas funcionam. (E vale confessar que há algum prazer no desafio paradoxal de definir e avaliar o álbum sem criar barreiras e limites.)

Logo no começo, o leitor vê um feto que se arrebenta no chão ao nascer. Está claramente sozinho. É uma imagem doída. Ao virar a página, sabe-se que aquele feto é Lucius Tundra, que aparece já criança. E que o que se lerá são as suas memórias.

Eis, portanto, mais uma pista: a narrativa é uma memória. E as memórias são dissimuladas, etéreas, fluem na mente. Se são as memórias de Lucius que se verá, e não sua história, então não é o caso de se esperar linearidade. De fato, haverá diálogos, personagens e cenas até o final da história. Mas tudo tem uma pegada mnemônica.

Parece um caso – raro – de fluxo de consciência em quadrinhos.

É um conceito que se pega emprestado da literatura para falar de um recurso narrativo em que se tenta forjar os pensamentos desorganizados que passam pela mente. Claro que é uma simulação: narrativa alguma consegue representar o inconsciente.

Mas, ao público, deve ficar a impressão de que se trata de algo que está na mente, e não no, digamos, plano material da narrativa. É o que se vê, na literatura, em obras de autores como Gerard de Nerval, James Joyce, Clarice Lispector e Virgina Woolf. No cinema, encontra-se em filmes de David Lynch, por exemplo. Nos quadrinhos, um dos exemplos mais famosos é o livro de Daniel Clowes Como uma luva moldada em ferro.

Ao citar outras formas de expressão, é importante pontuar mais uma característica importante do trabalho de Melite: Desistência do azul é inexoravelmente uma HQ. Usa recursos próprios da narrativa de quadrinhos. A condução do quadro a quadro, a metalinguagem e a passagem do tempo são feitos levando-se em conta os códigos da arte sequencial. Isso significa que não seria possível adaptar a obra para um filme ou um romance sem fazer alterações substanciais na condução da trama.

Tudo isso fica ainda mais impressionante quando se leva em conta que o álbum tem mais de 250 páginas. É uma envergadura rara de se ver nos quadrinhos brasileiros. (Ainda mais de trabalhos financiados pelo ProAC, um programa do governo do estado de São Paulo que determina prazo de publicação para seus escolhidos.)

Mesmo com tantas páginas, é um trabalho consistente e coeso, especialmente quando se leva em conta que é uma narrativa que tem uma licença toda especial para o autor cometer inconsistências – e até mesmo depende delas. O desenho expressivo e econômico (a maior parte em preto e branco) ajuda nessa condução, que é bem feita, ainda que por vezes incômoda – de novo, por natureza.

Desistência do azul é o primeiro livro de L.M. Melite, mas não é uma estreia qualquer. Não só está entre as melhores crias do Proac, mas também se insere no rol dos quadrinhos brasileiros recentes que mais merecem atenção.

Classificação:

4,0

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