DO INFERNO # 1

Por Diego Calazans
Data: 1 dezembro, 2004


Autores: Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte).

Preço: R$ 42,00

Número de páginas: 192

Data de lançamento: 2000

Sinopse: 1888. Outono. Londres. Prostitutas são abatidas e evisceradas
pelo primeiro serial killer da História, a quem a Imprensa apelidou
de “Jack, o Estripador”.

Positivo/Negativo: Por favor, acomode-se firmemente. Vamos entrar
agora na Inglaterra Vitoriana, porção paradoxal da existência, escolhida
por Jack e Alan para cenário de complexos artifícios.

Do Inferno. Drama em 16 capítulos. Quatro volumes. Quase 600 páginas
ao todo. Cem só de anotações referentes (os ditos “apêndices”). Preto-e-branco
em fabulosos “garranchos gráficos” do mui gentil sr. Campbell, imiscuindo-se
à significativa complexidade da trama tecida por nosso hirsuto Cavalheiro
do Caos, Sir Alan Moore.

Agora…

Se fizer a fineza de olhar pela janela do coche, à sua esquerda, será
arrebatado pelo magnetismo arcano das edificações monumentais de West
End, onde o Sol de Deus fez sua morada e ilustres súditos da viúva Vitória
reúnem-se em salões secretos para o xadrez político.

Com sorte, pode-se vislumbrar algum proeminente membro da Corte. É uma
época interessante esta, para todas as artes, mesmo as secretas. Eis a
capital do mundo civilizado, onde o dia nunca cessa, onde não há crepúsculos.

Rogo-lhe, portanto, que guarde consigo esse esplendor e ignore os deprimentes
rabiscos sociais à sua direita, como se ignora um insistente comichão
à mesa durante um jantar importante. Há belezas em Londres que ofuscam,
por certo, essas tristes habitações a que os refugos do excelso Império
Britânico vêm para um trago ou cama desfeita.

Este lugar é East End. As senhoras mais fervorosas devem ser avisadas
de que passamos agora por um dos maiores bairros judeus do mundo. Ali
adiante está o lugar a que chamam “Travessa do Gamo”, onde foi encontrado
o corpo de Polly Nicholls, a primeira vítima do famigerado “estripador”.

O primeiro volume da magnífica obra de Moore e Campbell relata os acontecimentos
que culminaram nessa primeira morte, quando um cidadão de aura solar avançou
contra súditas da lua, para humilhá-la.

Constitui-se de um curioso prólogo (em que o leitor fica a par de uma
conversa futura do Inspetor Abberline – responsável por descobrir a identidade
do assassino em série – e o sensitivo preferido da Rainha Vitória, que
se confessa um charlatão, apesar de todas as suas previsões terem sido
acertadas), além de cinco capítulos, de tamanhos diversos.

Nas aproximadamente 160 páginas de quadrinhos desta edição o leitor é
guiado ao interior de uma surpreendente teoria do senhor Moore acerca
dos acontecimentos daquele fatídico ano. É, sem dúvida, uma das mais elaboradas
(e plausíveis) teorias conspiratórias já sugeridas por alguém.

Depois de estudar com bastante afinco diversos livros referentes aos crimes
e à época (o que faz de Do Inferno, segundo os acadêmicos ingleses,
a mais conceituada das publicações sobre Jack, a despeito de se tratar
de uma obra ficcional – e em quadrinhos, ainda mais), Alan Moore formulou
os princípios que o levariam a essa primorosa reconstituição. De acordo
com o autor, os eventos que culminaram no terrível incidente daquele outono
envolvem tanto questões políticas quanto de natureza ocultista.

A existência de uma criança bastarda, filha do Príncipe Eddie (neto de
Vitória) com uma plebéia com a qual se casara em segredo, muito amiga
de uma das futuras vítimas do “estripador”, acarreta em uma chantagem
impertinente que sentencia as mulheres que a organizaram à morte nas mãos
de uma confiável figura do Império, indicada para esse fim pela Maçonaria
(instituição da qual a própria rainha faz parte). Mas acontece que essa
curiosa criatura acredita estar imbuída de uma missão ainda maior, de
caráter divino.

Como lhe é peculiar, Alan Moore deixa a trama ainda mais complexa, de
tal forma que parte de diversos pontos de vista e princípios em voga,
como o do folheto O que é a Quarta Dimensão?, mesclando a arquitetura
neopagã de Hawskmoor aos proféticos versos do excepcional William Blake,
valendo-se ainda duma atribuída semelhança de John Merrick (o Homem
Elefante
) à divindade hindu Ganesha, além de inúmeras questões da
época, para formar um quadro magnânimo e perturbador da vida londrina
em todas as dimensões, da mais óbvia à mais oculta.

Seu trabalho com detalhes é assombroso. Desde o uso de uvas com láudano
para dopar as vítimas ao gênero de instrumentos cortantes usados por Jack,
nada escapa à percepção do autor.

São cinco capítulos formidáveis (sem contar o prólogo). O quarto, porém,
excede todas as expectativas. O próprio estripador dá uma inesquecível
e atordoante lição de ocultismo, por meio das obras do arquiteto Hawskmoor,
do poeta William Blake, das mitologias clássicas, da Bíblia, além de alguns
tratados à parte e da disposição única de pontos especiais de Londres,
formando linhas de força em forma de pentagrama. Prato cheio para almas
suscetíveis.

A arte de Eddie Campbell traz uma força e uma tal profundidade que é impossível
conceber Do Inferno feito por outra pessoa. É um tracejado por
vezes confuso (a uma leitura superficial, como o é o texto), em que mais
se oculta que se mostra, em que abismos são formados em locais inusitados,
em que os traços vão ficando cada vez mais simples até reduzir toda a
dramaticidade a meras linhas, abstraindo, abstraindo, abstraindo, como
que despindo, desnudando a essência, das grossas camadas cosméticas das
lúdicas relações cotidianas, até atingir, quiçá, uma verdade primordial,
a reduzir emaranhados de gestos a mínimos padrões formais… ao ponto,
à linha, à mancha… a além das conjecturas.

É um trabalho de descoberta, condizente tanto com o texto de seu sócio
quanto com o espírito da época, quando os artistas começavam a conceber
o abstracionismo, que viria a ser a cara do século XX nas artes plásticas
(que culminaria em Pollock, o artista de seu século – verdadeiro Jackson,
filho de Jack). Não é só o “estripador” de Alan Moore que pare o século
XX, mas também a Londres de Eddie Campbell.

As quase 30 páginas de apêndice deste primeiro volume trazem inúmeras
considerações de Moore sobre os incomensuráveis detalhes de sua obra.
Interminavelmente fabulosas, suas anotações não só apresentam os livros
estudados e os temas abordados como os discutem, provocando no leitor
ao menos uma leve curiosidade, que pode vir a formar, quem sabe, um desejo
de se aprofundar.

Sem esses textos, a leitura de Do Inferno, por certo, seria bem
superficial para todos aqueles que não são experts em Inglaterra
Vitoriana, como nosso caro amigo britânico.

A edição da Via Lettera está primorosa. O preço não deve agradar
a maioria (até aí tudo bem, porque o conteúdo também não). No entanto,
em algumas lojas, aparentemente, ganharão bons descontos os que questionarem
“Ninguém ajudará o filho da viúva?”. Quer saber por quê?

Então, aguarde as próximas resenhas, quando se descerá ainda mais fundo
nesta obra, rumo às profundas trilhas da alma, aos becos londrinos onde
prostitutas ludibriam clientes brutos. Mais fundo no Inferno de Jack,
Eddie e Alan.

Classificação:

4,0

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