ENCRUZILHADA

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2011

ENCRUZILHADA

Editora: Leya / Barba Negra – Edição especial

Autor: Marcelo d’Salete (texto e arte).

Preço: R$ 29,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Agosto de 2011

 

Sinopse

Em cinco histórias, Marcelo d’Salete explora personagens que vivem à margem da sociedade.

Positivo/Negativo

Há vários logotipos espalhados pelas páginas de Encruzilhada. Alguns são verdadeiros, de marcas conhecidas, como Motorola, McDonald’s, Adidas e Carrefour. Outros estão cortados, não dá pra ter certeza. Uns ainda parecem criados pelo autor – como as fachadas de lojas com siglas indecifráveis de três letras (MDM, JMN…).

Mas os personagens deste álbum estão longe de ter acesso livre a todos os produtos e serviços que estampam suas marcas na história. Pelo contrário: vivem num mundo marginal. O celular é pré-pago. O DVD é pirata. O carro caro comprado com esforço é tido como roubado. Há seguranças e garçons controlando para que essas pessoas ocupem seus devidos lugares. Às vezes, se tornam vítimas sem terem culpa de nada – apenas porque são eles que precisam provar sua própria inocência, que não é presumida.

Pela descrição, pode até passar a impressão de que se trata de um mundo distópico – uma versão nacional de O Cavaleiro das Trevas ou Ronin. Mas não é nada disso. Pelo contrário: as histórias de Encruzilhada se passam no Brasil mesmo. Especificamente em São Paulo, terra do seu autor. E falam de uma gente excluída de uma sociedade de consumo cada vez mais poderosa e opressora.

É uma temática e tanto. Num momento histórico, em que os índices de consumo no Brasil chegam a níveis nunca antes alcançados, em que grandes corporações globais depositam suas esperanças no consumidor nacional, d’Salete explora o outro lado da história. Mostra que existe opressão. Que tem gente que, por mais que o País se desenvolva, ainda não recebeu convite para a festa.

E é aí que a barra pesa: há vigilantes preparados para não aceitar quem não ganhou convite, mesmo que eles mesmos sejam marginais e oprimidos. (“Não pode tirar o chapéu. Não pode ficar parado. Esse trampo é assim mesmo”, diz um guarda pro outro, logo na terceira página.)

O cenário é local, mas o tema é global. E atual, quando se lembra dos saques em Londres há poucos dias, avaliados por diversos pesquisadores como um reflexo dessa mesma sociedade de consumo. Encruzilhada levou três anos para ficar pronto, o autor revela. Mas saiu na hora certa. O resultado é muito verdadeiro, sincero e urgente.

É isso que faz o álbum ser tão poderoso. Mas não só.

Depois do competente Noite luz (Via Lettera), não dava pra dizer que Marcelo d’Salete era um autor fora do radar. Mesmo assim, Encruzilhada é uma imensa surpresa.

A qualidade de seu trabalho deu um salto impressionante. A arte é suja, agressiva, manchada, escura. O traço já é a primeira resposta à sociedade de consumo, em que tudo deve ser limpo, iluminado, brilhante como uma tela da Apple. É uma reação estética que lembra a do realismo italiano no cinema, em que se criou beleza a partir do que até então era feiura.

Traçando um paralelo com a arte de rua, o traço de d’Salete está mais para pichação do que para graffiti – uma leitura que o próprio traçado do título do álbum, na capa, ajuda a fazer. Beira o ilegível de um tag de pichador.

Aliás, assim como estampam marcas do mundo globalizado, os muros das histórias estão cheios dessas tags de pichadores. Vale prestar atenção.

A própria narrativa também é soberba e provocadora: entrecortada, brusca, com enquadramentos nada lineares. É preciso que o leitor se deixe perder e levar pelo fluxo, que se entregue, para então entrar nas histórias.

Certamente por saber o nível do material que tinha em mãos, a Leya / Barba Negra preparou um tratamento gráfico de primeira para o álbum, e que merece ser citado como um mérito extra desta edição. O resultado é, ao mesmo tempo, simples e excepcional. Capa em papel Eco Kraft, impressa em preto com acabamento em branco por cima do bege papel. Miolo em off-set – que não tem nada de especial, exceto pelo projeto gráfico que prevê predominância do preto, inclusive nas margens das páginas.

Encruzilhada é um grande álbum quando analisado parte a parte, mas o conjunto da obra de uma maturidade impressionante. Desde já, d’Salete fez não só um dos melhores álbuns dos últimos tempos, mas também um dos mais importantes.

Classificação:

4,0

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