EU SOU LEGIÃO

Por Eduardo Nasi
Data: 19 outubro, 2009


Autores: Fabien Nury (texto), John Cassaday (arte), Laura Depuy (cores), Pedro Bouça e Levi Trindade (tradução e adaptação). Publicado originalmente na série em três álbuns Je Suis Légion.

Preço: R$ 49,00

Número de páginas: 176

Data de lançamento: Julho de 2009

Sinopse: Europa, 1942, tempos de Segunda Guerra Mundial. Um ritual de sangue acaba com a morte de Victor Thorpe. O crime se torna um mistério para a inteligência dos Aliados.

Enquanto isso, na Transilvânia Romena, uma garota capaz de controlar outros seres vivos à distância está prestes a se transformar na mais poderosa arma dos nazistas.

Positivo/Negativo: Eu sou legião é uma história de vampiros que se passa na Segunda Guerra Mundial – dois temas recorrentes em best-sellers e campeões de bilheteria.

Seu desenhista é o espetacular John Cassaday, conhecido dos leitores de Planetary e X-Men – com cores da ótima Laura Depuy.

Do mesmo quilate, o roteirista Fabien Nury é celebrado por causa de trabalhos como WEST e está na lista da revista DBD entre os maiores nomes da sexta onda dos quadrinhos franco-belgas.

O resultado desse encontro é uma das melhores HQs lançadas no Brasil em 2009 – num volume único, em capa dura, que reúne as três edições originais.

Eu sou legião é, acima de tudo, uma trama madura, muito bem construída, que vai crescendo enquanto se desenvolve – e o primeiro capítulo, mais lento, dá uma base sólida para os dois seguintes, absolutamente empolgantes.

Mesmo lidando com vampiros e Segunda Guerra, temas que podem descambar facilmente pros clichês, Nury e Cassaday conseguem manter a originalidade e o frescor, sem perder em momento algum o apelo pop da história.

A forma como o vampirismo é apresentado é surpreendente. A jovem Ana – uma menina com olhos pretos grandes – se revela uma aberração que pode levar os nazistas a vencer a guerra. Mas ela é uma menina. E se outras garotas-monstro da ficção costumam se rebelar contra a aberração que vive dentro delas, Ana parece achar tudo muito natural.

Para o leitor brasileiro, pode ainda chamar a atenção a riqueza de detalhes da história. Uma vez que cada volume tem 80 páginas, contra as 20 e poucas dos gibis de super-heróis, os autores têm mais tempo para desenvolver a trama – e enchê-las de detalhes. Na ausência de notas de rodapé (espera-se que o leitor conheça um pouco de História Mundial, o que, afinal, não é nenhum crime), uma pesquisa por referências pode enriquecer a leitura.

Ao final do álbum, a única pergunta que fica é como que uma HQ dessas não teve um lançamento bombástico.

Nos últimos anos, as editoras brasileiras têm lançado quadrinhos do mundo inteiro. Apesar disso, o monumental mercado europeu continua em segundo plano – ainda mais quando se leva em consideração seu tamanho e a imensa qualidade de seus títulos.

Por aqui, as iniciativas de publicação são poucas e isoladas. Daí que o leitor nacional não tem nem hábito de ler esses materiais e nem referências para desejá-los – como pedir algo que não se sabe que existe? Como saber, por exemplo, que Nury é um grande autor?

É só assim, por conta de ignorância, que um álbum como Eu sou legião pode passar batido, como se não fosse um best-seller em potencial. Até a editora parece ter feito poucos esforços para chamar atenção. Demorou mais de um ano entre o anúncio e a chegada às livrarias.

Ao contrário de outros lançamentos da casa, o álbum não ganhou sequer um hotsite. Para o leitor em busca de boas HQs, a isca ficou por conta da arte e da popularidade de Cassaday. E só.

Parece até descaso.

Apesar de todas as qualidades de Eu sou legião, é sempre bom lembrar que o histórico da Panini com quadrinhos europeus é medonho – e que inclui uma dívida com os leitores.

Na hora de trazer material estrangeiro para o Brasil, a multinacional atua basicamente como um intermediário entre editoras dos Estados Unidos e do Japão. Não olha para a própria vizinhança – que tem grande tradição de excelentes HQs. Considerando a origem europeia da empresa, chega a ser constrangedor.

Anos atrás, a editora ensaiou lançar uma coleção com grandes séries em bancas de revista: Blueberry, XIII, Blacksad e Aldebaran. Foi um fiasco: todas foram interrompidas pelo caminho e nunca mais retomadas. Leitores ficaram na mão. Poucas vezes a editora maltratou tanto um bom material. Até hoje, não se redimiu.

O leitor tem mesmo que desconfiar – pelo menos, desta vez, a coleção chega num único volume.

Interpelados em eventos de quadrinhos, os editores costumavam dizer, até pouco tempo atrás, que ainda pretendem corrigir o erro. Mas, até agora, não há indício de que isso vá acontecer. Em tempo: o UHQ espera há meses uma resposta da Panini a respeito da continuidade desses materiais.

Nos mesmos debates, os editores disseram que Eu sou legião poderia marcar uma virada na linha editorial. Mas, até agora, não há nenhum indício de que este álbum não seja apenas um fato isolado.

É uma pena. Afinal, os méritos da obra falam por si. Os da editora, não.

 

Classificação:

4,0

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