Ex Machina – Volume 10 – Limite de Mandato

Por Liber Paz
Data: 1 fevereiro, 2013

Ex Machina - Volume 10 - Limite de MandatoEditora: Panini Comics – Edição especial

Autor: Brian K. Vaughan (roteiro), Tony Harris (arte), Jim Clark e Tony Harris (arte-final) e J.D. Mettler (cores) – Originalmente em Ex Machina # 45 a # 50.

Preço: R$ 21,50

Número de páginas: 168

Data de lançamento: Janeiro de 2013

Sinopse

Pró-Vida – Profundamente transformada pela “caixa branca”, um artefato criado por Mitchell Hundred, a jornalista Suzanne Padilla agora possui extraordinários poderes e uma crueldade sem limites.

Confrontando-a, Hundred sofrerá irreparáveis perdas e finalmente se defrontará diretamente com os segredos por trás da origem de suas próprias habilidades.

Vice – A última história de Ex Machina, na qual o leitor acompanha um pouco da trajetória de Hundred após o término de seu mandato.

Positivo/Negativo

A conclusão de Ex Machina é simplesmente atordoante.

Ao longo das histórias, o autor Brian K. Vaughan praticamente compôs uma ode de amor à cidade de Nova York, retratando seus moradores, sua pluralidade cultural e suas curiosidades históricas.

E o roteirista foi além e misturou habilmente dois temas que pareciam não ter nada a ver: política e super-heróis. Com isso, levantou questões interessantíssimas.

Afinal, de certa forma, políticos se vendem como super-heróis. Para serem eleitos, devem possuir habilidades como liderança, inteligência, autoridade. Também precisam possuir um fortíssimo e inabalável caráter moral. Ou pelo menos, deveriam.

Os eleitores buscam isso em seu candidato ideal. E também em seu super-herói ideal.

Mas o “super-herói” ideal é desconstruído diversas vezes e de inúmeras maneiras nos quadrinhos desde a década de 1980 e o “político ideal” é desconstruído diariamente em escândalos ou decepções em seus mandatos, em todos os cantos do planeta.

Por intermédio de Mitchell Hundred, Vaughan usou o super-herói para revelar as complexas e contraditórias dimensões do político.

Em Pró-Vida, Suzanne Padilla mostra-se como a mais terrível adversária que Hundred enfrentou. Assim como o prefeito consegue comandar máquinas com sua voz, a jornalista faz o mesmo com seres humanos.

Completamente insana, Padilla pretende concretizar definitivamente a ameaça de invasão extradimensional que já havia sido insinuada várias vezes ao longo da série. E não medirá esforços para isso.

Daí vem o confronto direto com Hundred, que será forçado a assumir pela última vez a identidade de Grande Máquina. Nesse ponto, os elementos fantásticos tomam conta da narrativa e seguem o modelo “super-herói lutando para salvar o mundo”.

Só que, como sempre aconteceu em Ex Machina, as discussões da esfera política também permeiam os eventos extraordinários. Em seu final de mandato, Hundred discute com Wylie sobre a distribuição de pílulas do dia seguinte para a população.

A conversa acaba enveredando para a questão do aborto, tema delicado para Hundred, que pretende seguir carreira política e talvez chegar à presidência.

A divergência de opinião entre Wylie e Hundred é um exemplo das diversas situações apresentadas durante a série que ilustram o grande confronto da política: conseguir administrar e harmonizar os diferentes interesses das pessoas que compõem a sociedade.

Pró-vida finalmente apresenta os eventos que fizeram Hundred referir-se a seu último ano na prefeitura como “amaldiçoado”. É a revelação dos acontecimentos que o assombravam desde a primeira página da série.

Não foram só as vítimas fatais dos ataques de Suzanne Padilla, mas as escolhas que Hundred precisou fazer para poder seguir sua carreira política.

Na última história, Vice, essas escolhas assombram não só Hundred, como também o próprio leitor.

Como o homem que salvou tantas vidas é capaz de cometer atos tão vis, tão condenáveis moralmente?

Sem entregar spoilers, basta dizer que Hundred comete verdadeiras atrocidades para manter sua carreira política. Trai amigos e ideologias, e mente.

O mais atordoante é que, ao mesmo tempo em que se suja, ele parece permanecer o mesmo. O modo como olha para a fotografia de seus amigos na antepenúltima página é cheio de ternura e isso contrasta com os atos que cometeu de maneira a deixar o leitor perplexo.

Hundred perpetra atos condenáveis para manter-se em uma posição que permite realizar benfeitorias à sociedade.

O mesmo homem que salvou pessoas é o homem que mata pessoas.

Ao olhar de perto, não há um herói, nem um vilão, mas uma mescla cheia de incoerências.

Talvez o ano de 2005 tenha sido “maldito” para Hundred porque ele deixou de ser super-herói para se tornar um político de verdade.

Uma curiosidade: a última frase dita na série é “apagar as luzes”, tradução do original em inglês “fade to black”, título de uma música da banda Metallica que traduz plenamente o espírito da conclusão de Ex Machina.

Na questão técnica, vale destacar algumas irregularidades na arte. Embora o desenho de Tony Harris seja impecável, em certas páginas a arte-final parece ter sido feita de maneira grosseira. Nada que comprometa a edição, mas destoa e é perceptível.

No saldo final, Ex Machina mostrou-se uma série de super-heróis muito acima da média, interessada em mostrar mais do que um sujeito fantasiado que combate o mal.

Abordou a dificuldade de uma autoridade administrar uma sociedade tão plural quanto a de Nova York, que não deve ser muito diferente de conciliar as opiniões e culturas heterogêneas de grupos sociais de outras cidades ou mesmo de países inteiros. Apresentou tramas interessantes, discorreu sobre política e mesclou tudo isso com uma ficção científica fantástica.

Oxalá apareçam mais séries assim.

Classificação

5,0

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