FANTASMA POCKET # 1 E # 2

Por Thiago Rique
Data: 1 dezembro, 2006


Título: FANTASMA POCKET # 1 E # 2 (Nova Sampa) –
Edições especiais

Autores: Lee Falk (roteiro) e Ray Moore (desenhos).

Preço: Cr$ 160,00 (preço da época)

Número de páginas: 96

Data de lançamento: 1990 (#1), 1991 (#2)

Sinopse: A jovem Diana Palmer volta de uma expedição oceânica durante
a qual encontrou um cemitério de baleias repleto de âmbar-gris, uma secreção
dos cetáceos, extremamente valiosa e matéria-prima dos mais caros perfumes,
entre outras coisas.

Sua descoberta direciona para si os olhos ambiciosos dos Singh, uma antiga
sociedade de pirataria dedicada à extorsão, chantagem e assassinato, que
arma um ataque contra o navio para seqüestrar a moça e descobrir a localização
do cemitério.

FANTASMA POCKET #1 E 2
Para a surpresa de todos, eles são impedidos por um herói de roupas exóticas
conhecido apenas como “O Fantasma”, um justiceiro que vinha atuando nas
ruas de Nova York nos últimos dois anos, prendendo e desmantelando quadrilhas.

Mas os Singh não se dão por vencidos e preparam novas armadilhas para
a jovem exploradora. O rumo dos acontecimentos colocará Diana numa trama
de perseguição e suspense, na qual ela poderá contar apenas com a proteção
do misterioso Fantasma, uma figura lendária que, segundo relatos, tem
no mínimo 400 anos. Ou será que não?

Positivo/Negativo: Certa vez, perguntaram a Lee Falk se ele achou
que o Fantasma teria tamanha longevidade. “Não”, respondeu o escritor,
“achei que ele duraria poucas semanas”.

Considerando ser a aventura de estréia do personagem Os Piratas de
Singh
, é de se admirar a imensa humildade de Falk. Publicada entre
17 de fevereiro e 11 de julho de 1936, a história não apenas introduziu
o primeiro herói uniformizado e mascarado dos quadrinhos, mas também nesta
mídia utilizou de forma magistral uma série de outros conceitos já apresentados
na literatura fantástica dos pulps, criando uma mistura envolvente
e emocionante.

O pioneirismo da trama se revelou logo na primeira seqüência, ao apresentar
algo pouco ortodoxo para época: uma moça treinando boxe com um homem!
Diana já mostrava força de espírito e independência desde aquele momento.
O grande mérito de sua caracterização cabe ao próprio Falk, que habilmente
apresenta durante a narrativa, acima de tudo, uma mulher forte, porém
feminina e romântica, nunca um “homem de saia” (algo tristemente abatido
sobre as personagens femininas norte-americanas nos últimos tempos). E
está é sua maior força. Impossível não se encantar com a hoje sra. Walker,
que é, merecidamente, tão amada quanto seu marido pelos fãs do mundo todo.

Os Singh como vilões são perfeitos. Nada dos cientistas loucos com planos
mirabolantes de conquista mundial tão comuns nos anos seguintes, mas sim
uma ordem secreta dedicada à pirataria, extorsão, agiotagem e outras atividades
criminosas, com braços estendidos sobre todo o globo.

Não se chega a dizer a origem deles, mas é possível contar indianos e
chineses entre seus números e não, eles não trocam o R pelo L quando falam
e tampouco são estereotipados (Falk não ficaria isento dessa prática no
começo da carreira, claro, mas foi algo retificado ao longo dos anos por
ele mesmo).

O “relações-públicas” dos Singh, por assim dizer, é Achmed Singh, mas
o leitor descobre, na metade da história, que ele serve alguém maior,
o grande Kabbai Singh, líder absoluto da seita. Também é apresentada a
perigosa Sala, uma das muitas mulheres fatais criadas por Falk e que se
descobrirá na aventura seguinte, Os Piratas do Céu, ser parte de
um bando de piratas mulheres.

Mas o grande astro da história é, sem dúvida, o Fantasma. A cada aparição
do herói, ele faz algo incrível, principalmente se considerarmos o ineditismo
de certas situações para a época. Pilotar um carro pegando fogo e lutar
contra um tubarão com apenas uma faca são coisas que ele tira de letra,
para o deleite dos leitores.

Basta ler as primeiras histórias dos (super-)heróis dos anos 30, 40, 60,
para sentir a habilidade de Falk como escritor e se surpreender com o
roteiro de Os Piratas de Singh, pois, além de apresentar um ritmo
novelesco – algo às vezes difícil pela estrutura de publicação das tiras
-, o autor não começa com a origem do personagem nem faz sua aventura
inicial girar em torno disso. Somente na reta final, é finalmente revelado
a Diana que o Fantasma faz parte de uma dinastia de justiceiros, com filho
assumindo o lugar do pai durante os anos.

Uma curiosidade apresentada é o sobrenome do primeiro Fantasma, chamado
de Standish aqui e depois alterado para Walker nas revisões de Lee Falk
nos anos seguintes.

Outro fato alterado foi a identidade do primeiro Fantasma: aqui ele próprio
é ninguém menos que o capitão do navio, que leva seu velho pai na viagem,
pois o ancião estava ansioso para ver esta proeza do filho. A embarcação
é atacada por piratas Singh e o jovem vê o pai ser morto diante dos seus
olhos.

Nos anos seguintes, o autor alterou levemente a ordem dos fatos, transformando
em capitão o pai já não tão idoso do Primeiro Fantasma.

Não se pode esquecer o valor ímpar de Ray Moore no lápis: tivesse sido
outra pessoa a ilustrar esta aventura, talvez ela jamais tivesse a mesma
emoção, tensão e o pique cinematográfico. Com suas sombras magistrais
e ambientes sempre escuros, confere um toque sobrenatural a cada aparição
do Fantasma, levando os leitores da época a se perguntar: “ele é humano?”

O artista não deu apenas uma alma única a esta história, mas também deu
uma aula de narrativa, anatomia, iluminação, expressão – e por que não
dizer expressionismo? – e dinamismo. Basta ver a simplicidade dos desenhos
da época no traço de outros artista em comparação com o profissionalismo
absurdamente incrível do seu trabalho.

Moore também foi o definidor do visual do Espírito-que-anda, eliminando
as luvas que o personagem chegou a usar em sua primeiríssima aparição
e acrescentando o famoso calção listrado por cima das calças, item que
virou praticamente sinônimo de “super-heróis”. Não é à toa que Lee Falk
o denominou como “o maior artista do Fantasma”.

Outro fato curioso é uma interessante mudança de foco: nas ficções em
geral (literatura, filmes, HQs etc.), o mal é sempre representado como
algo a ser temido, enquanto o bem, a ser trilhado. Geralmente, os mocinhos
não causam temor, por mais poderosos que sejam; apenas os vilões o são.
Afinal, de quem você teria medo: Darth Vader ou Luke Skywalker? Superman
ou Luthor?

Mas Falk mostra um herói temido pelos próprios malfeitores! A simples
visão do Fantasma faz muitos caírem no chão implorando pelas vidas. Hoje,
sem dúvida, o conceito está saturado, mas o nosso Espírito-que-anda foi
um dos primeiríssimos a utilizá-lo e, de longe, um dos mais bem-sucedidos.

Mas o humanismo do Fantasma, algo que igualmente o tornou – e ainda torna
– único em seu meio, também se fazia presente; e o personagem se permitia
momentos de romantismo ao lado de Diana. E até de humor, como em determinada
passagem em que ele assusta um dos Singh apenas aparecendo e dizendo “bu!”.
Impagável.

Setenta anos depois daquelas primeiras semanas de 1936, todos sabem quem
é o Fantasma, ele já se casou com Diana, enfrentou o bando de Sala e os
Singh em outras ocasiões, mas Os Piratas de Singh permanece como
um dos marcos na história das HQs e como uma das mais perfeitas caracterizações
do Espírito-que-anda.

Junto com sua seqüência, Os Piratas do Céu, ela foi a base do roteiro
do filme de 1996 e por “base” entenda “premissa”, já que diversos personagens
e eventos foram alterados. Sai Achmed Singh, entra Xander Dax… Sai âmbar-gris,
entram Caveiras de Tuganda… Sai Diana entra Diana by Hollywood
e por aí vai.

A história vista nos cinemas é uma pálida versão dos originais e o mais
curioso de tudo é que poderia muito bem ter sido adaptada para o filme
de época que a Paramont queria, com alterações mínimas no roteiro
de Falk.

Esta aventura já foi publicada no Brasil diversas vezes desde a segunda
metade da década de 1930. A mais recente foi pela Editora Nova Sampa,
entre 1990 e 1991, no formato pocket.

A primeira edição traz um pequeno texto de Franco de Rosa e a segunda
um artigo com curiosidades do Fantasma, escrito pelo maior colecionador
brasileiro do herói, Dédy Edson.

Os problemas dessa versão, no entanto, foram a diagramação extremamente
irregular dos painéis no segundo número e, mais sério ainda, o fato dela
não ter tido final: inicialmente programada para três volumes, apenas
dois saíram, deixando os fãs de primeira viagem sem o sensacional final
da trama, no qual o Fantasma enfrenta Kabbai Singh. Lamentável!

Uma verdadeira obra-prima que merece ser conhecida, lida e guardada por
qualquer um que se considere fã de quadrinhos. Mereceria nota máxima,
se esta análise não fosse das edições da Sampa.

Classificação:

4,0

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