As fantásticas aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy III – Requiem

Por Pedro Cleto
Data: 17 março, 2014

As fantásticas aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy III – RequiemEditora: Tinta da China – Edição especial

Autores: Filipe Melo (roteiro), Juan Cavia (arte) e Santiago Villa (cor).

Preço: € 16,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Novembro de 2013

Sinopse

As aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy são o maior sucesso da banda desenhada portuguesa da última década. Imaginadas como argumento para um filme, devido ao elevado orçamento necessário acabaram por ser narradas em quadrinhos.

Os protagonistas são quatro: Dog Mendonça, um lobisomem e investigador do paranormal com dezenas de anos; Eurico Catatau, ex-entregador de pizzas; Edgar Agostinho, uma gárgula, ou melhor, apenas a sua cabeça; Pazuul, um demônio de seis mil anos no corpo de uma menina.

Juntos, começaram por salvar o mundo de uma ameaça nazista que se escondia nos subterrâneos de Lisboa e, depois, com uma ajudinha da Senhora de Fátima (a própria!) evitaram que o Apocalipse se concretizasse.

Agora, para encerrar a trilogia, dois acontecimentos marcantes vão pôr em risco não só o mundo, mas também a estabilidade de Dog Mendonça e dos seus companheiros.

O primeiro é o aparecimento de dívidas com o fisco (os heróis também têm que pagar impostos!). O segundo apresenta-se como uma história mal resolvida no seu passado, personificada pelo malévolo Dr. Aranha, que o obrigará a recordar acontecimentos marcantes que preferia esquecer e levará os quatro amigos a descobrirem o que na verdade os uniu.

Positivo/Negativo

Num microcosmo habitualmente dividido entre quadrinhos de autor e didáticos, as aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy, sejam elas incríveis, extraordinárias ou fantásticas, constituíram uma chacoalhada no mercado português ao conciliar a sua qualidade gráfica e narrativa com um evidente sucesso comercial.

Isso se confirmou nas seis edições do primeiro livro (7.500 exemplares), nas quatro do segundo tomo (5.500 exemplares) e no fato deste terceiro volume já estar na segunda tiragem (3.500 exemplares).

A esses números deve se acrescentar as edições norte-americanas da Dark Horse Comics: o primeiro livro está esgotado e o segundo – que inclui as histórias curtas sobre o passado de Dog Mendonça, originalmente publicadas na revista Dark Horse Presents – foi lançado recentemente.

(E fica a informação de que As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy sairão no Brasil, pela Devir, em 2014).

Para esse (justo) sucesso contribuiu sobremaneira a aposta séria e profissional na divulgação dos livros, que teve direito a sessões de autógrafos com os autores, em Portugal, no final de 2013, e a criação de dois vídeos promocionais: Aranhas gigantes em Lisboa, que rapidamente se tornou viral, e Um dia de cão.

Quanto à obra em si, um dos seus trunfos é a forma como cativa leitores de pelo menos duas gerações, pelas constantes citações e referências à Cultura Pop dos anos 1980 e 1990, sejam elas do cinema – não é por acaso que os prefácios dos três livros são assinados pelos renomados John Landis, George A. Romero e Tobe Hooper –, da literatura, da televisão e dos quadrinhos.

Tudo isso contribui para tornar universal uma história cuja ação se passa em Portugal, especialmente em Lisboa.

Filipe Melo constrói uma narrativa fluida, com constantes surpresas e cenas distintas encadeadas umas nas outras, um ritmo verdadeiramente cinematográfico e uma invulgar capacidade de escrever diálogos vivos, críveis, recheados de trocadilhos e alusões e muito divertidos.

Para concretizar graficamente este projeto, Melo foi descobrir na Argentina Juan Cavia e Santiago Villa, que se revelaram os parceiros ideais, recriando no papel, com espessura, volumetria e cor, os heróis (?) idealizados pelo argumentista português.

Limadas algumas arestas nos livros anteriores, agora as cenas melhoraram em iluminação e definição; e o traço ágil, vivo e caricatural dos argentinos é mais legível, revelando-se mais um trunfo na consolidação da obra.

O início é mais sóbrio, a ameaça, mais real, porque diz respeito a um antigo amigo e as implicações da sua resolução vão obrigar cada personagem a descobrir em si as forças e as motivações para procurar a vitória.

Por isso, em Requiem, o tom desbocado adotado até agora muda um pouco. E isso, ao contrário do que se poderia pensar, contribui para consolidar o universo desenvolvido até aqui e dar-lhe maior consistência e credibilidade.

Mais intimista – mas longe de ser piegas –, este livro une algumas pontas soltas dos anteriores e, com um final sóbrio, ajustado, surpreendente e divertido, trai a velha máxima de o terceiro episódio de uma trilogia ser sempre uma porcaria.

A edição acompanha a evolução dos autores e consegue – finalmente! – fazer jus à sua arte. O papel diferente para a sequência em preto e branco que abre este livro e o making of final, que ajuda a compreender como foi possível tornar realidade um projeto de fôlego que parecia não passar de um sonho, também contribuem para esse êxito.

A título de curiosidade: os livros foram produzidos via Skype, pois os autores só se conheceram pessoalmente no lançamento do primeiro tomo.

O senão principal é a certeza de que, por vontade dos autores, este é o último volume de Dog Mendonça e PizzaBoy, mesmo o leitor sentindo que havia (ou há) outras aventuras – assombrosas, espantosas, inacreditáveis, insólitas… – que poderiam ser contadas.

Mas fica o consolo (insuficiente) de que melhor do que continuar até esgotar os personagens, é saber quando parar, mesmo deixando saudades nos leitores…

Classificação

4,5

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