Who Fighter e o coração das trevas

Por Carlos Vinícius Marins
Data: 17 março, 2014

Who Fighter e o coração das trevasEditora: HQM – Edição especial

Autor: Seiho Takizawa (roteiro e arte).

Preço: R$ 14,90

Número de páginas: 208

Data de lançamento: Julho de 2010

Sinopse

Who Fighter – Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, um piloto da força aérea japonesa derruba um Objeto Voador Não Identificado, o que o leva a uma investigação secreta, estranhas teorias de conspiração, eventos sobrenaturais, sombrias e assustadoras ações capazes de gelar o sangue de qualquer um e visões alucinantes que podem fazê-lo perder a sanidade.

Coração das Trevas – Em 1944, um condecorado herói de guerra do Japão decide desertar e cria seu próprio reino particular no interior das florestas tropicais da Birmânia (atual Myanmar), na Ásia. Mas o exército nipônico envia um capitão com a missão de matá-lo.

Tanques – Um mergulho na fantasia e através do tempo em batalhas protagonizadas por este instrumento de guerra.

Positivo/Negativo

Seiho Takizawa é um respeitado quadrinhista no Japão, mas praticamente desconhecido no resto do mundo. O que mais se destaca em sua obra é o fascínio em narrar aventuras de guerra – especialmente envolvendo aviões –, cenas com cenários meticulosos e uma diagramação clássica de páginas. Este é o seu único trabalho lançado no Brasil até agora – a 13ª obra que criou – e foi o primeiro do selo HQM Mangá.

A edição é uma antologia de histórias curtas com extensão distintas. Em Who Fighter, a de maior fôlego, aparentemente Takizawa está em casa, com uma aventura estrelada por um ás da aviação durante a Segunda Grande Guerra.

A trama, porém, possui diversos elementos sobrenaturais e assustadores, que conferem um clima tenso e remetem a seriados como Arquivo X e Além da Imaginação. Para isso muito contribuem seus personagens anatomicamente perfeitos e a mescla ideal que o autor consegue de clichês do terror e ficção científica com referências históricas, como misterioso Centro Noborito de Pesquisas do Exército Japonês, que investigou diversos casos de pretensas aparições de OVNIs no arquipélago durante a guerra.

A segunda aventura se apresenta como uma versão do livro Coração das trevas, obra mais conhecida de Joseph Conrad. Na realidade, Takizawa bebe direto da adaptação cinematográfica, o clássico Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola.

Muda basicamente o cenário: enquanto no longa o protagonista é um soldado norte-americano enviado para matar um coronel de seu exército que havia desertado durante a Guerra do Vietnã, no mangá o soldado e o coronel desertor são japoneses e o cenário é a Birmânia (atual Myanmar) durante a Segunda Guerra Mundial. No romance, a aventura não se passa numa guerra e nem seus personagens são soldados, mas comerciantes de marfim na África.

Devido às semelhanças, muitos leitores podem achar que trata-se de um plágio pouco criativo da obra de Coppola. Não poderiam estar mais enganados. Pensar assim significaria que não poderia haver novas versões de Sherlock Holmes, Tarzan ou Zorro.

Na história, mais uma vez, Takizawa acerta ao mesclar clichês com referências históricas. A aventura é uma ferrenha crítica ao imperialismo nipônico que existiu até a Segunda Guerra e as suas técnicas desumanas de conquista. E os cenários realistas são ainda mais impactantes do que na primeira aventura.

A terceira HQ tem apenas nove páginas e apresenta uma narrativa onírica e fragmentada, totalmente diversa das anteriores, o que demonstra a pluralidade do autor. Apesar de possuir uma proposta interessante, é a mais fraca da edição justamente por ser tão curta. O roteiro é frágil e procura emular HQs alucinantes típicas da Métal Hurlant e da Heavy Metal nos anos 1970. Com mais espaço para se desenvolver, talvez pudesse ser mais consistente.

Esta antologia é um bom exemplo da obra de Seiho Takizawa, pois mostra o quanto ele conhece de armamento militar e seu interesse em relação às atividades do Japão na Segunda Guerra Mundial – um tema não muito popular entre os quadrinistas daquele país e que costuma ser lembrado apenas nas datas redondas comemorativas do fim do conflito ou em dramas pesados e antibélicos, com a guerra como mero pano de fundo. Fica a torcida para que mais trabalhos do autor sejam publicados no Brasil.

Classificação

4,5

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