Flash Gordon no Planeta Mongo

Por Toni Rodrigues
Data: 19 dezembro, 2008

Flash Gordon no Planeta MongoEditora: Ebal – Edição especial gigante

Autores: Alex Raymond (texto e desenhos) e Antônio Monteiro Filho (capa).

Preço: Cr$ 40,00 (preço da época)

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Dezembro de 1973

Sinopse

No primeiro quadrinho, uma manchete de jornal: “Vai acabar o mundo – um planeta desconhecido avança de encontro à Terra, só um milagre nos salvará, diz a ciência”. Assim começa a história que leva o “famoso jogador de pólo” Flash Gordon, a bela Dale Arden e o cientista Hans Zarkov ao Planeta Mongo.

Lá, eles enfrentarão o terrível tirano Ming e conhecerão cidades voadoras, reinos no fundo do mar, monstros aterrorizantes e valiosos aliados e amigos, como o Príncipe Barin de Arbórea, Aura, a filha de Ming, o Príncipe Thun dos Homens-leões, Vultão, rei dos Homens-falcões e muitos outros.

Nessas primeiras 60 páginas, é mostrada a chegada dos heróis, a luxúria de Ming por Dale (a quem tenta forçar o casamento), a fuga de Flash dos calabouços, com a ajuda de Aura, o resgate de Dale e Zarkov e o protagonista conquistando o Torneio de Mongo, em que só os mais capazes sobrevivem às provas.

Positivo/Negativo

Certas coisas ninguém é capaz de prever. Por mais capacitado que seja, ninguém pode antever se um trabalho será um completo fracasso ou sucesso; muito menos se irá se tornar um fenômeno que transcenderá a própria mídia para o qual foi criado.

Com certeza, o jovem (25 anos) desenhista Alexander Gillespie Raymond, não podia imaginar que naquele 7 de janeiro de 1934, estivesse entrando para a história como o criador de um dos maiores ícones do Século 20: Flash Gordon.

Raymond tinha sido um brilhante aprendiz e assistente de Chic (BlondieBelinda no Brasil) e Lyman Young (Tim Tyler’s Luck, Tim &Tok / Tim &Tom por aqui) e, ao participar de um concurso interno do King Features Sydicate ganhou os três primeiros lugares, com Flash Gordon, Jim das Selvas (que estreou junto com Flash Gordon, era seu topper, ou seja, complemento) e Agente Secreto X-9 (em forma de tiras diárias, que só estreou em 22 de janeiro).

Pode-se dizer que o mundo nunca mais foi o mesmo depois de Flash Gordon, que logo pulou da seção de quadrinhos dos jornais para o cinema e daí para uma montanha de bem-sucedidos produtos – de cereais matinais a brinquedos, livros, gibis, shows de rádio e TV etc.

Mais: Flash Gordon logo se tornou um grande sucesso também em todos os países para os quais fora exportado. Aliás, graças ao lendário editor russo/baiano Adolfo Aizen, o Brasil foi um dos primeiros a publicá-lo, pois apenas 80 dias depois de estrear no New York American Journal, o personagem saiu no Suplemento Infantil # 3 (o tablóide mudaria o nome para Juvenil apenas no número 15), do jornal A Nação, do Rio de Janeiro, em 28 de março de 1934.

Flash Gordon no Planeta Mongo

Ou seja, havia apenas 12 páginas de Flash Gordon publicadas no seu país de origem quando ele estreou por aqui. A provável razão desse pioneirismo é que Aizen tinha conhecido o herói pouco tempo antes, numa viagem aos Estados Unidos, por conta de um prêmio de imprensa que havia ganhado e, segundo ele mesmo, se encantara com aqueles desenhos e seu jovem autor, numa visita que fez aos escritórios do King Features Sydicate.

Em 1936, no auge da popularidade do Suplemento Juvenil, quando estava sendo publicado por aqui a página de número 80, Aizen resolveu reunir as primeiras 60 pranchas num álbum de luxo, em tamanho grande, do qual logo se esgotaram 15 mil exemplares. Essa edição se tornou uma lenda entre os colecionadores de quadrinhos durante muitos anos.

O tempo passou e Flash Gordon trocou o Suplemento Juvenil pelo Globo Juvenil de Roberto Marinho, numa manobra que viria a causar a derrocada dos negócios de Aizen, que acabou por deixar os quadrinhos por um certo tempo.

Alguns anos depois, ele fundou uma nova editora – a Ebal – e voltou a ter sucesso, mas nunca mais publicou Flash Gordon. Nunca mais?

Em 1970, a Ebal havia completado 25 anos de atividades e ainda era uma empresa sólida. Suas revistas vendiam muito bem e a editora disputava com a Rio Gráfica (de Roberto Marinho) a hegemonia do mercado de publicações infanto-juvenis no Brasil, seguidas de perto pela O Cruzeiro e a Abril e de longe por uma miríade de pequenas casas editoriais.

Os quadrinhos estavam na moda dentre os intelectuais – tanto que, em 1967, foi organizada no Louvre uma grande exposição sobre o tema batizada de Bande Dessinée et Figuration Narrative. Essa mostra foi trazida ao Brasil pelo MASP em 1970, acrescida do trabalho de diversos autores e editores brasileiros (inclusive Adolfo Aizen), intitulada História em Quadrinhos & Comunicação de Massa. Diversos convidados internacionais estiveram presentes, como Burne Hogarth, Lee Falk, Philippe Druillet, Robert Gigi e Claude Moliterni, que além de autor era um importante editor – e justamente quem interessava no caso Flash Gordon.

Nessa época, Moliterni tentava havia algum tempo republicar Flash Gordon na Europa, mas não encontrava em lugar nenhum uma fonte para os primeiros 60 capítulos, já que nem aKing Features os tinha.

Então, durante a mostra no MASP, reza a lenda que Moliterni viu nas mãos de Ademário de Matos, dono da Livraria Gibi, de saudosa memória para os colecionadores paulistanos, um exemplar do álbum de 1936, editado por Aizen, pelo qual pagou o que lhe foi pedido, uma fortuna, segundo consta.

O próprio Aizen presenciou a cena e ficou surpreso, como ele mesmo frisou algum tempo depois.

Em 1973, Adolfo Aizen se deu conta de que, no começo do ano seguinte, o Suplemento Juvenil completaria 40 anos e achou, com razão, que a data merecia uma comemoração.

Ele resolveu que a melhor maneira de comemorar era fazer uma série de edições especiais, algumas de alto luxo, outras mais populares. Mais do que isso: Aizen queria publicar, se possível, os heróis com os quais tinha começado. Mas seria possível?

Qual era a situação contratual desses heróis em 1973? Tarzan era o único que pertencia à EbalFantasma e Mandrake estavam sendo publicados respectivamente por RGE e Saber, que se aproveitara de uma brecha contratual para fazê-lo (supostamente, a editora publicava as histórias em “formato de livro”, não como revista).

Príncipe Valente tinha deixado a RGE e fora publicado de maneira insólita – por três números – pela GEA; e “em formato de livro” pela Paladino, que pertencia ao primo do dono da Saber(!).

Já Flash Gordon teve um álbum anunciado pela GEA. Mas como a editora faliu antes, também saía pela Paladino.

Esse cenário, praticamente se repetia com outros personagens.

Ebal começou, então, um longo processo de negociação com o King Features e, em certos casos, com as editoras que detinham os direitos. Pouco a pouco, Aizen foi viabilizando as edições e resolveu começar pelo seu favorito: Flash Gordon.

No segundo semestre de 1973, passou a sair no miolo das revistas da Ebal um pequeno encarte. Nele havia um cupom, para o leitor reservar seu exemplar da reedição de Flash Gordon no Planeta Mongo, com desconto.

E mais: se o leitor fosse um dos dois mil primeiros a reservar, ainda levava o exemplar autografado por Adolfo Aizen e Monteiro Filho, veterano ilustrador da Ebal, autor da capa original do álbum de 1936, que estava estampada no encarte.

A partir de então, começou nas revistas da Ebal, na seção Notícias em Quadrinhos, uma campanha-teaser contando toda a manufatura do álbum, desde a atualização ortográfica até os retoques nos desenhos (que foram fotografados do material impresso de 1936, pois não havia originais ou negativos disponíveis), feitura dos fotolitos e impressão das páginas.

Todos achavam que o livro seria republicado exatamente como a edição de 1936, mas não foi o caso. Além dos retoques, Aizen produziu uma nova capa. Há quem diga que foi Monteiro Filho quem resolveu fazê-la e convenceu o editor a usá-la.

Essa nova arte era uma releitura da original, a que todos hoje se referem como a “capa vermelha”, porém muito mais apurada e cheia de detalhes agora possíveis de serem impressos.

A nova capa ficou conhecida como “capa azul” e saiu apenas na primeira tiragem de dois mil exemplares e é bastante rara (posteriormente foram feitas novas tiragens com a “capa vermelha”, estas mais comuns).

Finalmente, o álbum ficou pronto e foi um enorme sucesso. Diversos jornais resenharam a edição com bastante destaque e Aizen o enviou de presente a várias personalidades nacionais e internacionais. Todos escreveram agradecendo. Nomes como Will Eisner, Burne Hogarth, que ainda encomendou mais exemplares para dar de presente a outros desenhistas, e Al Williamson, que retribuiu a gentileza enviando dois originais seus de Agente Secreto X-9.

O álbum, apesar do preço bastante alto (cerca de 50 vezes o de uma revista normal da Ebal) foi um grande sucesso e, graças a isso, a assim chamada Coleção Nostalgia pegou.

Logo, Jim das Selvas também foi republicado, quase em fac-símile da edição de 1937; oPríncipe Valente ganhou uma bela edição recontando sua história desde o começo; Mandrakeestrelou uma edição menor, mas colorida, com duas de suas melhores HQs. Já X-9, Brick Bradford, Tim e Tok ganharam álbuns mais populares, assim como a primeira história deTarzan e outros.

Nos anos seguintes saiu muita coisa boa pela Ebal, mas infelizmente a editora já estava entrando em seu declínio, que foi lento, porém constante nos anos 1980 e 1990. Sua última edição foi justamente mais um volume desta “coleção”, o volume XV de Príncipe Valente, editado em maio de 1995.

Quanto a Flash Gordon no Planeta Mongo, o álbum em si é lindo, impressionante pelo tamanho (quase um metro quando aberto), mas é inferior aos que vieram depois. Por duas razões. A primeira é que, como já foi dito, não havia material disponível para se fotografar e muitos dos desenhos sofreram por conta disso.

A segunda é a opção por usar texto tipográfico nos balões e legendas em vez do letreiramento manual. Apesar de feio, esse recurso, que era comum nas revistas da Ebal, foi um ruído em edições luxuosas como a de Flash Gordon e a de Príncipe Valente.

Felizmente, isso foi corrigido nos volumes seguintes das duas séries.

Não é muito difícil de se achar esse material à venda, principalmente com a capa vermelha. A azul, no entanto, é bem mais rara e, conseqüentemente, cara. Se você achar algum exemplar a um preço camarada, compre logo. Vale a pena.

Classificação

5,0

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