Freakangels – Volume 1

Por Zé Oliboni
Data: 19 dezembro, 2008

Freakangels - Volume 1Editora: Avatar Press – Edição especial

Autores: Warren Ellis (roteiro) e Paul Duffield (arte).

Preço: US$ 39,99 (edição limitada autografada), US$ 27,99 (capa dura), US$ 19,99 (capa mole) e gratuito no site http://www.freakangels.com, mantido pela editora.

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Novembro de 2008

Sinopse

Há 23 anos, 12 crianças estranhas nasceram na Inglaterra exatamente no mesmo instante. Seis anos atrás, o mundo acabou. Esta é a história do que acontece depois.

Jovens, poderosos e sem uma causa, a gangue dos Freakangels construiu algo que se pode chamar de vida em Whitechapel. Uma vida que começa a mostrar grandes rachaduras quando uma garota de Manchester chamada Alice aparece com uma espingarda e um desejo de vingança.

Alice havia encontrado Mark, um Freakangel que debandou do grupo por discordar sobre o que eles deveriam fazer com o futuro da Inglaterra inundada onde vivem.

Positivo/Negativo

No dia 15 de fevereiro de 2008, Warren Ellis, Paul Duffield e a Avatar Press iniciaram o interessante projeto Freakangels. Trata-se de uma história em quadrinhos semanal, publicada gratuitamente no site mantido pela editora e posteriormente compilada na forma de álbuns.

O primeiro volume terminou (para quem acompanhava pela internet) em 15 de agosto, com 24 capítulos de seis páginas cada. Enquanto a história prosseguia normalmente na internet, em novembro estavam disponíveis nas comic shops três versões impressas.

A editora, por intermédio de uma nota em seu site, explicou aos fãs que a HQ permanecerá online e gratuita por muito tempo e que os livros são para os leitores que gostariam ter o material em suas prateleiras.

Essa é um tipo de experiência que as editoras terão que fazer daqui para frente até achar um formato que equilibre a tênue relação entre os quadrinhos digitais (piratas ou não) e os impressos.

Claro que nem todas terão a sorte de ter nas mãos um roteirista bem disposto como Warren Ellis. Para começar, ele não é nenhum iniciante. Tem uma longa carreira nos quadrinhos e passagens espetaculares pelaMarvel e DC, além de vários trabalhos notáveis por outras editoras.

Muitos entenderiam que isso é suficiente para atrair o público, e talvez até seja em um primeiro momento, mas não garante a fidelidade do leitor a um trabalho semanal. Principalmente quando se fala na internet, em que é extremamente fácil dispersar a atenção.

Assim, durante este ano foi possível acompanhar Ellis de diversas maneiras: no seu mailling list Bad Signal, no microblog no Twitter, no fórum Whitechapel e em outras ferramentas virtuais constantemente alimentadas pelo roteirista e que conduziam o leitor semanalmente a um novo capítulo da série.

Esse “corpo-a-corpo” virtual é uma forma de divulgação que atrai o leitor, fazendo-o se sentir “íntimo” do autor. Afinal, ele sente ter um papel importante na produção da HQ, pois não estão lhe cobrando nada para ler. E justamente essa “cumplicidade” ajuda a converter o leitor em fã, o leva a comprar camisetas da série e, até, o livro impresso para guardar como recordação.

Muitas vezes não é nem a história em si, mas sim a estratégia de Ellis de fidelização dos leitores que garante as vendas dos álbuns. E, obviamente, a editora está ciente disso, tanto que disponibilizou o livro em três faixas de preços – uma das opções é 12 dólares mais cara apenas por ser autografada.

Freakangels - Volume 1 Freakangels - Volume 1

Então, Freakangels é um grande golpe de marketing virtual? Não, longe disso. É uma excelente história, muito bem divulgada e num formato aparentemente viável para editora, artistas e leitores.

A trama se passa em uma Inglaterra inundada, onde os bairros viraram pequenas ilhas e a ação é centrada em Whitechapel, onde mora o estranho grupo Freakangels.

Segundo Ellis, os romances de desastres naturais são uma tradição britânica e, para os ingleses, nenhum medo é maior do que uma inundação, uma vez que vivem em uma grande ilha e o clima é constantemente chuvoso.

Neste primeiro capítulo não é claro como esse cenário se formou. Pelas conversas dos Freakangels, o leitor descobre que, aos 17 anos, eles “colocaram suas mentes juntas” e causaram isso, mas ninguém fora do grupo sabe.

Na verdade, mesmo os moradores de Whitechapel pouco conhecem sobre esses jovens, além de eles terem a pele branca, os olhos roxos e protegerem a região.

Aos poucos é contado que seus integrantes nasceram com uma série de poderes. Eles possuem habilidades mentais como telepatia e alta resistência física, precisam se alimentar pouco e, provavelmente, outras coisas ainda não reveladas. Também é muito comentada a preocupação deles com Mark, um dos membros do grupo que debandou e pode ser uma ameaça a todos os demais.

Neste primeiro volume da história, Ellis apresenta calmamente a maior parte dos Freakangels(nove apareceram e Mark é sempre citado, faltando mostrar apenas dois) e, no final, deixa um pouco mais claro o que significa proteger Whitechapel.

Apesar de eles parecerem pacifistas, reconstruindo uma civilização e plantando morangos orgânicos, quando alguém tenta invadir o território, os Freakangels têm uma poderosa rede de canhões pronta para assassinar brutalmente quem se aproximar com más intenções. Fora isso, sabem ser cruéis e dar o seu recado, deixando alguém vivo para voltar nadando para casa e espalhar quem manda ali.

Outro ponto alto da história é a arte de Paul Duffield. Um traço limpo, sem excessos e nem grandes estilizações. Um desenho funcional com o contorno mais marcado e as sombras dadas na colorização, que, aliás, complementa bem o visual.

Agora, a grande façanha de Duffield é na narrativa visual. Ele trabalhou de forma às páginas serem funcionais tanto para a leitura na internet quanto para a impressa. E o que deveria ter sido um desafio se tornou ao mesmo tempo um facilitador para a missão de produzir seis páginas por semana.

Em uma revista normal pode-se ter páginas duplas e muitas variações com o formato dos quadrinhos, pois se consegue enxergá-las facilmente. Na versão online não dá para fazer isso. Por isso, Freakangels só tem páginas simples, com quatro quadros sempre no mesmo formato.

Duffield varia em algumas cenas fundindo dois quadros horizontalmente e, às vezes, umasplash page. Mas, no geral, mantém a estrutura básica de quatro quadros simétricos.

O formato é ideal para se ler no computador, pois dois quadros é o máximo que as telas conseguem visualizar. Assim, o internauta lê a primeira “linha”, movimenta a página e lê a segunda, evitando ter que montar mentalmente imagens que não cabem no monitor.

Na parte tecnológica do site, uma boa idéia da editora foi colocar logo abaixo da página uma opção para mostrar a transcrição dos textos balões, além de deixar um link direto para o Google Translator com nove opções de idiomas.

Combinando as duas coisas, o leitor cria uma “legenda” para o texto no idioma de sua preferência. A tradução para o português é sofrível, mas para quem possui conhecimento básico de inglês essa ferramenta ajuda com as palavras mais difíceis, que normalmente seriam procuradas em um dicionário.

No geral, tanto Freakangels quanto essa relação entre quadrinhos virtuais e impressos estão apenas começando, mas, com certeza, vale a pena acompanhar para ver até onde essas histórias chegam.

Classificação

4,5

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