Fruto estranho

Por Milena Azevedo
Data: 22 dezembro, 2018

Fruto estranhoEditora: Mythos – Edição especial

Autores: J. G. Jones e Mark Waid (roteiro), J. G. Jones (arte e cor) e Bernardo Santana (tradutor). Originalmente em Strange Fruit # 1 a # 4.

Preço: R$ 59,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento:  Abril de 2018

Sinopse

Na pequena cidade de Chatterlee, Mississippi, a grande enchente de 1927 não foi apenas a maior tragédia fluvial na história dos Estados Unidos. Foi a precursora da mudança.

Enquanto o rio transbordante e as barreiras quebradas resultavam na devastação da antiga cidade agrícola por fora, tensões raciais e sociais a rasgavam por dentro.

Mas quando um ser de outro mundo cai do céu e desafia tudo que essas pessoas divididas sabiam, as coisas se modificam para sempre.

Positivo/Negativo

Mesmo após a vitória da União (Norte), na Guerra de Secessão, o que levou ao fim da escravidão negra na América do Norte como um todo, o Sul dos Estados Unidos seguiu deixando o racismo falar mais alto, tanto que a formação da primeira Ku Klux Klan se deu no ano de 1865; e as chamadas “Leis de Jim Crow” (institucionalizando a segregação étnica entre brancos e negros) foram promulgadas nos Estados sulistas em 1876, seguindo até 1965.

A “Era Jim Crow” marcou um novo e triste capítulo do afrodescente na América, pois no Sul ruralista e altamente preconceituoso, eles não colheram as benesses que a liberdade aparentemente prometia.

A justiça sulista acobertava muitos crimes contra os negros, tanto que assassinatos ficavam frequentemente impunes, uma vez que o branco era considerado quase sempre a vítima (agindo em “legítima defesa” ou “lavando honra maculada”). Mas alguns yankees não conseguiam se calar ao ver tamanho impropério. E um deles foi o Prof. Abel Meeropol.

Para retratar o horror sentido ao ver uma foto do linchamento de dois negros, que tiveram seus corpos pendurados nos galhos de uma árvore, o Prof. Abel Meeropol (um judeu) escreveu o poema Bitter Fruit (Fruto Amargo), sob o pseudônimo de Lewis Allan, publicando-o em 1936, depois mudando o nome para Strange Fruit (Fruto Estranho). E no ano de 1939 este poema foi musicado e eternizado na poderosa voz da dama do jazz Billie Holiday.

Partindo de um evento histórico, mas primando por narrar uma fictícia trama reflexiva, na qual uma espécie de Deus de ébano vinha à América para tentar aproximar brancos e negros, os sulistas J.G. Jones (natural da Louisiana) e Mark Waid (nascido no Alabama) produziram Fruto Estranho, que a Mythos lançou no Brasil dentro do selo Prime Edition.

Em meio à efervescência sociopolítica, econômica e cultural dos “turbulentos anos 1920”, as catástrofes naturais também movimentaram os Estados Unidos e atuaram como um elemento unificador entre Norte e Sul, apelando para o senso de solidariedade estadunidense.

Assim, o mote para a ação de Fruto Estranho é a Grande Enchente de 1927, que assolou a pequena cidade de Chatterlee, no Mississippi, e é considerada uma das maiores da História do país, “registrando 250 mortos e desalojando meio milhão de homens, mulheres e crianças”, segundo informa Mark Waid.

Em meio ao pé de guerra entre os cidadãos brancos e os meeiros negros das fazendas – que ao olhar dos brancos andavam fazendo corpo mole e por isso as barragens improvisadas, feitas com sacos de areia, não progrediam) – ocorre a chegada a Chatterlee de um ser extraterrestre, batizado de Colosso (embora esse nome não seja mencionado na história, só nos esboços do personagem).

O extraterrestre vem como uma resposta às preces dos negros, que precisavam de alguém para interceder por eles. Ele se apresenta na forma de um negro enorme e atlético, portador de alta tecnologia, falando um dialeto desconhecido e devorando livros de álgebra e física rapidamente. Para esconder sua nudez, enrola-se com a bandeira dos Confederados – uma fina ironia.

Ele se sacrifica para Chatterlee não ser engolfada pela enchente, mas acaba se tornando esquecido.

Ironicamente quem se sagra herói na cidade é o então Secretário de Comércio, Herbert Hoover, que viria a ser eleito presidente dois anos após aquela tragédia.

O interessante é que, apesar de, à época, Hoover ter conversado com os meeiros negros do Mississippi e chegado a propor um plano de empréstimos a longo prazo para a aquisição de terras e equipamentos pelos negros, ele acabou não colocando a ideia em prática durante seu governo (também não se esforçou muito para pôr em xeque as leis de Jim Crow e nem quis comprar briga com a ala conservadora do Partido Republicano, que era antidireitos civis e pregava a desfiliação de lideranças negras sulistas).

Se Fruto Estranho prende a atenção do leitor pela belíssima arte hiper-realista, toda pintada com excepcional mestria por J.G. Jones, decepciona no roteiro, que apesar de toda pesquisa e detalhamento histórico, e de apresentar alguns personagens interessantes (como o engenheiro negro enviado de Washington, o senador raposa velha, a fazendeira viúva branca simpatizante dos negros e o deplorável líder da Ku Klux Klan local), não convence ao deixar em aberto a subtrama do Colosso, transformando o personagem num deus ex-machina que literalmente cai do céu para resolver o problema da enchente e desaparece sem que ninguém sinta sua falta.

Na verdade, o Deus de ébano alienígena é uma homenagem ao personagem Ícone, criação de Dwayne McDuffie para sua editora Milestone, cuja proposta era desenvolver super-heróis multiétnicos, durante a década de 1990, como lembra o crítico de cinema Elvis Mitchell, no prefácio.

Mesmo enveredando o olhar pelo lado da reflexão de como os quadrinhos lidam com personagens negros, tomando o Colosso como uma metáfora à falta de voz dos negros, ainda assim o personagem não convence. E, de certa forma, até atrapalha o entendimento de que a tragédia provocada pela enchente permitiu aos brancos sulistas enxergarem os negros como irmãos, pois quem pleiteia fazer isso é uma entidade externa, com uma cultura diferente, vítima de coerção em seu planeta (pelos flashes de lembranças mostrados), que aparentemente estava fugindo e caiu na Terra por acidente.

O mais plausível era ter pensado Sonny como o grande herói negro injustiçado (além de salvar o garoto branco, ajudaria a mobilizar negros e brancos para a construção das barragens), levando os integrantes da Ku Klux Klan a persegui-lo. Ele conseguiria se desvencilhar da KKK e livraria a cidade da enchente, mas aí perderia a atenção e o posto de liderança para Hoover, o enviado branco de Washington, com poder e verba para reconstruir o que havia sido destruído.

Em contrapartida, a Mythos caprichou na edição, que traz capa dura, papel couché e uma rica seção de extras, com as capas originais e alternativas, além de vários esboços.

Classificação:

2,5

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• Outros artigos escritos por

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  • ARQUEIRO VESGO

    Eu comprei e curti muito essa bela edição.

  • FINASTERIDO

    O único problema desta publicação é o tal superman black. Porque ele é totalmente desnecessário. Este seria um livro excelente sem esta presença. A arte é fenomenal e a parte histórica, os diálogos e o contexto… quase tudo perfeito, exceto pelo… FRUTO ESTRANHO. Aliás, o título é ótimo, porque o fruto, além de estranho, é desprezível.

  • Wallace Rosa

    Li e também achei o roteiro um tanto decepcionante, apesar da belíssima arte do J. G. Jones.

  • Eu curti. Leitura rápida mas q prende a gente.