Fun home – Uma tragicomédia em família

Por Renato Félix
Data: 20 dezembro, 2019

Fun home – Uma tragicomédia em famíliaEditora: Todavia – Edição especial

Autora: Alison Bechdel (roteiro e desenhos) – Originalmente em Fun Home – A Family Tragicomic (tradução de André Conti).

Preço: R$ 54,90

Número de páginas: 240

Data de lançamento: Agosto de 2018

Sinopse

Memórias da infância e juventude de uma mulher e sua difícil relação com o pai, um obcecado por restauração que herdou uma casa funerária e esconde uma vida dupla.

Positivo/Negativo

Na primeira cena de Fun Home, a quadrinhista narra a memória de uma brincadeira com o pai. É uma raríssima lembrança carinhosa a ter lugar na HQ, que é um denso mergulho nas complexas relações familiares envolvendo Alison, seu pai, Bruce, e sua mãe, Helen.

Já na abertura, esse momento descontraído é rapidamente quebrado por ordens e trabalho na restauração sem fim da velha casa onde vivem. Esse segundo momento é o que dá o tom do relacionamento.

Para reforçar, quase não há sorrisos nos rostos dos personagens ao longo de todo o álbum. Em geral, as expressões são entediadas, mesmo quando os momentos são bons e confessadamente agradáveis, como Bruce lendo uma história para a filha dormir.

Conscientemente ou não, isso faz com que se destaque de maneira ainda mais estranha o único momento de sorrisos abertos na HQ, em uma situação muito inadequada: quando personagens precisam encarar uma morte.

Fun Home é um álbum de personalidade forte. É verborrágico, com pouquíssimos quadros sem recordatório. No começo, muitas vezes o desenho apenas ilustra o que os recordatórios narram. O texto poderia contar a história sozinho.

Mas, com o passar das páginas, ele vai se tornando uma interpretação psicológica da trama. A partir daí, desenhos e recordatórios narram coisas diferentes ou complementares.

As referências literárias são numerosas, espelhando a adoração de pai e filha pelos livros. Elas entram no texto para comparações e metáforas, como Em Busca do Tempo Perdido, de Proust; O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald; ou Ulisses, de James Joyce.

A HQ começa e termina num paralelo com a história grega de Ícaro, que construiu asas para voar, mas chegou perto demais do sol – a cena de abertura também ecoa no desfecho.

Reproduções de trechos inteiros de obras surgem como páginas desenhadas – assim como verbetes de dicionários, cartas e páginas de diários. E nenhum livro lido pelos personagens aparece nos quadros sem o devido título na capa: Ana Karenina, de Tolstói; O Tambor, de Gunter Grass; O Mito de Sisifo, de Albert Camus; Delta de Vênus, de Anais Nin; e vários outros.

A narrativa não é linear: vai e volta no tempo, guiada pelo assunto em pauta, mas, principalmente, pela reflexões que os temas inspiram. Do meio para o fim, Alison Bechdel não apenas narra uma história, mas faz uma grande (e talvez até excessiva) autoanálise que traça paralelos e contrastes entre a história dela e a de seu pai, os interesses de cada um pela literatura, a sexualidade de um e de outro, a autoaceitação.

A sinceridade do relato parece evidente e o tom reflexivo ajuda ao reforçar que a obra se trata de uma impressão muito pessoal. Alison se questiona várias vezes e as feridas não parecem cicatrizadas – a HQ é dedicada à mãe e aos dois irmãos (mas não ao pai), com um “nos divertimos muito, apesar de tudo”.

A narrativa ainda usa o artifício de jogar informações reveladoras de maneira quase casual. Como quem não quer nada, surge no texto o comentário de que alguém transa com rapazes adolescentes, ou que o pai está morto e, ainda por cima, pode ter sido um suicídio. E só depois esse assunto é abordado em profundidade.

Fun Home alcançou glórias pouco comuns para uma HQ. Ganhou o Eisner de melhor trabalho baseado em uma história real e entrou em listas de várias publicações de melhores livros de 2006, ano da publicação original (ao lado de obras da literatura em prosa), chegando a ser eleito livro do ano pela revista Time. E gerou um musical que ganhou cinco Tony Awards, principal prêmio do teatro americano, em 2015. Teve uma continuação: Você É Minha Mãe? – Um Drama em Quadrinhos, que saiu por aqui em 2013, pela Quadrinhos em Cia.

Esta edição da Todavia, com orelhas, é a segunda no Brasil – a primeira, pela Conrad, é de 2007. Mantém, como a anterior, o título original, que é um trocadilho intraduzível: Fun Home (“casa divertida”) é uma ironia com “funeral home” (ou “casa funerária”). Ironia que está presente também no subtítulo Uma Tragicomédia em Família: há muito pouco de comédia na obra. Mas há muito de humanidade – com suas incoerências, bizarrices, dúvidas, aproximações e distanciamentos.

Classificação:

5,0

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