Fun Home – Uma Tragicomédia em Família

Por Eduardo Nasi
Data: 14 dezembro, 2007

Fun Home - Uma Tragicomédia em FamíliaEditora: Conrad Editora – Edição especial

Autora: Alison Bechdel (texto e arte);

Preço: R$ 42,90

Número de páginas: 228

Data de lançamento: Novembro de 2007

Sinopse

Alison Bechdel relembra em um álbum autobiográfico os anos em que cresceu numa casa velha, transformada num casarão requintado e cheio de detalhes por seu pai, um professor de inglês que esconde a homossexualidade.

A misteriosa morte do pai, talvez por suicídio, é o ponto central da narrativa e conduz à grande descoberta da própria autora: ela também se sente atraída por pessoas do mesmo sexo.

Positivo/Negativo

Fun Home é um pequeno e admirável álbum que coleciona elogios. Não só pela HQ em si, que já chega com o aval do prêmio Eisner, incensamento da crítica e até título de melhor livro de 2006 segundo a revista Time, em disputa com toda a ficção em prosa norte-americana (incluindo os autores Dave Eggers e Cormac McCarthy). Mas também pelo trabalho primoroso da versão brasileira, coordenada pelo editor Alexandre Boide para a Conrad.

A tradução de André Conti é deliciosa, fluida, segura a verve literária do texto original, fortíssimo. É quase impecável. Só tropeça ao misturar os conceitos de “charge” (humor gráfico com pegada política, pontual e perecível) com o de “cartum” (perene e universal) nas referências a Charles Addams (p. 40). Trata-se, fique claro, de algo que não atrapalha em nada o grande mérito de verter as frases sem perder o vigor.

Lilian Mitsunaga, mais uma vez, dá um show de letreiramento: ela retoma as fontes originais, as adapta com equilíbrio e mestria, como se aquelas palavras estivessem lá desde sempre.

A preocupação com a versão é fundamental em uma obra sensível e delicada como Fun Home. Maltratada, a HQ simplesmente deixaria de funcionar. Não é o caso. Lê-la é ter contato com um texto sutil, com força literária, que não é toda hora que se vê nos quadrinhos.

Ao final do primeiro capítulo, o leitor já se encontra tomado pela voz única e verdadeira de Alison. É um trabalho confessional corajoso e profundo, não só dela, mas de toda a sua família.

É mais para frente, quando a trama já está rumando ao final, que fica o único porém à obra: em alguns trechos, Alison parece se perder e falar demais, dando voltas na própria história.

O resultado, de qualquer maneira, é grandioso: ao abrir às portas de sua casa bizarra, Alison se expõe até onde pode (por exemplo: não mostra cenas de sexo além das suas próprias). Revela-se falha, com defeitos, hesita, mas não deixa de ser transparente nunca.

Em um mundo mentiroso, hipócrita e asséptico, Fun Home brilha por ser uma HQ – e uma obra de ficção – explicitamente humana. É o subtítulo do álbum, Uma tragicomédia em família, quem acaba entregando o jogo. De “comédia”, a tragédia de Fun Home não teria nada. Mas tem: como fala de gente de verdade, sobra espaço pro velho clichê do rir pra não chorar.

Classificação

5,0

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