GEMMA BOVERY

Por Mário César
Data: 1 dezembro, 2007


Título: GEMMA BOVERY (Conrad
Editora
) – Edição especial

Autora: Posy Simmonds (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 38,90

Número de páginas: 120

Data de lançamento: Agosto de 2006

Sinopse: Será uma simples coincidência que Gemma Bovery tenha um nome tão parecido com a famosa heroína de Flaubert? Será por acaso que, como Madame Bovary, ela seja uma mulher entediada e adúltera? Será que está inevitavelmente condenada a um final trágico?

Gemma é a segunda esposa de Charlie Bovery, a relutante madrasta de seus filhos, a grande rival de sua ex-mulher. Graças a uma mudança inesperada de rumo, o desgosto por sua vida em Londres a leva, junto com o marido, para o outro lado do Canal da Mancha, para a Normandia. Mas logo o charme da vida interiorana na França começa a se esgotar.

Já o vizinho francês dos Bovery, o letrado padeiro Joubert, não consegue esconder sua fascinação por Gemma. Apesar de negar sua obsessão voyeurística, acompanha cada mudança na aparência da vizinha, cada nova aquisição para seu guarda-roupa e cada um de seus encontros indiscretos.

Com a ajuda dos diários de Gemma, Joubert narra seu caminho em direção à ruína.

Positivo/Negativo: Gemma Bovery chama a atenção logo de cara por seu formato diferente (18 x 30 cm), mas o que mais se destaca neste trabalho é a forma como sua autora mescla quadrinhos com literatura tradicional.

Alguns autores já experimentaram inserir páginas inteiras de texto no meio de uma história em quadrinhos antes, como Terry Moore em Estranhos no Paraíso ou Dave Sim em Cerebus. Entretanto, Simmonds vai além dessas experimentações e mescla com extrema naturalidade HQ e prosa numa mesma página. E faz isso praticamente no livro todo, criando uma obra híbrida difícil de ser classificada.

O roteiro também desafia a lógica tradicional ao oscilar entre a paródia, a adaptação para os dias atuais e a criação de uma história completamente independente do clássico Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

O romance de Flaubert é considerado a primeira obra da literatura realista e provocou grande furor na época de seu lançamento (1857) ao criticar severamente o clero e a burguesia e ao tratar de forma crua assuntos como adultério. O escândalo foi tão grande que levou seu autor a julgamento por acusação de ofensa à moral e à religião.

Simmonds transporta elementos do clássico de Flaubert para a Europa atual e mira suas críticas nos yuppies, a juventude urbana de classes média e alta viciada em trabalho e em tendências de moda.

Nos desenhos, a autora apresenta um traço bastante agradável, no qual mistura cenários realistas com personagens estilizados e faz um bom uso de tons de cinza para trabalhar a profundidade e a iluminação das cenas. Uma cartunista de mão cheia.

O resultado final é uma inteligente sátira de costumes cheia de referências à obra de Flaubert, mas, ao mesmo tempo, com uma identidade própria. A edição da Conrad faz jus ao material e tem capricho habitual da editora com publicações voltadas para o nicho das livrarias e lojas especializadas.

Um trabalho diferente que testa os limites da linguagem tanto dos quadrinhos como da literatura.

Classificação:

4,0

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