Gibi Semanal # 30

Por Marcelo Naranjo
Data: 23 março, 2012

Gibi Semanal # 30Editora: RGE – Revista mensal

Autores: Dick Tracy – Chester Gould (roteiro e arte);

Ferdinando – Al Capp (roteiro e arte);

The Spirit – Will Eisner (roteiro e arte).

Preço: Cr$ 4,00 (preço da época)

Número de páginas: 32

Data de lançamento: Maio de 1975

Sinopse

Coletânea de diversas séries clássicas, a maioria publicada originalmente como tira diária ou página dominical.

Positivo/Negativo

“Um barato esta edição!” é o que consta na capa deste Gibi Semanal (confira todas as capas da série nesta coluna). Mais que um “barato”, é uma revista cheia de curiosidades, pois o conteúdo deste número é resultado de uma feliz escolha editorial.

O destaque fica para as três HQs principais – e o divertido e surpreendente elo que as une.

Começando com Dick Tracy, o policial durão que tanto sucesso fez a partir da década de 1930. Os teóricos em quadrinhos são praticamente unânimes em afirmar que, apesar da arte não ser exatamente o forte de Chester Gould (1900 – 1985), especialmente se comparada à de renomados autores dos comics de sua época, outras qualidades compensavam – e muito – esse detalhe. Dentre elas, a excelência de sua linha narrativa, seu ótimo domínio do espaço e sua capacidade de equilibrar texto e desenhos.

Na HQ desta edição, o criminoso “Steve Trapaça” é solto após cumprir pena, e decide se regenerar. Sem querer, ele atrai encrenca, na forma de Duke, ladrão e batedor de carteiras que quase faz com que Steve seja incriminado.

Tracy tenta capturar Duke sem sucesso, e este, na ânsia de fugir, pede ajuda para outro gatuno, o Toupeira, que, como o nome sugere, se esconde nos subsolos da cidade.

Mas o Toupeira acaba matando Duke para ficar com seu dinheiro e, após ser localizado por Tracy, depois de um embate em que quase consegue fugir, acaba sucumbindo ao braço forte da lei, que tem em Dick Tracy seu grande representante.

O Toupeira é um personagem que faz parte de um dos pontos fortes da séria criada por Gould: seus vilões caricatos e bizarros, que faziam grande sucesso.

Gibi Semana # 30 - arte de Chester Gould

Produto de seu tempo, da famosa Chicago dos gângsteres e da lei seca, Dick Tracy logo ganhou fama mundial. De acordo com o professor Álvaro de Moya, “Como reflexo da lei seca e do gangsterismo, surge o desenho rude e violento, em traço seco, de Chester Gould, a imagem do detetive, figura que determinaria a personagem realista do detetive marginal, particular, semipolicial, de toda a literatura do gênero, tirando-a do ranço sherlockiano de Conan Doyle. O fim do raciocínio, o início da ação” (Shazam!, 1977, Editora Perspectiva).

Tal era o sucesso de Dick Tracy, que ele acabou sendo parodiado por outro quadrinhista norte-americano, cujo trabalho tinha tanta repercussão quanto o detetive criado por Chester Gould. Seu nome? Al Capp (1909 – 1980), criador do caipira Ferdinando (Li’l Abner, no original).

Na época, pouco escapava da veia satírica de Capp, que “tirava sarro” até dos quadrinhos em destaque na época. Assim, Dick Tracy foi retratado na forma de Joe Cometa (Fearless Fosdick, no original), um atrapalhado detetive que era a leitura favorita de Ferdinando – ou seja, ficção dentro da ficção.

Na segunda HQ em destaque nesta edição, Ferdinando acompanha mais uma aventura de seu “herói favorito”, na qual Joe Cometa se vê “traído” por sua noiva – na verdade, um estratagema dela para ver se ele decide se casar, pois são 17 anos de noivado.

Sentindo-se abandonado, o detetive encontra consolo na figura de um cachorro que lhe traz comida, diversão e, ainda por cima, resolve crimes que o atrapalhado agente da lei não teria capacidade para tanto.

Mesmo assim, Cometa é demitido, mas, com a ajuda do cão, consegue capturar vilões e receber vultosas recompensas, o que atrai a atenção de seu pai, um pilantra que o havia abandonado com um mês de idade – nada que não pudesse ser perdoado, mas a verdade é que o detetive já havia gastado toda a grana.

Sobre essa paródia que virou uma constante, Chester Gould chegou a elogiar Capp, dizendo que era o único cartunista que fazia assessoria de imprensa em tempo integral para outro colega de profissão.

Gibi Semanal # 30 - arte de Al Capp

E então vem a terceira HQ em destaque, de ninguém menos que o mestre Will Eisner (1917 – 2005), com o Spirit – identidade secreta de Denny Colt, detetive que se finge de morto e vive num cemitério, para facilitar sua vida de combate ao crime.

Na trama, o Spirit investiga o assassinato do cartunista “Al Slapp”, criador de “Li’l Adam – O estúpido garoto da montanha” – obviamente, uma sátira a Al Capp. Dentre os suspeitos, “Elmer Hay”, criador de “A pequena Brenda sem lar” e “Hector Ghoul”, criador do detetive “Nick Stacy”.

Assim, com seu estilo gráfico inigualável e numa paródia dentro da paródia, Eisner brinca com a figura de “Elmer Hay”, que remete a Harold Gray, criador de Aninha, a Órfã (Little Orphan Annie, no original, outro grande sucesso norte-americano em décadas passadas).

Satirizando até o estilo de desenho de Gray, Eisner faz os olhos dos personagens parecerem botões. E “Hector Ghoul” seria Chester Gould, desenhado à semelhança de Dick Tracy.

Os dois são suspeitos do crime, pois o motivo seria que o cartunista “Al Slapp” (que é desenhado por Eisner no estilo do próprio Capp) fazia versões satíricas de suas criações, as quais, por fazer mais sucesso que os “originais”, estariam roubando o público leitor.

No final, Spirit descobre que o verdadeiro culpado pela tentativa de assassinato (pois “Al Slapp” tinha escapado por pouco) era Matrix, diretor do “Knight Featura Syndicate”, pertencente a “Richard Headline Smirch”. O motivo? Slapp pretendia assinar com o concorrente, “Hobart D. McDornick”. Tudo isso uma brincadeira com o sindicato distribuidor de quadrinhos King Features Syndicate, seu dono, William Randolph Hearst e seu concorrente, Robert R. McCormick.

Eisner conta que essa HQ surgiu a partir de uma ligação que recebeu de Al Capp, que comentou de sua sátira de Dick Tracy e sugeriu que ambos fizessem algo semelhante, um do outro, de seus personagens.

O criador do Spirit adorou a ideia – naquela época, ele ainda não era tão conhecido, enquanto Capp era um dos grandes nomes do meio. Eisner fez a HQ e o assunto chegou a ser matéria da revista Newsweek. Porém, Capp nunca fez sua sátira de Spirit.

Sem Eisner saber, sua trama de certa forma colaborou com Capp, que estava processando o United Features Syndicate, pedindo indenização, término do contrato e o retorno de todos os direitos sobre Ferdinando.

Eisner admite ter ficado chateado por não ter tido a contrapartida de Al Capp nos quadrinhos, mas acreditava que o criador de Ferdinando teria lhe dito que foi um favor. Afinal, ele conseguiu publicidade sem ter que pagar por isso – confira o desenrolar de toda essa história (em inglês) clicando aqui.

Não bastasse tudo isso, o leitor deste número do Gibi Semanal se diverte ainda com as tiras e páginas dominicais de Peanuts, Frank e Ernest, Brucutu, Chico Peste, Mãe!, Versus, Os Trogloditas, Touro-Sentado e Beco Americano.

Ou seja, mais que uma baita edição, um verdadeiro testemunho da História das histórias em quadrinhos.

Classificação

4,5

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