A gigantesca barba do mal

Por Audaci Junior
Data: 9 dezembro, 2016

A gigantesca barba do malEditora: Nemo – Edição especial

Autores: Stephen Collins (roteiro e arte) – Originalmente em The Gigantic Beard That Was Evil (tradução de Eduardo Soares).

Preço: R$ 39,80

Número de páginas: 240

Data de lançamento: Outubro de 2016

Sinopse

Na ilha de Aqui, tudo é meticulosamente organizado e certinho. As ruas são asseadas, a grama é bem aparada e os homens são rigorosamente barbeados.

Dave não foge à regra. Tem um emprego que lhe permite pôr em prática todo o seu senso de organização, bem como distrair a mente de pensamentos indesejáveis, e encontra paz numa rotina totalmente ordeira.

Num dia fatídico, porém, Dave se vê como a raiz de um gigantesco problema: uma barba que irrompe de seus poros e desafia a lógica e a ciência. Logo ela se tornará uma questão de segurança pública e irá abalar as estruturas de Aqui, figurativa e literalmente.

Positivo/Negativo

Inicialmente, voltando no túnel do tempo, pode-se associar uma longa e desgrenhada barba aos nossos ancestrais pré-históricos. “Selvagens”, eles buscavam conhecimento e vieram a descobrir – como os indícios atestam – que, ainda na Era Paleolítica, poderiam usufruir das várias utilidades para o fio de uma pedra bem lapidada e afiada. Dentre eles, aparar os pelos do próprio rosto.

Com o tempo, a barba foi moldando não apenas a face, mas também valores estéticos, sociais, políticos, comportamentais e até religiosos da humanidade.

A ausência e presença de pelos no corpo serviam para separar as classes no Egito Antigo. A barba era sinal de sabedoria ou status político na civilização grega e romana. Atravessando a Idade Média, a Igreja católica aconselhava seus clérigos a fazer a barba para diferenciá-los dos membros da Igreja Ortodoxa ou de qualquer outro segmento religioso.

Atualmente, a barba não deixou esses significados para trás, o que levou o britânico Stephen Collins a afiar o fio da navalha para a fábula de um mundo onde a ordem e a perfeição predominam, inclusive a estética de um rosto liso e sem pelos.

O universo em A gigantesca barba do mal é uma ilha denominada Aqui, que pode muito bem ser entendida como uma crítica ao nosso tempo. Isolados, seus habitantes também costumam se ilhar socialmente, olhando apenas para seus próprios umbigos.

Geograficamente (ou não, se for seguir a metáfora), depois do mar que envolve a ilha existe o Lá, onde a maioria acredita que prevaleça o caos e a desordem. Como a morte, quem se aventurou nunca mais voltou para contar sobre esse assunto maldito e evitado para a sociedade de Aqui.

Dave, o protagonista, tem uma vida sem graça preenchida com a ida ao trabalho e volta pra casa, com uma parada na lanchonete entre o percurso. Seu escapismo é defenestrar seu olhar para fazer desenhos do que acontece lá fora da sua casa. Não que aconteça nada extraordinário na rua, inclusive.

Sempre ligada no repeat, a trilha sonora para seus momentos de lazer é a romântica Eternal flame, hit do quarteto feminino estadunidense The Bangles, que se popularizou por aqui no final dos anos 1980, em virtude de fazer parte da telenovela Que Rei Sou Eu?.

Tudo que está na obra é uma crítica, velada ou não, à atualidade. A forma como o quadrinhista trata o trabalho do protagonista não deixa de ser a mesma que Chaplin apresentou no clássico Tempos Modernos (1936), porém com outra abordagem, mais intelectual do que mecânica: a forma (organizada) que os cidadãos de Aqui priorizam o conteúdo.

Quando o pelinho no buço de Dave – que insiste em sobressair mesmo depois de se barbear – começa a “rebelião” no seu rosto, aos poucos “o elefante na sala de estar” começa a dançar e o niilismo se instala.

Como trocar a posição dos braços cruzados, a quebra de rotina do povo de Aqui provoca a histeria em massa reprimida conforme os selvagens e indomáveis pelos de Dave não param de crescer, como uma bola de neve negra, fazendo jus ao adjetivo usado no título.

Além do personagem principal, outro destaque na obra é o aproveitador professor de filosofia Darren Black, uma espécie de guru intelectual da ilha. A espetacularização de consumo, o preconceito, o sensacionalismo e a hipocrisia são escovadas por Collins, que apara seu humor na base da reflexão e da metáfora.

Com um traço firme e cartunesco, o autor brinca com a diagramação (a exemplo da grade de desenhos feitas pelo personagem que reproduz o formato da sua janela), deixa o seu storytelling bem cinematográfico, além de disponibilizar os painéis subdividindo o mesmo desenho pra desencadear um movimento de angulação ou uma ação cronológica (como o crescimento da barba) ou ainda fazer contrastes (o rosto de Dave com e sem a peruca).

A edição em brochura da Nemo tem formato 17 x 24 cm, capa cartonada com orelhas e papel pólen de gramatura mediana e impressão (em algumas vezes, atrapalha a “transparência” do papel).

Indicada ao Eisner Awards de Melhor Álbum Inédito, talvez a maior metáfora na premiada HQ de estreia de Stephen Collins esteja colocada caoticamente nas suas melancólicas páginas finais. Qual será o mistério que está escondido atrás da pele, atrás da vida?

Classificação

4,0

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  • Cool Jam 97

    Eu acho que faltou dizer no texto a crítica que o autor faz às questões ligadas ao terrorismo, ao patriotismo cultural exacerbado e à xenofobia, que são os temas principais abordados nesta hq.