Gotham DPGC – Alvos fáceis

Por Audaci Junior
Data: 23 dezembro, 2016

Gotham DPGC – Alvos fáceisEditora: Panini Comics – Série em quatro volumes

Autores: Ed Brubaker e Greg Rucka (roteiro), Michael Lark, Greg Scott, Brian Hurtt e Stefano Gaudiano (arte) e Lee Loughridge (cores) – Originalmente em Gotham Central # 11 a # 22 (tradução de Fabiano Denardin, Fernando Lopes, Mario Luiz C. Barroso e Helcio de Carvalho).

Preço: R$ 80,00

Número de páginas: 292

Data de lançamento: Agosto de 2016

Sinopse

Continua complicado ser um homem da lei em Gotham. Como se não bastasse lidar com a violência e a corrupção de uma cidade infestada pelo crime (e com os criminosos mais insanos e cruéis da história), é preciso também levar em conta um vigilante decidido a jogar pelas próprias regras.

Para piorar a situação, o Coringa está aterrorizando a cidade na época de Natal, executando pessoas aleatoriamente com um rifle. E ninguém, do prefeito ao cidadão mais comum, está a salvo. A caçada começa, mas uma atitude desconcertante do Palhaço do Crime deixa todos perplexos. O que o arqui-inimigo do Morcego realmente pretende?

Completam o volume a história da garota que tem como trabalho ligar o batsinal, uma série de assassinatos que acaba chamando a atenção da Caçadora e um velho e inacabado caso ameaça piorar (ainda mais) a vida do ex-detetive Harvey Bullock.

Positivo/Negativo

Mais uma leva de casos do constantemente atribulado cotidiano policial da cidade de Gotham. Como as oportunidades de um em um milhão dos cidadãos verem o vigilante da cidade em ação numa hipótese real, o leitor é colocado como parte dessa estimativa, mesmo juntos dos detetives genuinamente diplomados.

Somando-se as páginas em que Batman dá o ar da sua graça, não chega a meia dúzia. Isso mede a tentativa de se ter uma “aproximação” da série criada pela dupla Brubaker e Rucka com o “mundo real”. Tanto que os casos apresentados poderiam ser corriqueiros para o dia a dia da Unidade de Crimes Hediondos (UCH) de uma grande metrópole e seus problemas.

Isso não implica em retirar o timbre agudo da fantasia de qualquer título de super-heróis que se preze. Os coadjuvantes de luxo, frente ao protagonismo dos policiais, são os vilões e, eventualmente, outros vigilantes de Gotham.

No arco principal, que batiza o volume, é comum os noticiários norte-americanos relatarem assassinatos “aleatórios” por atiradores. Mas quem segura um rifle de precisão é o maior inimigo do Morcego.

Um planejamento semelhante do Coringa para espalhar o pânico na cidade pode ser presenciada no longa-metragem de Christopher Nolan, Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), lançado posteriormente ao arco.

A imprevisibilidade do vilão, o esforço dos detetives para conter o medo coletivo e as decisões equivocadas partindo do gabinete de um prefeito interino que não quer arranhar mais a sua imagem política em pleno Natal são os destaques da trama.

Pode ser por conveniência narrativa, mas o que destoa da pegada “realista” é a gangue dos palhaços do Coringa estar sempre de cara pintada e como manda o figurino de capangas temáticos, mesmo que seja descansando no esconderijo. Isso causa estranheza frente à atmosfera do título.

Por ter um grande elenco de personagens, há novas baixas nesta edição. O que pode não comover ou abalar diretamente o leitor é usado para acrescentar mais camadas aos outros posteriormente.

Os três arcos apresentados neste segundo volume já tinham sido publicadas por aqui nas edições # 11 (2006) e # 13 (2007) do título DC Especial (Panini), sob o título Gotham City contra o crime.

A estilizada arte de Michael Lark (que hegemoniza o encadernado junto com o nanquim de Stefano Gaudiano) é mais bem aproveitada na boa impressão em papel couché do que em pisa brite, o “papel jornal” predominante na linha DC Especial.

Seus desenhos podem até causar uma hesitação para distinguir um personagem de outro com semelhanças físicas, mas a sua diagramação funcional e a plasticidade da narrativa está acima de muitos quadrinhistas da indústria.

O estilo noir carregado de tinta de Lark e Gaudiano sobra, se comparado aos desenhistas “tapa-buracos” presentes nesta edição. Brian Hurtt não faz feio, mas também não impressiona no interlúdio explorando as fantasias sexuais de Stacy, a recepcionista civil que tem permissão legal de ligar o batsinal.

O problema maior está em Greg Scott, que pega todo o arco intitulado A vida é cheia de armadilhas. Mesmo carregando igualmente na tinta, seu traço não tem expressividade, algo grave por causa dos ângulos mais fechados nos personagens.

Scott abandona a coerência narrativa em determinadas ações, vide a prisão de um taxista acusado de assassinato, uma sequência confusa e sem propósito de composição. Ou ainda custa notar (se é que o leitor menos atento o fez) a cuspida de café da detetive, quando o seu parceiro fala quanto de dinheiro perdeu no carteado.

Com exceção de uma aparição relâmpago da Caçadora para passar uma dica por causa da sua ligação com a máfia, esse arco é o mais “pé no chão”, sem intervenção ou participação de vilões do alto escalão. Aqui é explorado um pouco mais o personagem de Vincent del Arrazio, segundo em comando do primeiro turno do DPGC.

Algumas sequelas do arco anterior também são bem explorados na sequência, com destaque para o sargento Jackson Davies, o Sarja. Nele, Brubaker (responsável pelo roteiro de abertura) aprofunda sua conduta e seus problemas, cujo peso jogado das manobras políticas pode ser descarregado num pobre policial na cena do crime.

Também há espaço para rezar o velho clichê dos ocupados detetives e o sacrifício de abrir mão de atividades familiares importantes. Aquele batido empurrãozinho do parceiro também vem nessa ladainha.

Cuidando de cada investigação específica que pode envolver mais de uma dupla de detetives, Brubaker e Rucka deixam de lado alguns que vão (ou já foram) ser focados mais a frente na série.

É o caso de Renee Montoya, protagonista do arco Meia vida, do primeiro volume. Em Não resolvido, ela tem uma participação mínima, porém vital, visto que o ex-detetive Harvey Bullock aparece para exorcizar os fantasmas do passado.

Com a volta do traço noir bem marcado de Lark e Gaudiano, neste arco escrito apenas por Ed Brubaker se destacam os diálogos que dão credibilidade e voz aos personagens, como o jogo de manipulação que o detetive Marcus Driver tenta dar no seu superior, o esperto tenente Cornwell.

O que começa com uma chamada para uma ocorrência com reféns numa lanchonete, vai se desenvolvendo para algo mais tenebroso, envolvendo uma explosão que matou um grupo de desportistas colegiais. As pistas levam ao Chapeleiro Louco no Asilo Arkham, onde o conceito vindo da boca de policiais experientes é mais assustador do que o cenário montado com a arte de Lark.

Temas como o bullying, o ultraconservadorismo típico de uma boa parte da população norte-americana, deficiências estruturais e mentais são cruzadas com os “heróis” de distintivos que podem cometer falhas – tanto no passado quanto no presente – e serem figuras ao mesmo tempo fortes e autodestrutivas.

Típico policial durão de capote, o perfil de Bullock é bem explorado com um link que foi o estopim para seu afastamento precoce: as consequências de quando o comissário James Gordon foi baleado. Apesar de não ser citado, o arco escrito por Rucka, parceiro de Brubaker, foi publicado por aqui no # 22 da revista Super-Heróis Premium – Batman (Abril, 2002).

Como curiosidade, é citada a saga Terremoto (lançada pela Abril, em formatinho, no final dos anos 1990, e agora chamada de Cataclismo, na coleção especial da Eaglemoss, publicada em 2016) como possível justificativa de problemas para encontrar provas nos arquivos do departamento.

Além das capas originais, completando a edição luxuosa da Panini em capa dura e formato 17 x 26 cm, biografia dos principais autores, um prefácio assinado pelo romancista Duane Swierczynski, escritor da série Aves de Rapina de Os Novos 52!, e um bem-vindo quadro de “quem é quem” que faltou no volume de estreia. Nessa seção, o editor poderia ter colocado mais informações pertinentes aos personagens que vão além da ocupação e parceria nos casos.

Com o mesmo ambiente de verossimilhança, certa independência junto ao Universo DC e a ênfase no tino detetivesco – uma das características por vezes deixada de lado do Batman – Alvos fáceis não fica devendo a nenhuma obra policialesca vista por ai, pelos cantos do noir.

Classificação

4,0

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