A Guerra de Alan

Por Delfin
Data: 17 dezembro, 2010

A Guerra de AlanEditora: Zarabatana Books – Edição especial

Autor: Emmanuel Guibert (texto e arte).

Preço: R$ 49,00

Número de páginas: 336

Data de lançamento: Outubro de 2010

Sinopse

Relato das memórias do soldado estadunidense Alan Ingram Cope durante o período da Segunda Guerra Mundial, bem como as consequências desse período para a sua vida.

Positivo/Negativo

O que é a guerra? Uma batalha por um ideal? Uma luta por um objetivo nacional que transcende o lado pessoal? Um conflito cujo intento definirá toda uma geração de pessoas?

Muitos dizem, e até dicionaristas concordam, que guerra é a arte militar.

Mas não a arte de pintores, poetas e músicos. O que leva a pensar: o que é arte?

Uma das definições mais abrangentes diz que é o conjunto de preceitos, regras e técnicas indispensáveis para a realização de qualquer ofício. Nesse sentido, a guerra é o lugar em que os militares podem demonstrar suas capacidade e aptidões de aplicar seus conhecimentos e habilidades na execução de uma ideia.

Só que é um conceito que pode, perceba, ser aplicado a qualquer ofício, seja ele criativo ou técnico. Então, a arte, mesmo a da guerra, é elemento indissolúvel dos homens e de sua vida.

O que leva direto a outro pensamento: o que é a vida?

Guerras dificilmente podem ser chamadas de justas. Sempre há mortos e feridos, vencedores e vencidos. Dizem que é da natureza humana duelar, pelos motivos mais irrisórios.

Mas esqueça tudo isso. A guerra, como você a conhece, não é a guerra de Alan Ingram Cope.

Alan não entrou numa guerra porque quis. Foi convocado. Tinha 18 anos, idade em que a maioria dos governos considera que o ser humano é adulto e apto para todas as atividades, inclusive morrer pelo seu país.

No entanto, Alan nunca teve medo de morrer. Talvez aí resida o segredo de sua visão muito particular da Segunda Guerra Mundial, que ele vivenciou em seu momento final, após 1944.

Todos os relatos de Alan Cope foram registrados em numerosas gravações, em tom de confidência, feitas ao amigo Emmanuel Guibert, que teve a ideia de colocar aquelas narrativas em quadrinhos, com o consentimento do biografado.

Como já foi dito algumas vezes em resenhas do Universo HQ, a publicação de quadrinhos biográficos está em alta no Brasil. Mas A guerra de Alan é um pouco diferente.

A começar por não ser um quadrinho autobiográfico, o que dá ao autor uma margem maior de isenção. O envolvimento com o protagonista, contudo, faz com que Guibert opte por narrar o que lhe foi confiado do mesmo modo que ouviu, como ele confessa em seu prefácio.

Desse modo, o leitor poderá ter, tão fiel quanto isso é possível, o mesmo impacto que o autor teve ao ouvir a história de Alan.

A arte de Guibert é meticulosa, apesar de não definir, propositalmente, grandes detalhes dos rostos que ele não tinha referência fotográfica. Segundo o autor, isso dá ao leitor a margem correta para que imagine os detalhes à sua maneira.

Também correta é a abordagem de não tornar a narrativa um documentário visual, coisa que ele poderia ter feito com relativa facilidade. Em vez disso, buscou apenas referências o mais corretas possíveis quanto a cenários e paisagens gerais, mas, novamente, sem inserir grandes detalhes visuais nessa conta.

Assim, o álbum possui uma narrativa realista que, ao mesmo tempo, tem a sutileza dos quadrinhos juvenis franco-belgas – uma mistura que caiu bem.

Vale novamente destacar o trabalho da Zarabatana, que pesquisou as edições existentes da obra e reuniu, na brasileira, as páginas coloridas e o álbum de fotos de Alan Cope, que, juntas, não estão presentes em nenhuma outra versão do mundo.

Mas o mais interessante do álbum é que trata-se de um relato de guerra que não tem o foco na batalha, nem no patriotismo, tampouco nos ideais em jogo no conflito. São mostrados, no decorrer das páginas, episódios pessoais vividos por Alan (ou, em alguns casos, como lhe foram narrados). Pequenas histórias que, de um modo ou de outro, marcaram a passagem do soldado pela guerra europeia. Algumas tolas, outras vitais para a sua trajetória de vida.

E eis a palavra-chave de novo: vida.

O que o leitor acompanha em A guerra de Alan é uma vida, com suas dúvidas, erros, riscos, diversões, amores e tolices. Uma narrativa com ideias, opiniões e sem receios. Um relato confessional de um homem que, ao olhar para o passado, conseguiu deixar como legado sua própria história, inspiradora para aqueles que, mesmo nos momentos mais difíceis, conseguem perceber que viver uma boa vida é um propósito maior do que a pátria ou a guerra.

Classificação

4,0

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