He done her wrong

Por Milena Azevedo
Data: 10 julho, 2013

He done her wrongEditora: Fantagraphics Books – Edição especial

Autor: Milt Gross (argumento e arte)

Preço: US$ 16,95

Número de páginas: 528

Data de lançamento: Março de 2006

Sinopse

As desventuras de um ingênuo lenhador com força sobre-humana, explorado por um maligno barão, que engana sua garota e a leva para morar na cidade grande.

Positivo/Negativo

Décadas antes de Will Eisner publicar Um contrato com Deus, em 1978, as graphic novels já ensaiavam seu início.

As primeiras narrativas gráficas a se diferenciar das tiras humorísticas dos jornais traziam uma história fechada e sem palavras, aproximando-se da estética do cinema mudo.

O pioneiro das wordless novels (romances sem palavras, numa tradução literal) foi o belga Frans Masereel, que, no final da década de 1910, criou belos livros compostos de um quadro por página, com um marcado estilo expressionista.

O conceito da wordless novel chegou aos Estados Unidos na década seguinte, com Lynd Ward inovando ao produzir as ilustrações com a técnica da xilogravura.

Tanto Masereel quanto Ward desenvolveram histórias sérias, fazendo críticas sociais e morais ou traçando a árdua jornada do artista até seu reconhecimento profissional.

Em 1930, o cartunista Milt Gross resolveu parodiar as wordless novels, em especial God’s man, de Ward, e concebeu a obra-prima He done her wrong.

Ao empregar bico de pena e nanquim sobre papel, utilizar duas ou três cenas por página e até mesmo páginas duplas para dar continuidade à ação, Gross fez a ponte entre as wordless novels e os quadrinhos, influenciando uma gama de quadrinhistas de diferentes gerações, dentre eles o próprio Eisner, Eric Drooker e Peter Kuper.

A trama começa no norte dos Estados Unidos, quase fronteira com o Canadá, onde uma jovem corista se apresenta em um bar para lenhadores. Sua música comove os corações brutos, mas após o show logo eles partem para tirar uma casquinha da donzela.

A jovem é salva por um ingênuo caipira de força descomunal e ambos se apaixonam à primeira vista. No entanto, um maligno barão interrompe o momento feliz, convidando o rapaz a trabalhar em sua pequena empresa de peles, nas montanhas.

O barão enriquece explorando o rapaz e logo lhe aplica um golpe. Engana também a jovem corista, casa-se com ela e a leva para morar em Nova York.

Ao saber do ocorrido, o protagonista vai à cidade grande em busca de vingança e ao resgate de sua amada. A não familiaridade com o espaço urbano o fará passar por poucas e boas.

Em He done her wrong, Gross refinou sua arte de fazer gags, não se importando em burlar a perspectiva ou apresentar uma mistura de detalhamento visual com traços apressados; valia tudo para fazer o leitor gargalhar.

Gross era judeu e fez fama com suas tiras satíricas estreladas por personagens de narigões salientes, que traziam um linguajar peculiar (reproduzindo o jeito de falar dos guetos judeus), criando “iídichismos” clássicos, como: Is dis a system? (Isso é o sistema?), Dun’t esk (Nem pergunte) ou Nize Baby (Boa menina).

Além das tirinhas, Gross escreveu artigos de jornal, programas de rádio, trabalhou até em Hollywood, fazendo roteiros de filmes – uma de suas célebres colaborações no cinema foi em O Circo (1928), de Charlie Chaplin, e dirigiu animações.

Publicado com o subtítulo de The Great American Novel (O grande romance americano), em 1930, He done her wrong teve duas reedições, em 1971 e 1983 (esta última mudou o título para Hearts of gold), mas somente em 2006 ganhou sua verdadeira versão “sem cortes”, quando a Fantagraphics Books imprimiu todas as páginas que burlavam o politicamente correto, censuradas nas edições anteriores.

Isso porque Gross fez alusão aos maus tratos aos animais, à falta de jeito dos paramédicos e aos blackfaces (brancos que pintavam seus rostos de preto, numa caricatura estereotipada dos afro-americanos, ganhando popularidade nos shows de menestrel do início do Século 20), apelando em alguns momentos para a violência neurótica e caricata, empregada depois por Walter Lantz nos desenhos do Pica-Pau (Lantz e Gross chegaram produzir e dirigir animações para a mesma produtora, a Bray Productions, em meados da década de 1920).

A completa edição da Fantagraphics Books traz ainda um prefácio do editor Craig Yoe, e um posfácio do renomado desenhista, editor e professor Paul Karasik, que relembra as wordless novels de Lynd Ward que lia na adolescência, e de como as tiras do Milt Gross marcaram toda a sua família.

 

Classificação

5

 

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