Hellboy – In the Chapel of Moloch

Por Sérgio Codespoti
Data: 17 março, 2014

Hellboy - In the Chapel of MolochEditora: Dark Horse Comics – Edição especial

Autores: Mike Mignola (roteiro, desenhos, capa) e Dave Stewart (cores).

Preço: US$ 2,99

Número de páginas: 32

Data de lançamento: Outubro de 2008

Sinopse

Hellboy viaja para Tavira, em Portugal, no ano de 1992, para investigar o comportamento estranho de um pintor, que passa suas noites fechado à luz de velas numa antiga capela.

Positivo/Negativo

Hellboy – In the Chapel of Moloch é um especial que marcou o retorno de Mike Mignola aos desenhos da série, o que não ocorria desde 2005. A história corresponde à edição 36, na numeração cronológica das revistas do herói, que costuma vir marcada no alto, na segunda capa.

Esta HQ é uma homenagem de Mignola ao pintor espanhol Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828). Clique nas imagens da galeria para ampliar.

As imagens ao redor de Hellboy na capa, que está sem o logotipo na comparação abaixo para facilitar a visualização, são baseadas em gravuras da série Los Caprichos, a saber (da esquerda para a direita – os números no texto, dentro dos colchetes, são uma referência à ordem das gravuras de Goya): Unos a otros [77], Mucho hay que chupar [45] e Soplones [48]. Todas de 1799. O leitor mais atento notará que, junto à assinatura de Mignola, está identificado o artista original, com a inscrição After Goya (que pode ser traduzida como Baseado em Goya).

Comparação 01

Na terceira página da história, no primeiro quadro, Mignola sugere três pinturas, que apesar da simplicidade das formas do desenho, são facilmente identificadas como sendo (da esquerda para a direita): Volavérunt [61], Allá vá eso [66] e Tú que no puedes [42].

Comparação 02

No terceiro quadro da mesma página, as gravuras originais são: Chiton [28] e Hasta su abuelo [39].

Comparação 03

Na página seguinte, Mignola usa seu traço para copiar Goya de maneira genial. As imagens são (do primeiro ao quinto quadro): Si amanece, nos vamos [71], Nadie nos ha visto [79], Unos à otros [77], Soplones [48] e Se repulen [51].

O fato de o desenhista ter reproduzido, nos quatro primeiros quadros, apenas a porção central das imagens de Goya, somado ao uso exemplar da cor – aplicada com mestria por Dave Stewart – , cria um panorama grotesco e assustador que serve para criar todo o clima da HQ.

Comparação 04

A primeira imagem da quinta página, Mignola reproduz Ensayos [60], imagem que também está, parcialmente, na capa da HQ.

Comparação 05

Na sexta página, ele reproduz um detalhe de Soplones [48]; na sétima, Ensayos [60] volta a aparecer, desta vez como um esboço; na 12ª há um detalhe de Nadie nos ha visto [79]; e, para finalizar, na 20ª, ele utiliza um detalhe de Si amanece, nos vamos [71].

A sequência da página 14 mostra uma criatura agarrada às costas de Jerry, o pintor, sussurrando-lhe instruções. As imagens são reminiscentes da pintura Dos Viejos, também chamada de Un viejo y un fraile, que faz parte das chamadas “pinturas negras”, de Goya, produzidas entre 1819 e 1823.

Comparação 06

Los Caprichos é uma série de 80 gravuras feitas por Goya, entre 1797 e 1798 (e publicadas como um álbum em 1799), com Aquatinta, uma técnica alternativa à mais tradicional Água-forte. É uma sátira à sociedade espanhola, particularmente à nobreza, ao clero e ao apego às superstições. Pouco tempo após o início da oferta das gravuras para o público, em 1799, Goya removeu o conjunto, temendo a Inquisição.

Uma das gravuras mais conhecidas dessa série, El sueño de la razón produce monstruos [43], foi usada por Alan Moore, na revista O Monstro do Pântano.

Embora o enredo seja simples, existem vários méritos nessa história do ponto de vista da estética e da narrativa. Em primeiro lugar, obviamente, está o fato de que Mignola empregou as imagens de Goya com muita esperteza, tanto quanto a seleção das gravuras, quanto no seu emprego, para criar um clima que é, ao mesmo tempo, sacro e aterrorizante.

Em segundo, é preciso destacar tanto a técnica artística de Mignola, que à primeira vista emprega um traço bastante simplificado, mas que resulta em cenas de grande complexidade de detalhes (como na primeira página; ou nas reproduções de Goya, da página quatro), e no brilhantismo de sua narrativa, sempre sutil, que emprega muitos recursos que dependem de um uso parcimonioso das cores, resultado da afinada parceria do desenhista e do colorista Dave Stewart.

Como exemplos de sua técnica narrativa: logo na segunda página, Mignola e Stewart criam um quadro que congela o momento exato em que um fósforo ao ser riscado ilumina, por uma fração de segundo, todo o ambiente; na oitava, uma das características distintas de Mignola é o uso seletivo dos detalhes, pois no quinto quadro ele sugere o símbolo dos Cavaleiros de Santo Hagan à distancia numa pedra. Na imagem seguinte, ele aproxima o enquadramento e revela a inscrição na sua íntegra. Além disso, as figuras das reproduções de Goya, da página 20, funcionam como espectadores horrorizados do combate entre Hellboy e estátua de Moloch.

Para terminar, vale insistir na qualidade do emprego das cores. Na página nove, por exemplo, Stewart começa com tons frios, e usa a cabeça de Hellboy, no segundo quadro, como um elemento de transição para as cores quentes (vermelho e amarelo) usadas numa sequência de três quadros que define um flashback, que termina com um homem morto caído no chão (em cores frias) contrastando com o fundo quente, servindo de transição para o último painel da página, que volta à fria realidade da capela de Moloch.

Hellboy – Na Capela de Moloch ganhou, em 2008, o prêmio Rondo Hatton Classic Horror (organizado anualmente pela Classic Horror Film Board), na categoria Melhor HQ de Horror.

Esta HQ é um grande exemplo da qualidade da obra de Mignola, razão pela qual a série Hellboy ganhou dezenas de prêmios, incluindo Harvey, Inkwell, Eagle e dez Eisner.

A história foi publicada no Brasil, em 2009, numa edição da Mythos Editora.

Classificação

4,5

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