Heróis da TV # 1 – 2ª série

Por Toni Rodrigues
Data: 18 fevereiro, 2011

Heróis da TV # 1 - 2ª sérieEditora: Abril – Revista mensal

AutoresO devorador de planetas – Stan Lee (texto), Jack Kirby (arte) e Vince Colleta (arte-final);

Duelo de ferro – Chris Claremont (texto), John Byrne (desenhos) e Alden McWilliams (arte-final);

Amargo adeus – Allyn Brodsky (roteiro), George Tuska (desenhos) e Joe Gaudioso, pseudônimo de Mike Esposito (arte-final);

Meia-Noite traz a morte – Steve Englehart (roteiro), Jim Starlin (desenhos) e Al Milgrom (arte-final);

A chama e a fúria – Stan Lee (roteiro), John Buscema (desenho) e Dan Adkins (arte-final).

Preço: Cr$ 22,00 (preço da época)

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Julho de 1979

Sinopse

Nas duas primeiras histórias, Thor se reencontra com Tana Nile, a colonizadora do planeta Rigel, e com o incrível Registrador. Juntos, à revelia de Odin e Sif, eles partem em socorro de Ego, o planeta vivo, que está ameaçado de virar o almoço de Galactus.

O devorador de planetas, além de ter que enfrentar o Deus do Trovão, precisa lidar com a raça dos Errantes, membros sobreviventes dos inúmeros planetas destruídos por ele e sedentos de vingança.

Na terceira aventura, seguindo a pista de sua namorada Coleen Wing, que fora raptada, Danny Rand, o Punho de Ferro invade a fábrica de Tony Stark e enfrenta o Homem de Ferro. Depois da habitual pancadaria, ambos percebem que são bacanas, se juntam e descobrem, junto com Misty Knight, um membro da Oposição, organização de espionagem industrial que estava infiltrado nas Indústrias Stark para roubar seus segredos.

Na HQ seguinte, o Homem de Ferro encontra o Mecanóide MK-5, enviado de outro planeta para sondar a possibilidade de usar a Terra como posto comercial intergaláctico. Como ele trabalha disfarçado, deixa o herói aprisionado em sua nave e sai para conhecer nosso planeta.

MK-5 encontra uma bela garota que se apaixona por ele e também dois foragidos da penitenciária em fuga. Com a ajuda do Homem de Ferro, que escapou, ele prende os facínoras, mas perde a vida.

A quinta história da revista traz o Mestre do Kung Fu enfrentando Meia-Noite, seu amigo de infância e também rival, que, como ele, foi criado e treinado pelo Dr. Fu-Manchu para ser uma arma viva. Mas, diferentemente de Shang-Chi, o vilão continua fiel ao gênio do mal. Quem vencerá?

Por fim, o Surfista Prateado encara uma batalha contra o Tocha Humana, que tentou convencer o ex-arauto de Galactus a ajudar o Programa Espacial Americano, mas acabou sendo mal-interpretado, causando a maior confusão.

Positivo/Negativo

Antes da avaliação propriamente dita da revista, vale dizer que a trajetória editorial da Marvel no Brasil sempre foi uma bagunça, mas pode ser dividida em dois períodos distintos: antes e depois das editoras RGE e Abril.

Embora histórias de terror e monstros da “Casa das Ideias” já tivessem saído por outras editoras, como a LaSelva, a trajetória com os super-heróis começa com as lendárias revistas daEbalCapitão Z – Capitão América e Homem de FerroSuperxis – Namor e Hulk e Álbum Gigante, com o Thor.

Mas a editora de Adolfo Aizen não foi a única a editar os heróis da Marvel no Brasil naqueles anos 1960.

Muitos personagens importantes foram publicados (sem nenhum critério editorial ou tentativa de coerência cronológica) por diversas editoras, maiores e menores, do Rio de janeiro e de São Paulo, como a Triestre (Nick Fury), a GEP (Surfista PrateadoX-MenCapitão Marvel), a Gorrion (Luke Cage e Enfermeira da Noite), a Roval (ConanKull, aqui de chamado de Koll, e Frankenstein), a Minami & Cunha (Dr. EstranhoKull e Conan), a Graúna (Conan, com o nome de Hartan), a Kultus (Ka-zar), a Paladino (Ka-Zar e Sargento Fury) e a GEA, que pegou os personagens que a Ebal abandonou (Quarteto FantásticoDemolidor, aqui chamado de Defensor DestemidoHulkThorNamorHomem de Ferro) e lançou entre dois e três números de cada.

Como se vê, até então, os personagens da Marvel duravam pouco tempo nas editoras – a exceção foi o Homem-Aranha, que chegou ao número 70 pela Ebal. Mas qual seria a razão disso?

Simples: as revistas não vendiam bem. Por mais que isso pareça incrível para os fãs, o fato é que nenhuma editora desistiria de publicá-las se dessem lucro. Os títulos da Marvel só se transformavam em bons negócios quando os desenhos animados (a famosa série “desanimada”) passavam na TV.

A própria Ebal desistiu de vários deles em 1972, devido ás baixas vendas. Foram para a GEA, onde isso se repetiu e acabaram. Mas por que não iam bem nas bancas?

Por mais que os fãs já adorassem esses personagens, eles não faziam sucesso entre os leitores ocasionais, que não colecionavam, mas compravam e descartavam as revistas depois de lidas – e eles formavam a maior parte do público de quadrinhos de então.

A principal razão disso talvez resida no fato de que esses materiais representavam uma alteração na forma de ler quadrinhos que demorou a pegar no Brasil, por se tratar de uma mudança cultural.

Esses quadrinhos da Marvel eram diferentes do que o público da época esperava encontrar ao comprar uma revista. E, aqui, a questão não é a abordagem mais humana, com o Homem Aranha ficando gripado ou o Homem de Ferro tendo problemas cardíacos. A diferença é que as histórias nunca eram completas. Quase sempre tinham no final o fatídico “continua no próximo número”, e isso era horrível para quem não tinha o hábito de colecionar.

O grosso do público preferia comprar revistas com aventuras completas, como SupermanBatman,FantasmaTio Patinhas e outras, a ter que esperar um mês para saber se o Capitão América sobreviveu à explosão na base da Hydra.

Então veio a Bloch, que, a partir de 1975, pegou todo o pacote Marvel com exclusividade, publicando lendárias revistinhas que fizeram a alegria de uma geração, apesar de serem extremamente mal editadas, traduzidas com desleixo e coloridas de maneira horrenda. Como os desenhos estavam com força na TV (na Seção Patota, em São Paulo; e no Capitão Aza, no Rio de Janeiro), os títulos começaram vendendo bem.

Bloch podia ter aproveitado que estava com todos os personagens nas mãos e acertado a cronologia, mas, a exemplo das outras editoras, não se importou nem um pouco isso, publicando ao mesmo tempo material recente (como Capitão AméricaMestre do Kung FuOs Defensores ePunhos de Aço – nome que deram ao Punho de Ferro) e usando HQs antigas de outros, comoQuarteto FantásticoDemolidorHulkVingadoresNamorHomem de Ferro e Homem-Aranha, que haviam saído pela Ebal.

Talvez por isso, as revistas também tenham perdido público e começaram a ser canceladas. A maioria acabou por volta do número 15 e apenas Homem-Aranha chegou ao 33, de outubro de 1978, aos trancos e barrancos. E, então, tudo acabou de novo.

A situação dos fãs da Marvel no Brasil não podia ser pior em 1978. Os heróis estavam de novo sem editora e praticamente todas que os publicaram tinham deixado histórias sem final. Algumas dessas aventuras aliás, não foram terminadas por aqui até hoje, passados mais de 30 anos.

Então, novamente graças à TV, tudo mudou de novo.

Na segunda metade da década de 1970, surgiram várias séries de TV com personagens de quadrinhos. Algumas não passaram do episódio-piloto, como Dr. Estranho e Mandrake, outras tiveram duas tentativas como Capitão América.

E houve ainda as começaram como adaptações dos quadrinhos, mas, por conta de disputas internas, viraram outra coisa, como O homem do fundo do mar (que era para ser o Namor) e Exo-man (originalmente concebida para o Homem de Ferro).

Por fim, houve três séries que decolaram pra valer na telinha, em forma de seriado: Mulher-MaravilhaHomem-Aranha e Hulk.

O homem do fundo do mar (Man from Atlantis) tem uma história peculiar para uma série de TV. Foram rodados quatro longas-metragens, exibidos na TV com boa audiência antes que a série ganhasse sinal verde para ser produzida.

Quando finalmente isso aconteceu, o seriado durou apenas 13 episódios. Ao que consta, foi vítima de seus altos custos de produção, que inviabilizaram sua continuidade, apesar da boa audiência. Antes de acabar, no entanto, foi licenciada para virar quadrinhos na Marvel! Irônico, uma vez que o protagonista era para ser o Namor.

A série foi exibida com sucesso em vários países, inclusive no Brasil, o que fez com a Rio Gráfica, hoje Editora Globo, se interessasse por lançar a adaptação da Marvel por aqui. As histórias saíram em dois almanaques de 96 páginas em 1978 e marcam o começo da relação da “Casa das ideias” com a editora da família Marinho.

Enquanto isso, na TV Globo, faziam sucesso as séries da Mulher-Maravilha, do Homem-Aranha e do Incrível Hulk. O mesmo acontecia com o desenho Os Quatro Fantásticos (tradução bizarra feita pela emissora), que, apesar de produzido pela Hanna-Barbera em 1967, só passou por aqui em 1978.

Provavelmente, a RGE achou que seria uma boa ideia aproveitar essa onda para lançar revistas desses personagens. Como a Mulher-Maravilha estava saindo pela Ebal, em janeiro 1979 estavam nas bancas O Homem-Aranha e O Incrível Hulk, logo seguidos por Os Quatro Fantásticos eAlmanaque Marvel. A Marvel estava oficialmente de volta ao Brasil.

No começo, houve uma decepção parcial. Novamente, as revistas do Hulk e do Aranha trouxeram reprises de material já publicados. Mas, desta vez, o tratamento editorial era melhor que o daBloch.

Na revista do Quarteto, contudo, uma boa surpresa: histórias inéditas, de uma das melhores fases da dupla Lee e Kirby. No Almanaque Marvel, logo seguido de um Super Almanaque Marvel, um mix estranho de aventuras bem antigas (Demolidor, publicado pela primeira vez com sua cor certa, o amarelo) com outras recentes (X-MenNovaMulher-Aranha)

E a RGE tentou ainda publicar também os caubóis da Marvel na revista Kid Colt, mas sem sucesso.

Uma coisa era óbvia nos primeiros números dessas revistas: havia uma tentativa de publicar apenas histórias completas; e isso, junto com a força da TV, fez as publicações venderem muito bem, apesar das reprises.

As boas vendas logo atraíram a atenção da Abril, a campeã das bancas de então, que, em 1979, resolveu entrar no jogo publicando os personagens que não licenciados para a RGE. Foram três revistas: Capitão América e Heróis da TV, em junho, e Terror de Drácula, em julho.

O título Heróis da TV, vale dizer, começou em outra editora, a O Cruzeiro, nos anos 60. A revista publicava exatamente o que dizia o título, heróis que passavam na telinha, mais precisamente, versões em quadrinhos da Hanna-Barbera produzidos pela Gold Key norte-americana, comoSpace GhostJonny QuestCavaleiros da Arábia etc.

Quando a O Cruzeiro fechou, a Abril “adotou” a revista com o mesmo título e os mesmos personagens (veja aqui uma resenha do primeiro número), com muitos deles sendo produzidos no Brasil pelo estúdio da editora, com a ajuda de famosos freelancers. Rodolfo Zalla, Walmir Amaral, Rubens Cordeiro foram alguns dos que deram vida aos heróis desta série que durou de 1973 a 1975.

Ao resolver publicar os super-heróis da Marvel, talvez para potencializar as vendas e por alguns deles, como Thor e Homem de Ferro, terem estado na TV, decidiram trazer o título de volta.

Feito o contexto histórico, vale dizer que a qualidade do mix deste primeiro número de Heróis da TV é bastante desigual.

A aventura de Thor é de uma de suas melhores fases, com Jack Kirby no auge da sua forma e inventividade. É tão bem contada visualmente, que quase não é preciso ler o texto para entender o que está acontecendo, apesar da complexidade da trama.

Punho de Ferro, mesmo com ótimos desenhos de John Byrne, tem um argumento previsível e se enquadra numa fórmula batida da Marvel: dois heróis se encontram, acontece um mal-entendido, eles lutam e ao perceberem que estão do mesmo lado se unem para derrotar a verdadeira ameaça. Isso deveria fazer parte de um kit de como fazer uma história sem prazo. Claremont, com certeza, estava bem longe do nível que atingiu em X-Men.

O argumento da HQ do Homem de Ferro deve ter sido feito no começo dos anos 60 e ficado engavetado até o final daquela década. Alyn Brodsky já não produzia para a Marvel nessa época, embora tenha sido um dos mais prolíficos roteiristas da casa, desde os tempos em que ela se chamava Atlas.

A trama segue uma fórmula comum das primeiras aventuras dos heróis Marvel envolvendo alienígenas que podem ou não ter más intenções. Isso aconteceu com Hulk (Homens-sapo de Júpiter), Thor (Homens-rocha de Saturno), Quarteto Fantástico (Skrulls, que acabaram voltando depois para ficar) etc.

Já a história do Mestre do Kung Fu é muito boa. Completa e redonda, apresenta ao leitor um pouco mais da infância de Shang-Chi e de seu treinamento para se tornar uma arma viva. O personagem alçaria voos mais altos em pouco tempo nas mãos de outro desenhista, Paul Gulacy, mas aqui Jim Starlin estava num de seus melhores momentos.

Fechando a revista, uma história fraca do Surfista Prateado, na qual só se salvam os desenhos, apesar do colorido atrapalhado. Por acaso, esta é a única HQ inédita da revista. As demais já haviam saído uma ou mais vezes pelas editoras que publicaram a Marvel no Brasil.

Por isso, fica a questão: qual era o papel do editor da revista? Por que esta escolha? Por que não optar por publicar apenas material inédito?

As traduções eram tão competentes quanto as da RGE e bem melhores que as da Bloch, mas o colorido, feito por Rita de Cássia de Carvalho, do estúdio da editora, não respeita os tons originais – o Quarteto Fantástico aparece de roupa vermelha!

Provavelmente, ninguém se incomodou de providenciar um model-sheet para a pobre colorista, que fez seu trabalho da melhor maneira que pôde e coloriu os supertipos da Marvel como estava acostumada a fazer com todos os outros quadrinhos da Abril, fosse Tio Patinhas ou Speed Racer.

Mas, do ponto de vista histórico, esta é uma revista muito importante. Em poucos anos, pessoas que conheciam melhor os personagens seriam contratadas para editá-los e as publicações passariam a ter uma maior coerência cronológica, que melhorou ainda mais quando a RGE desistiu da Marvel e todos os heróis passaram para a Abril.

Finalmente, passou a ser possível entender os crossovers tão comuns nas aventuras da “Casa das Ideias” e logo o colorido original passou a ser respeitado. Pela primeira vez no Brasil, os fãs passaram a ser “ouvidos” em seções de cartas e sua opinião passou a ser considerada na tomada de decisões editoriais.

É bem verdade que muitas dessas decisões editoriais foram equivocadas e arbitrárias, principalmente no que diz respeito à cronologia e ao corte de páginas, nos 23 anos que durou essa trajetória. Mas isso é assunto para outro dia.

Classificação

4,0

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