A História de “O”

Por Paulo H. Cecconi
Data: 8 agosto, 2014

A História de "O"Editora: L&PM – Edição especial

Autor: Guido Crepax (roteiro e arte) – Originalmente em Histoire d’O.

Preço:R$ 38,00

Número de páginas: 184

Data de lançamento: Maio de 2014

Sinopse

Uma mulher é levada a um castelo, onde é submetida a vários tipos de tortura e atos sexuais.

Positivo/Negativo

Tudo o que Crepax fez foi bom. Sem exceções. Claro, o leitor tem o direito de não gostar de histórias eróticas ou do estilo de desenho do autor italiano, mas é necessário perceber a existência de uma linha muito tênue relacionada à estética, conceitos e à qualidade (que se projeta em todas as vertentes da arte) que ultrapassa a análise da percepção sensorial de uma obra ou de um artista.

E Guido Crepax foi uma dessas forças que ultrapassam a opinião pessoal.

O artista inovou a linguagem dos quadrinhos tanto pela abordagem erótica envolta por elementos psicodélicos e, principalmente, oníricos, quanto à estética, evidente na diagramação única das páginas.

Em uma época em que os quadrinhos possuíam quatro, cinco, no máximo oito painéis por página, Crepax afogava os olhos de quem segurava suas histórias em 12, 13 painéis, muitos em planos de detalhes, o que configura uma importância indiscutível à leitura da imagem em si, e conduz a história de forma quase cinematográfica.

Passar os olhos rapidamente por uma página do desenhista significa perder importantes e intensos momentos de variadas emoções, seja a sensualidade de dois lábios se tocando, ou a dor/prazer expressa por dedos de pés contorcidos.

A estreia de Crepax nos quadrinhos aconteceu em 1965, na revista italiana Linus. Foi nela que o autor publicou um herói chamado Nêutron, que, em pouco tempo, seria deixado de lado para dar espaço a uma de suas coadjuvantes, a sensualíssima Valentina. Ela seria a primeira e mais famosa das mulheres do autor, porém longe de ser a única.

O desenhista criou uma série de personagens que se aventuravam pelo mundo do erotismo, sempre de maneira não convencional e com elementos filosóficos e artísticos em abundância.

A fuga do óbvio e o gosto por histórias controversas e bizarras justifica o interesse do artista por adaptações de histórias famosas como Drácula, O médico e o monstro, Justine e A História de “O”, de Anne Desclos (com o pseudônimo de Pauline Réage).

Na obra, uma mulher é levada por seu amante, René, até um castelo, onde é submetida a variados tipos de torturas e abusos sexuais. Após passar um tempo indeterminado no lugar, “O” volta à sua rotina, que envolve submissão completa à vontade de René.

Pode-se pensar que “O” ficaria feliz ao deixar aquele lugar sombrio, mas fica claro, no final do primeiro capítulo, enquanto ela beija René e, ao mesmo tempo, mantém os olhos abertos mirados para trás enquanto o carro parte, que a experiência não a afetou de maneira negativa.

Na verdade, muitas das “degradações” a que “O” é imposta a fazem lembrar dos dias no castelo, e, aos poucos, a personagem releva ao leitor quão disposta e feliz está com as torturas e pedidos insólitos de René.

A história segue com “O” experimentando ainda mais espécies de “abusos” sexuais, torturas e rituais em uma crescente, até a culminação no final bizarro e apoteótico.

Mas um dos pontos cruciais da história é a expressão do sentimento da protagonista frente a essas situações.

Numa sociedade em que o pudor e a falsa moral ainda falam muito alto, A História de “O” propõe que o amor permeie até mesmo a humilhação mais degradante, se assim satisfizer todas as partes.

Mesmo em seus momentos de dúvida, “O” acaba por ceder à vontade do amante, incentivada pelo amor que sente e pelo prazer intenso nas situações ditas abusivas.

É com desenhos superelegantes e paginações incomparáveis que Crepax conta essa história de propostas controversas, numa obra de pura poesia visual.

Esta é a segunda edição de A História de “O” publicada no Brasil pela L&PM, desta vez num formato menor e repaginada, uma grande oportunidade para quem não teve acesso à primeira. Conta com uma valiosa introdução assinada pelo jornalista italiano Marco Giovannini e uma nova capa, com verniz localizado e um desenho de uma bela bunda.

Afinal, Crepax faz isso mesmo: provoca publicamente, sem se preocupar se o leitor vai sentir vergonha ou não. Então, dispa-se dos pudores insensatos e boa leitura.

Classificação

4,5

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