HOMENS DO AMANHÃ

Por Mário César
Data: 1 dezembro, 2006


Título: HOMENS DO AMANHÃ (Conrad)
– Livro teórico
Autor: Gerard Jones (tradução Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira)

Preço: R$ 65,00

Número de páginas: 448

Data de lançamento: Março de 2006

Sinopse: Numa noite de setembro de 1975, Jerry Siegel, um dos criadores do Super-Homem, decide escrever um comunicado à imprensa para revelar como tinha perdido seu personagem para um monstro que ele próprio havia ajudado a criar: a indústria dos quadrinhos norte-americana.

É a partir desse episódio que Gerard Jones começa a narrar a trajetória de um dos ramos do entretenimento mais poderosos do planeta, surgido da improvável união entre mafiosos poderosos, malandros de rua e nerds anti-sociais.

Um relato surpreendente, prova de que a maior das histórias dos super-heróis é sua própria origem, repleta de trapaceiros, vilões e até alguns heróis.

Positivo/Negativo: Gerard Jones revela que a história dos pioneiros do gênero de super-heróis é, no mínimo, tão rica e intrigante quanto suas criações. O livro desenterra fatos obscuros da indústria dos quadrinhos e ainda joga mais lenha na fogueira da guerra sobre os direitos autorais de diversos personagens.

É a surpreendente história de jovens sonhadores, mafiosos, pornógrafos, trouxas e trambiqueiros que deram origem ao império de comunicações da Time-Warner e a ícones da cultura pop do século 20, como Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha.

O ponto de partida e fio condutor da narrativa é a dramática luta de Jerry Siegel e Joe Shuster pelos direitos autorais de sua maior criação: o Super-Homem. A dupla, jovem e inexperiente, vendera seu personagem por uma ninharia a National Comics (futura DC) e não via a cor do dinheiro gerado pelos licenciamentos. Entraram na justiça ao término do primeiro contrato, mas perderam e foram escorraçados da editora. Depois disso, passaram a viver em condições econômicas precárias e ainda tiveram seus nomes retirados dos créditos por décadas.

A história retrocede para o final do século 19, com as imigrações de judeus europeus para a América do Norte e segue mostrando a formação do submundo e do crime organizado nas grandes metrópoles norte-americanas.

Duas figuras centrais emergem nesse cenário: Harry Donenfeld e Jack Liebowitz, dois dos fundadores da futura DC Comics. O primeiro, um malandro de rua que entrou quase por acaso no emergente mercado de revistas editando pulps e pornografia. O segundo, um ex-socialista, que se tornaria um dos mais bem sucedidos empresários dos Estados Unidos.

Um detalhe emblemático: Liebowitz nasceu em 1900 e morreu em 2000, com exatos 100 anos.

Jones conseguiu desencavar histórias fascinantes da ligação de Donenfeld com a máfia nos anos 20 e relatos surpreendentes sobre o que Liebowitz fez pra chegar aonde chegou e estabelecer o império de comunicação da Time-Warner.

Algumas passagens são tocantes, como a morte de Donenfeld, já completamente desligado da empresa por Liebowitz, em nome das aparências. Outras são revoltantes, como o momento no qual o escritor compartilha uma dúvida de Shuster: a de que o advogado no primeiro processo sobre os direitos do Super-Homem – e ex-companheiro de Guerra de Siegel – teria se vendido a Liebowitz para perder o caso.

Diversos autores lendários de quadrinhos como Will Eisner, Jack Kirby, Bill Finger, Harvey Kurtzman, Stan Lee, Steve Ditko, Jerry Robinson, Jack Cole, Gil Kane, entre tantos outros pioneiros também marcam presença com suas histórias fantásticas.

Bob Kane merece um certo destaque, não por seus grandes feitos, mas por suas falcatruas. Ele é mostrado como um malandro de primeira, que soube negociar como poucos. Em um dos casos descritos, chegou a vender pinturas feitas por um artista fantasma por milhares de dólares. Isso só veio à tona quando Kane deu calote no pintor.

Até hoje, Bob Kane é creditado como o único criador do Batman, porém, segundo os relatos do livro e de tantas outras fontes, o personagem foi concebido em parceria com Bill Finger.

Outros casos se destacam por serem tão esdrúxulos. A Mulher-Maravilha, por exemplo, foi criação do mesmo psicólogo que inventou o detector de mentiras e suas histórias sempre continham ao menos uma cena importante e fetichista de alguém amarrado.

As 64 páginas da primeira edição da revista do Demolidor foram feitas às pressas em um único fim de semana sob condições pra lá de adversas. Stan Lee começou sua carreira nos quadrinhos praticamente por acaso. Jack Kirby quase entrou numa briga com um toalheiro para defender Will Eisner, simplesmente impagável.

A edição conta ainda com algumas fotos e imagens reproduzidas, entre as quais se destaca uma tira do Super-Homem encomendada para o aniversário de 50 anos de Harry Donenfeld. Nela, o Homem de Aço está levando um tapa no traseiro do empresário dizendo: “Que isto lhe sirva de lição… Tenho 50 anos de idade e você está às minhas ordens” . O Super-Homem só responde: “E eu adoro.”!

A edição brasileira está bem cuidada, mas há de se fazer uma ressalva sobre o preço nada amistoso cobrado pela Conrad, alguns erros de digitação e adaptação e a equivocada escolha da imagem de capa, que em nada remete ao assunto ou à época retratada na obra.

Homens do Amanhã não é só um livro envolto em polêmicas (a viúva de Siegel contestou publicamente algumas afirmações de Gerard Jones) sobre o nascimento da indústria dos quadrinhos. É um retrato trágico e fascinante de uma América reluzente nas aparências, mas fétida nas entranhas e cheia de segredos a serem desvendados.

 

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.