Humor paulistano – A experiência da Circo Editorial (1984-1995)

Por Rodrigo Scama
Data: 16 maio, 2014

Humor paulistano – A experiência da Circo Editorial (1984-1995)Editora: SESI-SP– Edição especial

Autores: Alcy, Angeli, Chico Caruso, Paulo Caruso, Glauco, Laerte e Luiz Gê (quadrinhos), Ivan Finotti, Waldomiro Vergueiro, Nobu Chinen, Paulo Ramos, Marcelo Alencar, Roberto Elísio dos Santos e Toninho Mendes (textos editoriais).

Preço: R$ 120,00

Número de páginas: 432

Data de lançamento: Abril de 2014

Sinopse

Para comemorar os 30 anos de início das atividades da editora mainstream mais underground que o Brasil já teve, o SESI-SP reuniu um time fortíssimo para fazer uma homenagem digna de respeito aos quadrinhos brasileiros.

Positivo/Negativo

Em 1984, um ano antes da entrada do primeiro civil na Presidência da República, após duas dezenas de jugo militar, entrava em cena a Circo, até hoje a maior editora underground que o Brasil teve.

Seu idealizador foi Toninho Mendes, amigo de Angeli desde os dez anos de idade, quando ambos iam à banca do seu Manelão. O livro da editora do SESI-SP é uma justíssima homenagem à trajetória desses dois protagonistas, bem como de camaradas quadrinhistas como Laerte, Luiz Gê, Glauco, Alcy e os irmãos Caruso.

Organizado por Mendes, o álbum divide-se sabiamente em duas partes: uma é escrita, contando a história da editora e suas publicações. Para esse resgate e análise histórica foram chamados grandes pesquisadores acadêmicos de Quadrinhos e renomados jornalistas da área.

Estão lá Ivan Finotti, jornalista cultural da Folha de S.Paulo, que escreve sobre Toninho Mendes e suas peripécias para criar e manter uma editora naqueles loucos tempos de inflação absurda e planos econômicos que quebravam o cidadão e as empresas dia a dia.

Finotti revela quais os trabalhos anteriores de Mendes, e como ele virou editor de revistas e, posteriormente, dono de editora. Também mostra quais os acertos e erros das publicações e da Circo como um todo.

Em seguida, Waldomiro Vergueiro, coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP fala sobre a revista Chiclete com Banana, a mais longeva e importante publicação da Circo. Ele explica quais as ideias de Angeli, como surgiram seus personagens, qual o impacto deles no cotidiano brasileiro e como foi a criação de um título autoral em 1985.

Logo depois, vêm 100 páginas com o melhor do que foi produzido pela Chiclete com Banana ao longo de seus cinco anos de existência. O leitor pode ver – pela primeira vez com um papel decente – histórias de Bob Cuspe, Rê Bordosa, Nanico e Meia-Oito, Wood & Stock, Walter Ego, os Skrotinhos e vários outros personagens de Angeli tal qual foram publicados há quase 30 anos.

Na sequência, Nobu Chinen, pesquisador de histórias em quadrinhos, explica a experiência da segunda revista regular de Mendes, a Circo. O texto mostra como se deu a criação da publicação, o papel fundamental da edição de Luiz Gê, do intercâmbio com o que havia de melhor no período nas HQs europeias e sua derrocada, devido à mudança de Gê para a Inglaterra.

Em seguida, vêm 100 páginas com o melhor da Circo, produzido pelos artistas nacionais. E ali vemos Luiz Gê no seu auge criativo, Laerte, Paulo Caruso e Alcy. Depois de quase três décadas, é maravilhoso poder reler (ou ler pela primeira vez) as histórias do Capitão Bandeira e do ceguinho Odilon. Também são de encher os olhos histórias como A insustentável leveza do ser e Fadas e bruxas, de Laerte, e Futboil e Perdidos no espaço, de Gê. E, como já foi dito, num papel digno dessas preciosidades.

A carreira de Glauco e sua passagem com a revista Geraldão, pela editora Circo, tem o resgate histórico feito pelo jornalista Paulo Ramos, atualmente o mais prolífico autor de obras acadêmicas sobre quadrinhos e professor da Unifesp.

Ramos vai desde a influência de Henfil sobre a vida e a obra de Glauco até seu estúpido assassinato, que chocou o Brasil. Sua forma de trabalhar, suas ideologias e suas loucuras são colocadas ao leitor junto com a criação e a manutenção da revista que levava o nome de seu personagem mais famoso.

A seguir, tome mais 100 páginas com o melhor produzido por Glauco para Geraldão. Lá estão o personagem título, Dona Marta, Casal Neuras, Doy Jorge e várias outros tipos malucos desenhados com pouquíssimo traço, tal qual o mentor Henfil ensinou.

Marcelo Alencar, jornalista da Fundação Padre Anchieta, escreve sobre a vida e a obra de Laerte, bem como sua revista própria, a Piratas do Tietê, com seus bucaneiros loucos e outros personagens que vingaram por 13 números nas bancas brasileiras.

A genialidade do artista fica expressa nas 50 páginas seguintes. Há as peripécias do Capitão e seus comandados pelos quatro cantos do rio mais famoso de São Paulo, e também várias histórias curtas de Laerte. Uma pena que são apenas 50 páginas (ele merecia 100), mas a qualidade é absurda.

Na última parte do livro, há um texto elaborado por Toninho Mendes e Roberto Elísio dos Santos, especialista em humor nos quadrinhos e também professor da USP. Ambos descrevem como foi criado o humor tipicamente paulistano, e como as revistas da Circo captaram a essência da cidade e do período histórico atravessado pelo País durante a chamada Nova República.

No final, um bônus: o poema de Toninho Mendes para o Tietê. Com ilustrações de Jaca, podemos ler o poema que Mendes fez em 1980 e que vendeu pouquíssimos exemplares, fazendo com que o poeta se transformasse em editor e empresário.

Enfim, um livro de peso, com mais de 400 páginas de quadrinhos genuinamente nacionais, transgressoras, contestatórias e anárquicas. Pena que levou 30 anos para se ter um material com esta qualidade para estes que são – junto com os roqueiros nacionais – os artistas mais revolucionários que o Brasil poderia ter naquele momento em que os militares estavam saindo de cena e a bagunça política mal estava começando.

Classificação

5,0

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