A infância do Brasil

Por Audaci Junior
Data: 29 março, 2018

A infância do BrasilEditora: Avec – Edição especial

Autores: José Aguiar (roteiro e arte) e Joel de Souza (cores).

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Julho de 2017

Sinopse

Um olhar sobre o passado, para refletir sobre nosso presente. Uma viagem pela História do Brasil para descobrir o passado da fase de maior importância na vida de todos: a infância.

São momentos pontuais na vida de crianças brasileiras durante os mais de 500 anos do país, desde o início da colonização até os dias atuais.

Uma viagem reflexiva sobre a História de um país ainda em processo de amadurecimento, sob a perspectiva humana e com ênfase nas contradições, abusos, descasos, abandonos e outras situações que insistem em não ficar para trás.

Positivo/Negativo

Concebido inicialmente como uma websérie, A infância do Brasil trata de um tema central que cria outras veias problemáticas igualmente delicadas a respeito não só dos direitos da criança e do adolescente.

José Aguiar particiona em seis capítulos, cada um abordando uma temática e um século do jovem Brasil, desde o início da colonização até os dias atuais. Das rudimentares casas de pau-a-pique dos colonos até as selfies na sala de parto para anunciar a boa nova.

No primeiro capítulo, Nascer, o leitor acompanha uma minuciosa pesquisa “silenciosa” de época, mesmo que não seja tão evidente. O autor fornece detalhes de maus tratos, de como a mulher é colocada como uma mera geradora de filhos, praticamente um “bem material” para o homem.

“Haverá outra para ti, se a desgraça se abater sobre sua casa”, chega a afirmar o padre ao homem que só se preocupa em ficar com menos dinheiro, caso seja uma menina. Todo um conceito sobre preconceitos e machismo vindos do além-mar se concretizam na terra do “em se plantando tudo dá”.

É visto como eram rudimentares as condições e os métodos de parto – em que a barriga da grávida era adornada de relíquias e sortilégios, contrastando com o desfecho de um salto temporal que será repetido nos outros capítulos.

Em Trocar, observa-se a questão do índio “civilizado” pelos jesuítas que, apesar de serem “homens de Deus”, não deixam de ser tão nocivos quanto os bandeirantes, que enxergam um interesse comercial nas tribos.

Tópicos que são tão atuais, como o problema de falta do saneamento básico, são explorados entre o batismo de um nome de santo do dia e toda a castração cultural que esses povos passaram e vem passando.

Delegar, o terceiro ato, mostra um dos problemas mais graves cometidos por pais: o abandono de incapaz. Era algo tão comum nos Séculos 17 e 18, que existia um sistema anônimo de entrega de crianças nas igrejas e casas de acolhida.

Aguiar tenta colocar de uma maneira na qual o leitor não julgue os atos de alguns personagens, deixando a mensagem mais cristalina postas nessas ações.

A escravização infantil é o tema de Reter. Dificilmente maus tratos aos escravos negros foram postos perante um juiz. Desvios éticos, desrespeitos das leis e outras injustiças eram combatidas juntamente com a noção de condenação por já “nascer” aprisionado.

O que se vê recentemente nos noticiários é uma melhora no quadro de comparação do final dessa história, pelo menos no campo da teoria. O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu este ano que mulheres grávidas ou com filho de até de 12 anos, ou mães de filhos deficientes que estejam presas preventivamente têm direito de ir para a prisão domiciliar. Uma sinalização de que o país esteja crescendo? Talvez.

No penúltimo capítulo, Responsabilizar, a exploração do trabalho infantil está no epicentro da discussão. Moldadas pelas consequências oriundas dos efeitos da Segunda Guerra Mundial, como a criação de uma indústria de base nacional, substituindo as importações estagnadas ou a vigência da Consolidação das Leis do Trabalho.

Não é gratuita a escolha de colocar em cartaz no cinema a animação da Disney Alô, Amigos (1942). Protagonizado por Zé Carioca, o filme é estrategicamente parte da política de boa vizinhança institucionalizada pelos Estados Unidos aos países da América Latina no turbulento período bélico.

Por fim, em Perpetuar, José Aguiar costura a sua colcha de retalhos ligando os pontos com o presente e sendo mais direto nas agulhadas reflexivas sobre os diversos assuntos abordados ao longo dessas viagens pelos séculos de um país que ainda engatinha e tem muito a aprender.

Com uma arte estilizada e arrojada, diagramação bem distribuída e cores (de Joel de Souza – que trabalhou com Aguiar em Folheteen) que valorizam muitas passagens, o álbum contou com a consultoria da historiadora Claudia Regina B. Moreira, que faz breves contextos de cada período como extras da HQ.

Lançada entre 2015 e 2016, a websérie que deu origem ao álbum foi finalista do 29º Troféu HQ Mix. A edição da Avec tem formato 21,3 x 27,7 cm, capa cartonada sem orelhas e páginas coloridas em papel couché de boa gramatura e impressão.

Classificação

4,0

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