J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga # 86

Por Lielson Zeni
Data: 3 fevereiro, 2012

J. Kendall - Aventuras de uma Criminóloga # 86Editora: Mythos – Revista mensal

Autores:

Giancarlo Berardi (argumento), Giancarlo Berardi e Maurizio Mantero (roteiro) e Laura Zuccheri (arte) – Publicado originalmente em Julia # 86.

Preço: R$ 8,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Janeiro de 2012

Sinopse

A sangue quente: Myrna Harrod está de volta a Garden City e fará de tudo para matar Júlia.

Positivo/Negativo

A chamada da capa brasileira não engana. Está lá, bem visível ao leitor: “Myrna voltou!”. Para os desavisados, a personagem que retorna é a vilã da série, a arqui-inimiga da Doutora Kendall.

Até este momento, no Brasil, a grande rival de Júlia pode ser vista no primeiro arco (edições # 1, # 2 e # 3), na edição # 37 e neste número.

Uma das ideias de Stan Lee para o Quarteto Fantástico, no comecinho da Marvel, era usar o vilão Dr. Destino de modo muito comedido, no máximo uma vez por ano. A estratégia seria valorizá-lo para que seu retorno fosse um grande evento para os personagens e, principalmente, para os leitores.

Não se sabe se instigado pelo excelso roteirista norte-americano, Giancarlo Berardi dita esse procedimento na relação entre Júlia e Myrna. Passam-se anos entre suas aparições e, quando elas acontecem, o leitor sabe que é importante.

É uma contramão da morte de super-heróis, gasta e sem gosto, por uso excessivo e ruim.

A trama começa com três linhas narrativas. Um policial em um quarto de hotel, Júlia e Leo Baxter combinam ao telefone de irem a um baile beneficente e Myrna disfarçada invade este mesmo baile. A transição entre Júlia e Myrna é intermediada sempre pela presença da história do policial.

Esse modelo desaparece com o andamento da trama, pois os fios separados começam a se transformar em uma trança bem consistente. A presença da vilã ao redor da criminóloga cria tensão e desenha algo trágico prestes a acontecer. A leitura é de ritmo constante, sem altas velocidades, mas em frente, rumo à última página.

Laura Zuccheri segue a escola naturalista típica das revistas bonellianas, sem exageros ou caricaturizações. A artista tem um mérito bastante particular: seu talento em representação expressiva nos olhos dos personagens. Toda a sutileza de que o roteiro de Berardi e Mantero precisa é conseguido pelo traço da desenhista.

Além das tramas costumeiramente acima da média, há também nesta edição um manual, uma espécie de “poética” berardiana bastante explícita. A cena é de Júlia conversando com uma editora que lhe propõe que escreva sua biografia. No papo, existem muitas dicas sobre o trabalho criativo do roteirista italiano. Todos os trechos abaixo se aplicam com perfeição ao fumetto da criminóloga.

“Obras de gênero [noir, western, policial, por exemplo] costumam ter tramas mais intrigantes.”

“- Querem me transformar em personagem.
– Você já é, doutora. E também um exemplo pra muitas mulheres. Independente, sem estereótipos feministas, afirmada na profissão, sem agressividade machista.”

“Pense… histórias emocionantes, que atrairiam um público amplo, mas são cientificamente rigorosas. Ação e sentimento. Temas duros tratados com a sensibilidade feminina.”

Sem dúvida, são esses elementos que fazem o leitor gostar das histórias de Júlia. E há ainda mais um trecho merecedor de atenção, que segue abaixo.

“- Estupradores, assassinos, psicopatas… às vezes me pergunto por que exercem tanto fascínio nas pessoas!

– Porque refletem nosso lado escuro. (…) É só olhar dentro de si. Todos, um dia, temos impulsos de matar um chefe prepotente, um rival no amor, um pai severo. Educação, civilidade e razão nos impedem de fazer isso, mas o desejo fica (…) Não são alienígenas vindos do espaço, são seres humanos como nós!”

É com esse tipo de humanização e universalização dos personagens que Júlia ganha os seus leitores.

Classificação

4,5

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