John Constantine – Hellblazer – A Empatia é o Inimigo

Por Liber Paz
Data: 8 março, 2013

John Constantine - Hellblazer - A Empatia é o InimigoEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Denise Mina (roteiro), Leonardo Manco (desenho), Lee Loughridge (cores) – Originalmente em Hellblazer # 216 a # 222.

Preço: R$ 22,90

Número de páginas: 168

Data de lançamento: Fevereiro de 2013

Sinopse

John Constantine decidiu abandonar a magia, mas quando um estranho lhe pede ajuda para resolver um problema incomum, acaba envolvendo-se em uma trama misteriosa, que o leva a se confrontar com outro mago, uma seita secreta e uma conspiração que pode transformar o mundo para sempre.

Positivo/Negativo

John Constantine – Hellblazer – A empatia é o inimigo tem sérios problemas de narrativa.

Já na primeira parte da história encontra-se exemplos disso.

Para localizar o leitor: um sujeito chamado Chris Cole empregou um feitiço que permite que possa obrigar qualquer um a cumprir uma ordem sua. Mas o preço de usar isso é uma empatia sobrenatural com a pessoa.

Assim, o pobre Cole é atormentado pelas tristezas, angústias e mortes daqueles que enfeitiçou e busca a ajuda de Constantine para se livrar disso.

É quando começam as confusões.

Há um painel, na página 22, em que um garoto abre a porta e vê uma pessoa enforcada. Como essa imagem se relaciona com os textos e as informações dos quadrinhos ao redor? O que ela significa? É uma alucinação? Quem é a pessoa enforcada? Não é a avó do menino, que tinha se enforcado duas páginas antes, porque se for, implica em problema de continuidade.

E a trama segue cheia desse tipo de ocorrência. Pequenos detalhes que fazem o leitor se sentir perdido e que acabam quebrando totalmente o ritmo da história.

Um exemplo de incoerência: na primeira parte, John Constantine realiza uma pequena mágica para livrar Cole de seus problemas. Na seguinte, o protagonista diz que tinha decidido desistir da magia. Daí, revendo a primeira parte, lê-se um balão em que John diz sobre o truque que aplicou em Cole “não é exatamente magia”.

Afinal, Constantine havia desistido da magia? Esse tipo de informação não deveria vir num texto na abertura da revista, para situar o leitor? E, se ele desistiu, por que diabos fez o encantamento com Cole? Sem desculpas, seja grande ou pequena, magia é magia.

Outra aresta: na primeira aventura, John está sozinho no bar. Já no começo da segunda, está sorridente, cercado de uma roda de “amigos”. Subentende-se que ele está sendo afetado pela tal empatia, mas os tais coadjuvantes aparecem em só uma página e depois somem. Não se sabe de onde vieram nem pra onde foram, nem por que estiveram ali.

Isso se repete quando John e seu novo melhor amigo Cole acham uma mulher morta, esfaqueada, dentro de seu apartamento. Ninguém explica de onde ela veio e simplesmente não se fala mais nela.

Esse tipo de coisa vai se repetindo ao longo da trama. São incoerências, trechos confusos, reviravoltas que falham em surpreender, personagens que surgem do nada e vão pra lugar algum.

Os textos não conversam com as imagens, os desenhos não “falam” uns com os outros e a sensação de confusão é irritante.

Há uma trama paralela que mostra as origens da seita desde 1000 anos atrás e que se revela tão confusa quanto todo o resto da história.

O tal “fantasma irritado” citado no texto no verso da capa não aparece na história. A não ser que ele seja a tal entidade do “terceiro plano”.

Perto da conclusão, há uma explicação por parte do “vilão” sobre seus “planos”. Se por um lado ela esclarece um pouco a confusão, por outro faz toda a trama parecer mais boba ainda.

A pior parte é um deus ex machina que se baseia na famosa história de Garth Ennis em que Constantine enganou os três maiores demônios do Inferno. Nesta trama de Denise Mina, John morre e aparecem os três e dizem “ah, não, não pode morrer, não” e o trazem de volta. E daí, simplesmente vão embora.

O tipo de solução que já é ruim pra quem conhece o personagem, deve ser pior ainda pra quem não tem a menor noção desses eventos anteriores a A empatia é o inimigo.

Por fim, a trama não acaba neste volume. No último painel, está escrito um “fim?” sem vergonha. É óbvio que não acabou, porque o plano dos vilões deu certo e agora Constantine vai resolver a parada.

No fim das contas, A empatia é o inimigo é uma ideia boa, com ótimas possibilidades e que foi realizada de maneira muito infeliz.

Denise Mina é uma escritora de méritos reconhecidos, autora de livros aclamados pela crítica e vencedores de prêmios. Esta série de Constantine foi sua primeira experiência nos quadrinhos e torna-se mais um exemplo de que bons escritores literários não necessariamente repetem o êxito nos quadrinhos, simplesmente porque há diferenças gritantes entre as linguagens, que precisam ser conhecidas e dominadas.

Um ponto bacana é a arte de Leonardo Branco, sombria e carregada. Um ótimo visual para as histórias.

A empatia não é o inimigo. A empatia é fundamental para a apreciação de uma boa história em quadrinhos. É preciso buscar a empatia com o leitor, conquistar seu interesse para acompanhar a trama e, por isso, a narrativa precisa ser o mais clara possível.

Não se trata de ser óbvio, mas de criar uma sensação de envolvimento consistente, que não seja quebrada por falhas de lógica e coerência dentro da linguagem sequencial.

Classificação

2,0

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