JÚLIA # 1

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2004


Autores: Giancarlo Berardi (roteiro) e Luca Vannini (desenhos).

Preço: R$ 6,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Novembro de 2004

Sinopse: Os Olhos do Abismo – Ainda se recuperando de um
não explicado trauma de seu passado, a Dra. Júlia Kendall, criminóloga
e colaboradora eventual da polícia de Garden City, inicia uma investigação
particular do assassinato de uma de suas alunas, terceira vítima de um
serial killer que tem aterrorizado a cidade, dando início a uma
caçada enigmática que perdurará pelas primeiras três edições da série.

Audrey HepburnPositivo/Negativo:
Empolgante estréia de uma das personagens mais originais da Sergio
Bonelli Editore
a aportar no Brasil. Original não num contexto mais
amplo, claro, pois tramas policiais envolvendo assassinos psicóticos já
foram exploradas à exaustão pelo cinema americano desde O Silêncio
dos Inocentes
(filme que, sem dúvida, serviu como grande fonte de
inspiração para a personagem de Giancarlo Berardi). Como se isso não bastasse,
somente a primeira temporada do seriado Millennium, de Chris Carter,
com seu plot de “serial killer da semana”, já é suficiente
para esgotar até as mais inusitadas variações sobre o tema.

A originalidade de Júlia evidencia-se no contexto dos demais heróis
da editora italiana. Em meio a um universo predominantemente masculino,
ela conquista os leitores exatamente por suas qualidades opostas aos eternos
“machões” bonellianos.

E a série em si ganha muito em força dramática graças à caracterização
maravilhosamente verossímil e coerente de sua protagonista, não caindo
em armadilhas fáceis como masculinizar a heroína (tornando-a simplesmente
um Nick Raider de saias) ou reduzi-la a um mero bibelô, como ocorre,
infelizmente, com a maioria das personagens femininas das demais séries
da editora italiana.

Não se trata exatamente de uma crítica ferrenha ao padrão dos demais títulos
(talvez apenas um “puxão de orelha”), pois existe um charme indiscutível
nos “machões” adolescentes Tex, Zagor, Mister No,
Martin Mystère e Dylan Dog, que se recusam a crescer, abandonar
seus “brinquedos” e assumir uma postura mais madura com o sexo oposto,
eternamente visto como uma fonte de atração e receio. Não deixa de ser
uma concepção de “herói” coerente com a psicanálise junguiana, que os
vê como o estágio mais primário da psique em busca de sua evolução.

E (por que não ironizar?) talvez Júlia seja o mais próximo que
a Bonelli consegue chegar dessa evolução, sem quebrar drasticamente
seu padrão editorial. Não por acaso coube ao veterano e fenomenal escritor
de Ken Parker (certamente a mais humana e profunda série produzida
pela editora) dar vida a uma heroína que rompe de maneira deliciosa com
os padrões e oferece toda uma nova gama de possibilidades para o desenvolvimento
das aventuras, tudo isso advindo, justamente, de sua condição verdadeiramente
feminina.

Assim, no mínimo, já é possível fugir de certos clichês, como lutas, tiroteios
e a conquista da gata do mês (estilo Dylan Dog) e até mesmo as
capas magníficas de Marco Soldi apresentam-se livres do indefectível símbolo
fálico do revólver, que os heróis bonellianos insistem em portar
em 90% das capas das revistas, mesmo quando a arma nem sequer aparece
no miolo (no caso de Martin Mystère é uma pistola de raios, o que dá no
mesmo).

O que resta? Inteligência, charme e uma inebriante suavidade e sutileza
que contrastam com a extrema violência dos crimes investigados. Nesta
estréia já foi possível sentir lampejos de tudo isso, mas a trama é bastante
prejudicada pela necessidade incontornável de apresentar os personagens
e estabelecer os alicerces do título. Berardi, muito sabiamente, decidiu
aproveitar essas condições para fazer do primeiro número um prólogo mesmo,
cuja trama propriamente dita se desenvolve no decorrer das edições 2 e
3.

E, de fato, Os Olhos do Abismo cumpre muito bem essa função introdutória,
apresentando personagens interessantes e com enorme potencial. A maioria
com feições de grandes astros do cinema, como Whoopy Goldberg e John Malkovich.
A própria Júlia é a perfeita encarnação da eterna Bonequinha de Luxo
Audrey Hepburn, o que se constitui numa fonte extra de carisma. Embora
o desfecho em aberto acabe sendo um pouco frustrante, é inegável que ajudou
a subir a expectativa para a próxima edição, cujo desenhista, vale lembrar,
é o excelente Corrado Roi, de Dylan Dog.

A Mythos se saiu bem com a edição brasileira, apesar das limitações
do formatinho. Boa encadernação, layout de capa esteticamente interessante,
introdução escrita especialmente para os fãs brasileiros por Giancarlo
Berardi. O único senão são as páginas borradas de tinta em alguns exemplares.

A revista tem tudo para se estabelecer no mercado editorial brasileiro
e é um lançamento infinitamente mais interessante do que Dampyr,
em todos os aspectos. Como todo título Bonelli, a série enfrentará
dificuldades, especialmente na concorrência com as vistosas revistas coloridas
dos super-heróis.

A aposta maior será atrair um público mais selecionado e exigente em relação
ao conteúdo, especialmente as mulheres que, finalmente, se vêem mais bem
representadas nas páginas bonellianas.

Um curioso alerta: algumas bancas por aí estão expondo a revista junto
com os livrinhos românticos das séries Júlia, Bianca, Sabrina
e congêneres. Confusões assim já eram previstas, não só por parte dos
jornaleiros, mas dos leitores também.

Por isso, não se engane e avise aos navegantes: a Júlia de Giancarlo
Berardi nada tem a ver com esses livrinhos pseudo-femininos que, no fundo,
conseguem ser mais machistas do que qualquer herói com pistola na mão
conseguiria ser.

Classificação:

4,0

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